Jim Watson/AFP
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Biden diz que política não pode interferir em vacina; tema entra na campanha dos EUA

Possibilidade de o governo Trump acelerar a produção de uma vacina segura se tornou o ponto central da campanha para as eleições de 3 de novembro, que mostra o presidente ficando para trás nas pesquisas contra seu rival democrata 

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 18h31

WILMINGTON, EUA - O candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, disse nesta quarta-feira, 16, que a política não pode interferir no desenvolvimento, aprovação e distribuição de uma potencial vacina para a covid-19. "Os avanços científicos não se preocupam com calendários, assim como o vírus. Eles certamente não aderem aos ciclos eleitorais", disse Biden, em um evento em Wilmington, Delaware, onde mora. 

"Seu tempo, sua aprovação e distribuição nunca devem ser distorcidos por considerações políticas. Eles devem ser determinados apenas pela ciência e pela segurança", disse ele, desafiando as previsões otimistas do presidente republicano Donald Trump, a quem ele acusa de mentir aos americanos sobre a ameaça da pandemia. 

A possibilidade de o governo Trump acelerar a produção de uma vacina segura se tornou o ponto central da campanha para as eleições de 3 de novembro, que mostra o presidente ficando para trás nas pesquisas contra seu rival democrata. 

Uma pesquisa nacional Reuters/Ipsos divulgada nesta quarta-feira mostrou Biden com uma vantagem de nove pontos porcentuais sobre Trump entre os prováveis eleitores. De acordo com o instituto, a mensagem "lei e ordem" de Trump não está atingindo seu público alvo de eleitores dos subúrbios que, assim como a maioria dos americanos, está em grande parte preocupado com o coronavírus, que matou até agora mais de 195 mil nos EUA. 

Biden enfatizou que apoia o lançamento rápido de uma vacina, mas somente se ela se mostrar segura e eficaz e se houver "transparência total" do ponto de vista científico. Trump insiste que haverá uma vacina em "algumas semanas", mas um especialista do governo alertou nesta quarta que uma vacina para uso em massa estará disponível, no mínimo, em meados de 2021.

O candidato democrata, que lentamente tem aumentado suas aparições públicas, incluindo uma viagem à Flórida na terça-feira, mas ainda não conseguiu igualar o fervor que o presidente desperta em seus comícios, fez um discurso e conversou com a imprensa em seu feudo de Wilmington após receber instruções de especialistas em saúde sobre as perspectivas da vacina contra o coronavírus. 

Especialistas dizem que a vacina é uma das melhores maneiras de impedir o avanço de uma pandemia. 

Em um fórum na terça-feira, Trump insistiu em suas próprias previsões otimistas, dizendo que pode haver uma vacina disponível antes mesmo da eleição. "Estamos a apenas algumas semanas de conseguir, vocês sabem, pode levar três ou quatro semanas", disse ele em uma sessão de perguntas e respostas com eleitores na Pensilvânia, transmitida pela ABC News. 

Poucas horas antes, falando à Fox News, Trump disse que uma vacina poderia chegar em "quatro semanas, pode ser oito semanas". 

Vacina ampla só no ano que vem

O diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Robert Redfield, disse ao Congresso que uma vacina não estará amplamente disponível este ano.  "Acho que haverá uma vacina que estará inicialmente disponível entre novembro e dezembro, mas em um fornecimento limitado e deve ser priorizada", acrescentou Redfield diante de uma comissão do Senado. 

Entretanto, uma vacina acessível a todos os americanos que permite o "retorno à vida normal" não estará disponível até "o fim do segundo trimestre ou terceiro trimestre de 2021".

Os democratas expressaram preocupação com o fato de Trump estar pressionando os reguladores de saúde do governo e cientistas a aprovarem uma vacina a tempo de ajudá-lo a subir nas pesquisas. 

Trump também surpreendeu quando questionado sobre por que minimizou a gravidade da pandemia nos primeiros meses. "Eu não subestimei isso", respondeu. "Na verdade, de várias maneiras, tirei vantagem disso em termos de ação."

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Trump disse ao jornalista Bob Woodward durante entrevistas gravadas em fevereiro e março que ele deliberadamente decidiu "minimizar" a gravidade da covid-19 para evitar alarmar os americanos.  

Trump também voltou a uma de suas visões mais controversas sobre o vírus, insistindo que ele "está indo embora" e que o país está "virando a página" do coronavírus.  Questionado sobre como o vírus iria embora por conta própria, ele disse que "alguém desenvolverá uma mentalidade de rebanho", aparentemente se referindo ao conceito de imunidade de rebanho, que ocorre quando um número suficiente de pessoas desenvolveu resistência à doença para interromper a transmissão de forma eficaz.

'A ciência sabe'

Os comentários do presidente geraram críticas na campanha de Biden. "Trump acabou de confirmar esta noite (terça-feira), mais uma vez, que mesmo depois de oito meses deixando a pior crise de saúde pública em 100 anos sair de controle, ele não apenas não tem um plano, ele não tem nem ideia", disse a diretora de  comunicação, Kate Bedingfiel em comunicado.

Com a covid-19 devastando a economia dos Estados Unidos e levando milhões de famílias a uma crise financeira, a campanha Trump tem repetidamente anunciado uma possível vacina rápida como salvação./Reuters e AFP 

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