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Charlie Neibergall/AP
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Biden: do candidato das 'promessas' ao presidente das 'mudanças' pós-covid, leia a análise

Presidente americano não prometeu revoluções, mas pandemia mudou o cenário e ele está propondo mudanças importantes na sociedade americana

Ashley Parker / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Como candidato democrata às primárias, Joe Biden disse aos espectadores do debate que entendia que a maioria dos americanos estava “em busca de resultados, não de uma revolução”. Ele prometeu aos doadores ricos que, em um governo Biden, “nada mudaria fundamentalmente”. E declarou às plateias de comícios que se via “como uma ponte, nada mais”, para uma nova geração de líderes democratas.

Mas aí a covid mudou tudo.

Quando Biden ascendeu à presidência, ele já tinha se remodelado como um líder transformacional - um presidente preparado para reformar fundamentalmente o papel do governo na sociedade em nome dos trabalhadores e trabalhadoras do país.

A pandemia - que chegou à marca de meio milhão de americanos mortos no início de seu segundo mês no cargo - forneceu um princípio organizador para a presidência de Biden e uma missão clara para ele liderar. Mas o coronavírus também expôs desigualdades arraigadas, desde o racismo estrutural até uma classe média frágil, a apenas uma doença ou um pagamento atrasado da queda livre.

Biden assumiu a presidência citando quatro grandes crises - o coronavírus, a economia, a desigualdade racial e as mudanças climáticas - e com essas emergências surgiu a oportunidade de se tornar grande, ousado e ambicioso, levando a cabo uma legislação massiva, com ou sem o apoio dos parlamentares republicanos em Washington.

“Antes da covid, nunca pensei que ele seria um presidente transformador, pensava apenas que ele daria os próximos passos. Agora, a situação o fez dar saltos”, disse Greg Schultz, conselheiro de Biden de longa data que gerenciou sua campanha presidencial de 2020 durante as primárias.

Ele procurou redefinir o bipartidarismo, apelando menos aos republicanos do Congresso e mais aos eleitores e às autoridades eleitas de todo o país. E, até agora, Biden em grande parte aplacou as preocupações da esquerda e do centro, parecendo moderado em tom e temperamento, mas buscando muitas das prescrições de política liberal promovidas pela base de seu partido.

Muitos republicanos, porém, argumentam que Biden realmente deu uma guinada radical. O senador Lindsey O. Graham (Carolina do Sul), que conhece Biden desde seus dias no Senado, lembrou a reputação do presidente como “um cara estável” e um político que “sempre foi progressista, mas com quem você pode negociar”. Ele disse que ficou “surpreso” com o que viu de Biden como presidente até agora.

Aliados e conselheiros dizem que Biden chegou à presidência como um político versado em estratégia e negociação - com 36 anos no Senado e 8 como vice-presidente de Obama - e como uma pessoa versada em perdas.

Aos 78 anos, Biden está em paz profissionalmente, dizem seus aliados, querendo realizar muito, mas com obrigação de provar pouco. Ele vê a presidência como uma pedra angular, não um trampolim, e traz para o cargo a crença de que conseguirá unificar uma nação dividida.

“A história cria momentos para os líderes e não sei se em alguma outra época Joe Biden teria sido presidente dos Estados Unidos”, disse David Axelrod, ex-conselheiro de Obama. “Mas ele era a pessoa certa para este momento: sua empatia, sua calma, sua experiência são qualidades que este momento exigia.”

À medida que se aproxima da marca dos cem dias, Biden se aproxima também do fim da parte já roteirizada de sua presidência.

Ele enfrenta uma crise de imigração na fronteira sul do país, um debate acalorado sobre as reformas policiais na sequência de um veredicto de assassinato no caso de George Floyd e uma pressão para aprovar controles de armas mais rígidos em meio a uma maré de tiroteios em massa. O conselheiro sênior Mike Donilon disse que as experiências de vida de Biden o prepararam para se adaptar a mudanças repentinas.

No ano passado, durante as primeiras semanas da pandemia, tanto Biden quanto a senadora Elizabeth Warren (democrata de Massachusetts) perderam uma pessoa próxima para o coronavírus. Para Biden, foi seu velho conselheiro Larry Rasky. Para Warren, foi seu irmão mais velho, Don Reed Herring.

Warren contou como, em um telefonema entre os dois logo após essas mortes, Biden “conseguia, na mesma frase sobre política e saúde pública, falar sobre o que significa perder alguém que você ama”.

Algumas das ideias que eles discutiram durante a conversa - a importância dos centros de saúde comunitários, do melhor acesso ao teste do coronavírus e da vacinação - acabaram se refletindo no pacote de auxílio que ele sancionou como presidente.

Liberais como Warren estão bastante satisfeitos com a forma como Biden tem governado até agora, especialmente diante de sua reputação de centrista durante as primárias.

Biden muitas vezes parece ter um forte senso dos rumos do Partido Democrata. Como vice-presidente em 2012, ele saiu do roteiro quando apoiou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em resposta a uma pergunta no programa ‘Meet the Press’ do canal NBC - frustrando a Casa Branca por ficar à frente de Obama, que ainda não havia feito uma declaração pública.

Essas quatro crises que Biden identificou, disse o chefe de gabinete da Casa Branca, Ron Klain, ajudaram a formar “os quatro pilares de sua presidência”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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