Biden é o único homem honesto em Washington

Vice-presidente disse algumas verdades inconvenientes a aliados no Golfo no combate ao EI

GOPAL, RATNAM, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2014 | 02h03

O vice-presidente americano Joe Biden teve que se desculpar, duas vezes, com dois importantes aliados americanos no combate ao Estado Islâmico (EI). Não foi por ter feito acusações falsas. Foi por ter dito acidentalmente algumas verdades inconvenientes.

Falando no Fórum John F. Kennedy da Universidade Harvard no fim de semana, Biden abandonou suas anotações para fazer uma série de apartes contra Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU), três membros poderosos da nascente coalizão liderada pelos EUA para combater o EI no Iraque e na Síria. A Arábia Saudita e os Emirados tomaram parte nos primeiros ataques aéreos americanos contra o grupo, e Riad se ofereceu para abrigar uma instalação de treinamento para milhares de rebeldes sírios moderados. O Parlamento turco recentemente autorizou ataques militares tanto na Síria como no Iraque.

Mas não foi a essas partes dos históricos dos três países que Biden estava se referindo. A Turquia, disse o vice-presidente , não havia fechado sua longa fronteira com a Síria, permitindo que militantes leais ao EI cruzassem a fronteira para se unir à sua luta. Ele disse que a Arábia Saudita e os EAU, por sua vez, haviam transferido centenas de milhões de dólares e armas a várias milícias na Síria, entre as quais ao menos uma relacionada à Al-Qaeda.

Os três países ficaram furiosos, mas há elementos de verdade em tudo que Biden disse, particularmente no que diz respeito à Turquia, que seria um personagem fundamental em qualquer esforço sério para derrotar o EI.

Havia muito que autoridades americanas acreditavam que a Turquia não havia feito virtualmente nada para fechar sua fronteira com a Síria e tinha evitado empreender qualquer ação militar direta contra o EI, em parte porque os militantes, até recentemente, mantinham reféns diplomatas e outros cidadãos turcos. O New York Times reportou em setembro que até 1 mil turcos haviam cruzado a fronteira para a Síria para lutar ao lado do EI, juntamente com um número não especificado de combatentes estrangeiros.

Em setembro, quando anunciou o começo da atual campanha contra o EI, o presidente Barack Obama citou a questão da fronteira - embora não houvesse mencionado especificamente a Turquia - quando ressaltou a necessidade de "conter o fluxo de combatentes estrangeiros".

Até 1 mil turcos uniram-se ao EI. Os recrutas citam tanto o apelo ideológico do grupo a jovens insatisfeitos, como o dinheiro que ele paga aos combatentes, que sai de seus cofres recheados. A CIA estimou que, na semana passada, o grupo reunia entre 20 mil e 31,5 mil combatentes no Iraque e na Síria.

Algumas autoridades americanas esperam que a Turquia se disponha a fazer mais contra o EI agora que os reféns foram libertados e os militantes parecem estar potencialmente a dias apenas de conquistar a cidade de Kobani, na fronteira sírio-turca.

"Nossos aliados na região eram nosso maior problema na Síria", disse Biden em resposta à pergunta de um aluno em Harvard que quis saber se os EUA não deveriam ter agido mais cedo para impedir a guerra civil na Síria e por que decidiram agir agora. "Os turcos eram grandes amigos, e tenho uma ótima relação com (o presidente turco Recep Tayyip) Erdogan, os sauditas, os Emirados, etc. O que eles estavam fazendo? Estavam determinados a depor (o presidente sírio Bashar) Assad e travam uma guerra por procuração sunita-xiita. O que fizeram?" perguntou Biden, segundo uma gravação postada no site da Casa Branca. "Despejaram centenas de milhões de dólares e milhares de toneladas de armas em qualquer um que lutasse contra Assad, mas as pessoas que estavam sendo abastecidas eram da Al-Nusra, da Al-Qaeda, e elementos extremistas de outras partes do mundo."

"O presidente Erdogan me disse - ele é um velho amigo - 'Você está certo; deixamos gente demais passar. Agora estamos tentando fechar a fronteira'", com a Síria, disse Biden. Erdogan negou ter feito essas observações, insistiu que nenhum militante havia cruzado da Turquia para a Síria, e disse que Biden se tornaria "história para mim" sobre os comentários do vice-presidente. O chanceler dos EAU disse que as observações passavam "longe da verdade".

Biden se desculpou com Erdogan e a Casa Branca informou que o vice-presidente havia telefonado para o príncipe coroado de Abu Dabi, Mohammed bin Zayed al-Nahyan, para declarar que suas observações não "pretendiam dizer que os Emirados haviam facilitado ou apoiado" o Estado Islâmico, a Al-Qaeda ou outros grupos terroristas na Síria.

Os comentários de Biden podem ter sido pouco políticos - e de certa maneira imprecisos -, mas a substância de suas observações combinam com o que a comunidade de inteligência dos EUA já sabe há algum tempo e às quais já fez alusões públicas. "A Síria se tornou um campo de batalha por procuração entre Irã e Hezbollah (xiitas) de um lado e Estados árabes sunitas do outro", disse James Clapper, diretor de inteligência nacional, ao Senado em janeiro. O "descontentamento de alguns Estados do Golfo com as políticas americanas sobre Irã, Síria e Egito poderia levar esses países a reduzir a cooperação com os EUA em questões regionais e a agir unilateralmente de maneiras que contrariam interesses americanos".

Aliás, tanto a Arábia Saudita como os Emirados deram apoio significativo ao Exército Sírio Livre (ESL), uma milícia vista como bem mais moderada do que os militantes que hoje lideram a luta contra Assad. Acredita-se que radicais islâmicos se apoderaram do dinheiro e do armamento depois de tomar posições do ESL. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA

Tudo o que sabemos sobre:
Estado IslâmicoEUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.