Tom Brenner/REUTERS
Tom Brenner/REUTERS

Biden é pressionado por desmate da Amazônia

Ex-negociadores climáticos propõem uso de acordos comerciais para conter destruição

Lisa Friedman, The New York Times

31 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON - Durante sua campanha, o presidente Joe Biden disse que os Estados Unidos deveriam mobilizar US$ 20 bilhões para deter a destruição da Floresta Amazônica e impor “significativas consequências econômicas” se o desmatamento continuar.

O presidente populista e conservador do Brasil, Jair Bolsonaro, respondeu em português usando apenas maiúsculas: “NOSSA SOBERANIA NÃO É NEGOCIÁVEL”, escreveu ele no Twitter. A nova liderança do Brasil “não aceita mais subornos, demarcações criminosas e ameaças infundadas”.

Na sexta-feira passada, uma coalizão bipartidária formada por sete ex-secretários e negociadores de políticas contra a mudança climática pressionou Biden a seguir com o plano mesmo assim.

“A Floresta Amazônica é absolutamente essencial para o mundo. Ela estabiliza o clima e as chuvas da Terra, sustenta dezenas de milhões de pessoas e abriga mais animais do que qualquer outro lugar”, disse Bruce Babbitt, ex-governador do Arizona e secretário do interior durante o governo Bill Clinton.

Em carta endereçada na sexta-feira passada a Biden e à vice-presidente Kamala Harris, o grupo de Babbitt apresentou um “Plano de Proteção da Amazônia”, com foco no dinheiro, nos acordos comerciais, nas regulações financeiras e nos compromissos corporativos. O objetivo era dar substância às promessas de campanha de Biden e a uma diretriz anunciada na quarta-feira passada pelo Departamento de Estado que fala no desenvolvimento de políticas para a proteção da Amazônia.

“O Congresso e o povo americano têm um longo histórico de defesa da preservação da Floresta Amazônica. Trata-se de algo concreto e inspirador que consegue o apoio de muitos”, escreveu o grupo, que inclui Christine Todd Whitman e William Reilly, dois ex-administradores da Agência de Proteção Ambiental que serviram durante governos republicanos; Todd Stern, enviado especial do presidente Barack Obama para as questões de mudança climática; Tim Wirth e Frank Loy, subsecretários de Estado para assuntos globais durante o governo Clinton; e Stuart Eizenstat, que comandou a delegação americana nas negociações do Protocolo de Kyoto, em 1997.

A coalizão insiste para que Biden convoque uma reunião de cúpula na Casa Branca para pressionar lideranças corporativas a ajudarem no financiamento de uma redução de pelo menos 1 bilhão de toneladas em emissões de gases-estufa na Amazônia até 2025. Pedem também a Biden que amplie as trocas de “dívidas pela natureza” e negocie acordos desse tipo com governos da região da Amazônia.

O objetivo da proposta envolve tornar o combate ao desmatamento parte central de acordos comerciais e fechar as brechas nas leis criadas contra crimes ambientais no exterior.

As empresas já são proibidas de importar madeira de florestas desmatadas ilegalmente. Mas isso não se aplica à carne bovina, à soja ou outros commodities agrícolas que podem ser criados ou cultivados em terras desmatadas.

“Sem intenção, estamos criando incentivos financeiros para que criminosos incendeiem a Amazônia e a transformem em terras agrícolas”, disse Nigel Purvis, ex-negociador climático dos EUA e diretor executivo da Climate Advisers, um grupo que prepara políticas para Washington.

Um porta-voz de John Kerry, enviado internacional de Biden para questões climáticas, disse que o gabinete deve incluir especialistas em desmatamento, e a proteção da Amazônia “será um elemento importante da diplomacia climática dos EUA”.

Em carta enviada a Biden na semana passada, Bolsonaro – depois de passar semanas repetindo as acusações infundadas de fraude eleitoral bradadas por seu aliado, Donald Trump – expressou a esperança de que EUA e Brasil possam estabelecer um acordo comercial.

Babbitt disse que “significativas provisões ambientais em acordos comerciais” podem ser a forma mais importante de deter o desmatamento.

Faz tempo que os cientistas dizem que qualquer esperança de impedir que as temperaturas globais alcancem níveis catastróficos envolve a restauração das degradadas florestas do mundo, em especial a Amazônia.

Sob Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia brasileira alcançou um recorde no ano passado, quando cerca de 11 mil quilômetros quadrados (área um pouco inferior à do Estado de Connecticut) de mata foram destruídos, de acordo com a agência brasileira de pesquisa espacial.

Thomas Shannon, que atuou como embaixador no Brasil de 2010 a 2013, disse que pressionar Bolsonaro não vai funcionar. “O Brasil não será intimidado”, disse Shannon. Ele acrescentou que o desafio de Biden “é criar uma diplomacia capaz de convencer o Brasil de que há razão para retomar os contatos com o restante do mundo”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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