AP Photo/Pavel Golovkin
AP Photo/Pavel Golovkin

Biden e Putin têm reunião de cúpula virtual em meio a escalada de tensões no Leste da Europa

Presidentes dos EUA e da Rússia participam de reunião nesta terça-feira na tentativa de conter acirramento bélico na fronteira da Ucrânia

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 05h00

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos Estados Unidos, Joe Biden, ficarão "frente a frente" - pelo menos virtualmente - nesta terça-feira, 7, durante uma reunião de cúpula convocada em um momento de acirramento das relações entre aliados da Otan, russos e Ucrânia. O encontro por videoconferência entre dois dos principais líderes mundiais está marcada para o meio-dia em Washington (20h em Moscou - e 14h em Brasília), e deve ser marcado pela tentativa russa de garantir um compromisso por escrito de que a Ucrânia não se tornará parte da Otan, enquanto os EUA pretendem passar a mensagem de que podem aumentar a presença militar no Leste da Europa caso o Kremlin não recue de sua escalada militar.

Putin e Biden têm uma enorme lista de divergências a ser discutida, desde o tratamento dispensado pela Rússia a seus dissidentes à presença de grupos de hackers em solo russo. No entanto, a principal questão na reunião desta terça é o envio de tropas russas para posições ao longo da fronteira da Ucrânia, o que fez disparar um alarme na Europa e nos EUA sobre a chance do Kremlin ordenar uma invasão ao país vizinho - manobra que poderia movimentar cerca de 175 mil militares, de acordo com a inteligência americana.

Analistas e líderes políticos debatem se a movimentação militar russa atual representa um risco real de invasão da Ucrânia ou se Putin está usando meios bélicos para pressionar Biden pelas garantias de que a Otan nunca se expandirá para o país - que separa a Rússia da União Europeia. A expectativa é de que o presidente russo faça um ultimato ao presidente americano sobre a questão na reunião da terça.

O Kremlin já indicou que deseja ter garantias por escrito de que a aliança militar não se expandirá para o Leste - tanto em termos de países-membros quanto de presença de forças ocidentais. Na quinta passada, durante um encontro entre o ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, em Estocolmo, o chanceler russo disse que nem mesmo queria especular "se o Ocidente se recusaria a considerar [nossas propostas]. Em minha opinião, todos ouviram o presidente Putin e ficaram cientes de que [elas] são sérias".

Nesta segunda, o porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov afirmou que Putin planeja delinear as propostas da Rússia a Biden, mas admitiu que não há uma expectativa real de avanço durante a reunião. "É difícil esperar um avanço dessas negociações (...) em umas horas", disse Peskov, acrescentando que os russos esperam: "Ao menos que os dirigentes possam se informar mutuamente de suas preocupações, formular essas preocupações de forma clara e responder a elas", afirmou.

Tatiana Stanovaya, fundadora da consultoria política R. Politik Center e estudante não residente do Carnegie Moscow Center, indica que este poderia ser o objetivo final de Putin. "Ou a Otan oferece garantias ou a Rússia invade a Ucrânia", observa. 

Heather Conley, ex-assistente da secretaria de Estado dos Estados Unidos para Assuntos Europeus, acredita que Putin está disposto a aplicar "enorme pressão" no confronto ucraniano. Além disso, ele quer enfraquecer os laços do Ocidente com a Ucrânia, vista por alguns como "uma espécie de porta-aviões da Otan".

Após o encontro dos chanceleres, contudo, Biden disse na sexta-feira que não aceitaria nenhuma "linha vermelha" imposta por ninguém. O posicionamento do presidente é respaldado pela narrativa americana até aqui: a Casa Branca ameaçou a Rússia com "consequências graves" - que se acredita serem sanções financeiras que isolariam o país do sistema financeiro global - se ela empreender uma ação militar contra a Ucrânia.

Na segunda-feira, um alto funcionário do governo ouvido em anonimato pela France Presse nesta segunda-feira afirmou que, do lado americano, o posicionamento é manter o apoio aos aliados no Leste europeu, respondendo "afirmativamente" caso seja solicitada uma maior presença militar em caso de um ataque russo. "Se Putin se mover, haveria uma maior demanda de nossos aliados" para aumentar a presença de "tropas, capacidades e exercícios [militares]", disse o funcionário.

Mas o fato de Putin se encontrar com Biden em meio a tensões aumentadas entre Moscou e o Ocidente mostra que Putin considera Biden alguém "que está pronto para falar seriamente sobre as preocupações russas", disse Stanovaya. "Putin realmente viu algo em Biden", acrescentou. "Talvez pela primeira vez em muitos e muitos anos, Putin tem esperança de que, com Biden, haja uma chance real de tentar encontrar um entendimento".

A retórica da Rússia é que é ela que está sendo ameaçada. Em um discurso ao Conselho do Ministério das Relações Exteriores da Rússia em novembro, Putin advertiu que o Ocidente tem uma "abordagem superficial a nossos avisos sobre linhas vermelhas". Ele destacou como os Estados Unidos e seus aliados fornecem armas letais a Kiev, conduzem exercícios militares "provocativos" no Mar Negro e lançam bombardeiros estratégicos a apenas 12 milhas das fronteiras da Rússia.

Ele também alertou contra o posicionamento de sistemas de defesa antimísseis na Ucrânia semelhantes aos da Romênia e da Polônia, alegando que eles poderiam ser armas ofensivas secretas capazes de chegar a Moscou em 10 minutos.

"Para ele, é tudo uma questão de sobrevivência pessoal", disse Pavel Felgenhauer, um analista militar em Moscou. "Se você está sentado no Kremlin por mais de 20 anos governando a Rússia, você fica paranóico."

Fyodor Lukyanov, analista político próximo ao Kremlin, duvida que Biden e Putin chegarão a um acordo sobre resultados concretos na terça-feira, embora rejeite que hostilidades possam surgir se as negociações fracassarem. "Não, isso é histeria agitada pelo mundo ocidental", disse à France Presse. "As guerras começam de repente. Se começar, começará de maneira diferente".

Desde 2014, o Leste da Ucrânia é o cenário de guerra  que deixou mais de 13 mil mortos, entre militares do Exército ucraniano e grupos separatistas apoiados pela Rússia. O conflito resultou na anexação da península da Crimeia pelos russos.

Antes da reunião entre os chefes de Estado, o presidente ucraniano Volodmir Zelenski visitou a linha de frente das forças ucranianas no combate contra os separatistas, em Donetsk, onde conversou com as tropas e distribuiu presentes aos militares, em comemoração pelos 30 anos da formação das forças armadas do país./ W. POST e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.