The White House via REUTERS
The White House via REUTERS

Biden e Putin vão ter reunião sobre Ucrânia e Otan; entenda as crises entre os dois países

A Casa Branca indicou que Biden pretender reforçar que ainda há um caminho diplomático para a situação, embora Putin tenha ordenado o deslocamento de cerca de 100 mil militares para a região.

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2021 | 10h17

WASHINGTON - Os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden, e da Rússia, Vladimir Putin, vão discutir o avanço de tropas russas na fronteira com a Ucrânia e outros temas em que os dois países rivalizam em um telefonema agendado para a tarde desta quinta-feira, às 17h30 (de Brasília). 

“O presidente Biden expressou as profundas preocupações dos Estados Unidos e de nossos aliados europeus sobre a escalada de forças da Rússia em torno da Ucrânia”, informou a Casa Branca em comunicado.  "(O presidente) deixou claro que os EUA e nossos aliados responderiam com fortes medidas econômicas e outras no caso de uma escalada militar.”

Não ficou claro, porém, quais seriam essas medidas. Fontes oficiais informaram à imprensa americana na segunda-feira, 6, que o movimento seria para isolar a Rússia do sistema financeiro internacional, uma medida drástica reservada para casos extremos. As últimas sanções contra o país, após a escalada de tensões de 2014 na Crimeia, no entanto, não surtiram efeito.

A Casa Branca indicou que Biden pretender reforçar que ainda há um caminho diplomático para a situação, embora Putin tenha ordenado o deslocamento de cerca de 100 mil militares para a região.

O democrata, no entanto, deve reiterar que, para que haja “progressos reais”, as conversas devem ocorrer em um “contexto de redução das tensões ao invés de escalada”, de acordo com um funcionário do governo americano.

A ligação, que foi solicitada por autoridades russas, ocorre no momento em que autoridades americanas e russas se preparam para reuniões em 10 de janeiro em Genebra. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou que Putin falará com Biden nesta quinta-feira, mas não forneceu detalhes.

A Casa Branca disse que Biden e Putin, que se reuniram em Genebra em junho para discutir uma série de tensões nas relações EUA-Rússia, não deveriam participar das próximas negociações. Os dois líderes realizaram uma videoconferência no início deste mês em que sua conversa se concentrou fortemente nos movimentos de tropas russas que perturbaram a Ucrânia e outros aliados europeus.

No início deste mês, Moscou apresentou o rascunho de um documento de segurança exigindo que a Otan negasse a adesão à Ucrânia e outros países da antiga União Soviética e retrocedesse seus posicionamentos militares na Europa Central e Oriental.

Os EUA e seus aliados se recusaram a oferecer à Rússia o tipo de garantias sobre a Ucrânia que Putin deseja, citando o princípio da Otan de que a adesão está aberta a qualquer país qualificado. Eles concordaram, no entanto, em manter conversações com a Rússia para discutir suas preocupações. 

Ucrânia e Otan

A Rússia teme a entrada da Ucrânia Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e pede o fim da expansão da entidade para regiões perto de suas fronteiras.  A chancelaria russa já alertou a aliança atlântica de que a inclusão de Ucrânia e Geórgia no pacto, como prevê um documento assinado em 2008, poderia levar a um conflito militar envolvendo toda a Europa. 

A chancelaria russa disse ainda  que a Otan estava em vias de atrair a Ucrânia, levando para o território postos de lançamento de sistemas de mísseis que teriam como alvo a Rússia. Os russos também pediram o estabelecimento de um diálogo de defesa regular com a Otan.

A Ucrânia e a Geórgia são ex-repúblicas da União Soviética, nas quais a Rússia desempenhou um papel dominante. Kiev agora acusa Moscou de reunir dezenas de milhares de soldados em sua fronteira em preparação para uma possível ofensiva militar em grande escala.

A Ucrânia apresenta há muitos anos um dilema à Otan - um dilema que a própria aliança ajudou a criar. Em 2008, a Otan - uma aliança liderada pelos Estados Unidos, explicitamente criada para se contrapor à União Soviética - prometeu adesão para duas ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia e a Geórgia, mas sem especificar quando nem como seria concretizada.

A Rússia viu a oferta como uma potencial ameaça às suas fronteiras e uma intrusão no centro de sua esfera de influência, a mais grave de uma série de afrontas e humilhações do Ocidente desde a queda da URSS. Desde o início, alguns países-membros da Otan questionaram se a oferta de adesão havia sido uma manobra sensata, e não está claro se algum dia essa promessa será cumprida; mas previsivelmente, ela tem alimentado um duradouro conflito com o presidente Vladimir Putin.

Enquanto parceira, não membro, da Otan, a Ucrânia não se beneficia do princípio fundamental da aliança, o comprometimento com a segurança coletiva de seus integrantes, apesar de a Ucrânia ter mandado soldados para lutar em missões da Otan no Iraque e no Afeganistão.

Então, no momento em que milhares de soldados russos se concentram nas fronteiras da Ucrânia, a Otan não é obrigada por nenhum tratado a proteger a Ucrânia militarmente, nem deverá tentá-lo.

Questionado na quarta-feira a respeito da possibilidade de enviar tropas para a Ucrânia, o presidente americano, Joe Biden, descartou completamente, dizendo a repórteres na Casa Branca que “Essa carta não está na mesa”.

Mas a Otan possui um irresistível interesse em tentar tanto deter a Rússia quanto evitar ser motivo para uma invasão.

Mísseis Hipersônicos

Em novembro, o exército da Rússia anunciou um novo teste de sucesso do míssil de cruzeiro hipersônico Zircon, em um momento de disputa no desenvolvimento desse tipo de armamento.

O anúncio foi feito após a imprensa americana divulgar que a China testou, há alguns meses, um míssil hipersônico capaz de lançar um projétil, uma tecnologia que Estados Unidos e Rússia não possuem atualmente.

O exército russo afirmou em um comunicado que lançou o míssil Zircon a partir da fragata Almirante Gorchkov contra um alvo em águas do Mar Branco, no Ártico. O disparo foi um "êxito" e o alvo, localizado a mais de 400 km, foi "destruído", segundo o comunicado.

Um vídeo divulgado pelo ministério da Defesa do país mostra o artefato levantando voo em meio a um clarão de luz, seguido por um rastro de fumaça no meio da noite.

Os mísseis hipersônicos podem viajar a mais de cinco vezes a velocidade do som e, como são de "cruzeiro", também têm a capacidade de manobrar em pleno voo, o que os torna muito mais difíceis de interceptar.

O teste preocupa o governo americano, que vê a China e a Rússia em estágio mais avançado no desenvolvimento de armas hipersônicas. Biden também deve tratar desta questão com o presidente russo.

A gigantesca indústria de defesa dos Estados Unidos está investindo bilhões de dólares de olho no mercado de armas hipersônicas — como os mísseis Mach 5, que voam a pelo menos 6.174km/h, ou seja, cinco vezes mais que a velocidade do som. 

A indústria está desenvolvendo uma série de armamentos de superalta velocidade para o Exército, a Marinha e a Força Aérea dos EUA, com o objetivo de poder lançá-los de aviões, submarinos e caminhões. A Lockheed Martin tem a posição de liderança em programas que pretendem entregar protótipos o mais rapidamente — com testes de vôo em um novo míssil programados para o primeiro semestre do próximo ano. A Raytheon Technologies e a Northrop Grumman também buscam se firmar no mercado de mísseis que voam a mais de cinco vezes a velocidade do som.

“O que importa é garantir que tenhamos cada vez mais capacidade e classes de capacidade em armas hipersônicas”, diz Jay Pitman, vice-presidente de domínio aéreo e armas de ataque contra mísseis e divisão de controle de fogo da Lockheed. “Isso aumentará a dissuasão estratégica que somos capazes de fornecer.” / AP, NYT e W.POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.