Shannon Stapleton/ Reuters
Shannon Stapleton/ Reuters

Biden culpa Trump e aliados por invasão do Capitólio e diz que democracia 'está em risco'

Presidente americano chamou seu antecessor de perdedor, mentiroso e ameaça à democracia em aniversário de 1 ano do ataque ao Capitólio dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 08h54
Atualizado 06 de janeiro de 2022 | 13h23

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, culpou seu antecessor, Donald Trump, pelo caos em 6 de janeiro do ano passado, quando apoiadores do líder republicano invadiram o Capitólio.

Em um discurso feito no National Statuary Hall, uma câmara no Capitólio dedicada a esculturas de americanos proeminentes, no aniversário de um ano do violento ataque ao Congresso americano, Biden disse: “há um ano, hoje, neste lugar sagrado, a democracia foi atacada, simplesmente atacada. A vontade do povo estava sob ataque. A Constituição, nossa Constituição, enfrentou a mais grave das ameaças ”.

“Pela primeira vez em nossa história, um presidente não apenas perdeu uma eleição: ele tentou impedir a transferência pacífica do poder quando uma multidão violenta invadiu o Capitólio”, disse Biden. "Mas eles falharam."

"Aqui está a verdade: o ex-presidente dos Estados Unidos da América criou e espalhou uma rede de mentiras sobre as eleições de 2020. Ele fez isso porque valoriza o poder sobre os princípios, porque ele considera o seu próprio interesse mais importante do que o interesse do seu país e o interesse da América, e porque o seu ego ferido é mais importante para ele do que a nossa democracia ou a nossa Constituição. Ele não consegue aceitar que perdeu".

Biden enumerou três "grandes mentiras" de Donald Trump e aliados: a primeira de que a insurreição havia acontecido no dia da eleição, a segunda de que os votos nas urnas não eram confiáveis e a terceira de que os invasores do Capitólio eram os verdadeiros patriotas.

"A eleição de 2020 foi a maior demonstração de democracia na história deste país. Mais de vocês votaram naquela eleição do que em toda a história americana. Mais de 150 milhões de americanos foram às urnas e votaram naquele dia, em um pandemia, alguns com grande risco de vida. Eles deveriam ser aplaudidos, não atacados ", disse.

Riscos à democracia

O presidente ressaltou que o episódio de um ano atrás demonstrou as fragilidades da democracia americana, mas também sua capacidade de combater ameaças. "Aqueles que invadiram este Capitólio, e aqueles que instigaram e incitaram, e aqueles que os chamaram a fazê-lo, apontaram uma adaga na garganta da América, na democracia americana,” disse Biden

"Você não pode amar seu país apenas quando vence. Você não pode obedecer à lei apenas quando é conveniente. Você não pode ser patriota quando abraça e permite mentiras".

Biden ainda citou China e Rússia, dizendo que os adversários "apostam que os dias da democracia estão contados". "Na verdade, eles me disseram que a democracia é muito lenta, muito atolada pela divisão para ter sucesso no mundo complicado e em rápida mudança de hoje. E eles estão apostando que a América se tornará mais como eles e menos como nós. Eles estão apostando que a América é um lugar para um autocrata, um ditador, um homem forte."

Embora tenha se referido a Trump como o "ex-presidente" dezenas de vezes, Biden não citou Trump pelo nome uma única vez. Em conversa com os repórteres logo após o discurso, o presidente disse que não queria transformar sua fala em uma "batalha política contemporânea".

A vice-presidente Kamala Harris falou antes de Biden e reforçou o discurso de proteção à democracia americana. "Em 6 de janeiro, todos nós vimos como seria nossa nação se as forças que buscam desmantelar nossa democracia fossem bem-sucedidas: a ilegalidade, a violência, o caos", disse.

"O que os extremistas que vagavam por esses corredores visavam não eram apenas as vidas dos líderes eleitos. O que eles buscavam degradar e destruir não era apenas um edifício, sagrado como é. O que eles estavam atacando eram as instituições, os valores, os ideais, que gerações de americanos marcharam, fizeram piquetes e derramaram sangue para estabelecer e defender", acrecentou.

Escalada no discurso

A decisão de Biden de usar o discurso de um ano da invasão ao Capitólio para culpar Trump e seus aliados republicanos diretamente por seu papel neste ataque sem precedentes à democracia americana marca uma forte escalada na estratégia do presidente em relação aos distúrbios.

Durante o primeiro ano de seu governo, Biden tem optado por ignorar Trump, que ainda se nega a admitir a derrota nas eleições presidenciais de 2020 e continua difundido teorias da conspiração entre seus milhões de seguidores, dizendo que ele foi o verdadeiro vencedor, apesar de ter perdido por mais de sete milhões de votos.

Mas em um discurso no Capitólio, onde há exatamente um ano uma multidão de seguidores de Trump agiu para tentar deter a certificação da vitória eleitoral de Biden. Até agora o governo, inclusive o próprio Biden, costumava evitar nomear Trump, referindo-se a ele como "o outro cara" ou "o cara de antes".

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O chefe da Polícia do Capitólio, Tom Manger, que assumiu o cargo depois do ataque, testemunhou nesta quarta diante de uma comissão do Senado.

"O dia 6 de janeiro lançou luz sobre falhas operacionais muito importantes", reconheceu Manger, segundo a versão escrita de seu testemunho, publicada pelo Senado. "É preciso solucionar esses problemas, e é o que estamos fazendo", acrescentou.

Segundo uma pesquisa publicada nesta quarta-feira pelo site Axios, cerca de 57% dos americanos consideram que o ocorrido em 6 de janeiro de 2021 poderia se repetir nos próximos anos.

A pesquisa confirma quão dividido continuam os Estados Unidos um ano depois das imagens incríveis de confrontos e de simpatizantes de Trump passeando pelo Capitólio. De acordo com a pesquisa, apenas 55% dos americanos acreditam que Biden foi o vencedor legítimo das últimas eleições.

"O dia 6 de janeiro não foi a ação irracional e espontânea de uma multidão violenta. Foi uma tentativa de reverter violentamente o resultado de uma eleição livre e justa. Não nos deixemos enganar, as razões que provocaram o dia 6 de janeiro ainda existem", afirmou hoje o líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer.

"Se não abordarmos as raízes dessa violência, essa insurreição não ficará como uma aberração, mas se converterá na regra", advertiu o senador.

Trump muda seus planos

O ex-presidente Trump decidiu cancelar a entrevista coletiva que estava prevista para esta quinta, na Flórida, considerada uma provocação pelos democratas e que colocaria os republicanos em uma saia justa.

Contudo, o magnata não suavizou em nada o seu discurso. Em nota divulgada logo após a fala de Biden, Trump o acusou de fazer uma "teatro político". "Utilizou o meu nome hoje para tentar dividir ainda mais a América. Este teatro político é apenas para distrair a atenção do fato de Biden ter falhado completa e totalmente".

Em um comunicado publicado na terça-feira, 4, Trump classificou novamente a eleição presidencial como "fraude", mas sem apresentar provas. "O crime do século", escreveu ele sobre as eleições.

Apesar de Trump ter renunciado ao protagonismo no dia do aniversário da invasão, retomará o tema em um comício programado no Arizona em 15 de janeiro.

Essa afirmação é apenas o elemento mais incendiário de um discurso de ataque contra Biden em todos os aspectos, desde a sua política migratória até a forma de lutar contra a pandemia de covid-19, que parece ser uma aposta - ainda não declarada - para recuperar o poder em 2024.

Por sua vez, os republicanos, sobre os quais o ex-presidente continua tendo muita influência, parecem preferir ficar longe dos holofotes.

Em uma mensagem datada de 2 de janeiro, Kevin McCarthy, o líder da minoria republicana na Câmara dos Representantes, que forma o Congresso dos Estados Unidos junto com o Senado, escreveu que "as ações daquele dia [6 de janeiro] foram ilegais".

O republicano, no entanto, também criticou os democratas, que - segundo ele - estão utilizando o ocorrido naquele dia "como arma partidária para dividir o país".

Mitch McConnell, líder dos republicanos no Senado, já adiantou que não estará presente no evento desta quinta-feira em Washington. Ele comparecerá ao funeral de um ex-senador em Atlanta, no sul do país, longe do Capitólio.

 

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