Lucas Jackson/Reuters
Joe Biden e Kamala Harris antes de debate entre pré-candidatos democratas em Detroit  Lucas Jackson/Reuters

Biden escolhe Kamala Harris como vice, primeira mulher negra a concorrer

Senadora pela Califórnia de 55 anos foi uma rival e crítica de Biden ao disputar a nomeação do partido democrata no ano passado, mas se aproximou do ex-vice-presidente nos últimos meses

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 17h29
Atualizado 11 de agosto de 2020 | 20h53

O candidato democrata Joe Biden escolheu a senadora Kamala Harris como a vice de sua chapa na disputa pela presidência americana. Se o democrata ganhar a eleição em novembro, Kamala será a primeira mulher e primeira negra a exercer o papel de vice-presidente dos Estados Unidos. A escolha é considerada histórica.

A senadora pela Califórnia, de 55 anos, foi uma rival e crítica de Biden ao disputar a nomeação do partido democrata no ano passado, mas se aproximou do ex-vice-presidente nos últimos meses e seu nome ganhou força com o surgimento dos protestos anti-racismo no país em junho. Biden foi vice-presidente no governo de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, e disse que considerava escolher uma candidata negra como vice.

Obama elogiou Kamala em um comunicado postado no Twitter: "Ela passou sua carreira defendendo nossa Constituição e lutando por pessoas que precisam de um tratamento justo. Este é um bom dia para nosso país. Agora vamos ganhar isso".

Também pelo Twitter, Kamala disse que se sentia honrada por ser escolhida como candidata a vice de Biden e fará o que for necessário para torná-lo o comandante-chefe dos EUA. "Joe Biden pode unificar o povo americano porque ele passou sua vida lutando por nós. E, como presidente, ele construirá uma América que vive de acordo com nossos ideais." 

Kamala já foi criticada pela ala progressista do partido, pelo seu histórico de atuação quando foi procuradora do Estado da Califórnia.  Ela apareceu, no entanto, como uma defensora dos protestos tendo ido pessoalmente a uma manifestação em frente à Casa Branca após o assassinato de George Floyd, o que passou a ser um ponto forte mesmo entre a ala à esquerda.

Com a escolha, Biden mantém a percepção de que fará uma campanha de centro, já que Kamala é vista como uma candidata pragmática e moderada.

Ao menos 11 virtuais candidatas tiveram as fichas analisadas pelo comitê de campanha de Biden. Depois de avisar seus assessores que havia finalmente tomado a decisão, Biden passou a tarde telefonando para as cotadas pela campanha para informar que não haviam sido escolhidas.

Um pouco antes do anúncio desta tarde, um dos assessores de Biden se antecipou a críticas de Trump e disse que a campanha republicana já estava desacreditada por tentar identificar como "radical" a vice, antes mesmo de saber quem seria a escolhida. O presidente tem tentado vincular Biden à ideia de um candidato radical, mas o ex-vice-presidente é do espectro moderado do partido democrata.

Logo após a divulgação da escolha de Biden, Trump publicou um vídeo no Twitter dizendo que o democrata, "que não é muito esperto", "abraçou o radicalismo de esquerda". 

Mais tarde, em sua entrevista coletiva diária na Casa Branca, disse estar "surpreso" com a decisão do candidato democrata, criticando o papel "pobre" da senadora durante as primárias democráticas

A escolha precede a convenção democrata, que começa na próxima segunda-feira e, pela primeira vez, será feita de maneira virtual em razão da pandemia de coronavírus. Pela manhã, o partido democrata divulgou a ordem dos oradores na convenção, mas Susan Rice não estava entre as selecionadas, o que fez crescer a especulação de que ela poderia ser a escolhida por Biden.

Joe Biden tem 77 anos e faz aniversário em novembro. Se eleito, será o presidente americano mais velho a tomar posse em janeiro, um fato que tornou a decisão sobre a vice ainda mais importante por três fatores. O primeiro é o risco de Biden precisar se ausentar da Casa Branca, ainda que temporariamente, para algum tratamento médico, a despeito de estar em boas condições de saúde. Ainda que não seja o caso, ele é visto como um candidato a um só mandato -- o que leva a vice a ser imediatamente credenciada como virtual candidata democrata a presidente em 2022.

Para Entender

Como funciona a escolha do presidente dos EUA

No dia 3 de novembro de 2020, 224 milhões de eleitores americanos irão às urnas e darão seu veredicto sobre a presidência de Donald Trump; veja o que mais está em jogo

Além disso, Biden precisava sinalizar, com a escolha da vice, que está atento aos movimentos pela renovação do partido, que teve as primárias mais diversas da história neste ano, com ao menos duas mulheres em posição competitiva e o primeiro pré-candidato assumidamente gay. Por passar longe da renovação cobrada por eleitores, Biden precisava sinalizar, com a escolha da vice, o compromisso com o futuro da legenda.

Nasceu daí e da necessidade de minimizar as acusações de assédio sexual feitas por sua ex-assessora Tara Reade a promessa feita ainda em março de colocar uma mulher como vice-presidente dos EUA.

O candidato democrata, que será indicado oficialmente na Convenção que ocorrerá na próxima semana, disse em março que deseja um governo que reflita a diversidade do país e prometeu uma mulher como sua companheira de chapa. 

Adversário de Biden, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse nesta terça-feira que alguns homens podem se sentir "insultados" pela promessa feita pelo democrata de escolher uma mulher como candidata.

"Ele se cercou de um certo tipo de gente", disse Trump em uma entrevista nesta manhã à rádio Fox Sports. "Algumas pessoas diriam que os homens se sentem insultados por isso e outras pessoas acham que está tudo bem", continuou o presidente. 

Apenas duas candidatas a vice na história

Na história dos EUA houve apenas duas candidatas à vice-presidência, a democrata Geraldine Ferraro em 1984 e a republicana Sarah Palin em 2008, mas nenhuma chegou à Casa Branca, assim como nenhuma mulher foi eleita presidente do país. 

Na entrevista, Trump elogiou seu vice, Mike Pence, mas sentenciou o debate afirmando que "as pessoas não votam por um vice-presidente".

"Pode escolher George Washington para ser vice-presidente. Também colocar Abraham Lincoln, trazê-lo de volta da morte. Não se vota em um vice-presidente", defendeu Trump, usando como exemplo esses presidentes emblemáticos da história dos EUA. /Com AFP e Reuters 

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Trump se diz 'surpreso' por escolha de Kamala Harris como vice de Biden

Presidente dos EUA afirma, em entrevista coletiva, que senadora teve um papel 'pobre' nas primárias democratas

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 19h59
Atualizado 11 de agosto de 2020 | 20h25

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta terça-feira, 11, estar "surpreso" com a decisão do candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, de escolher Kamala Harris como companheira de chapa, criticando o papel "pobre" da senadora durante as primárias democráticas.

"Fiquei surpreso mais do que tudo porque ela teve um desempenho muito ruim" durante a disputa pela indicação democrata, que Biden acabou vencendo, disse Trump em sua entrevista coletiva diária na Casa Branca. "Ela se saiu muito mal nas primárias. E isso é como uma pesquisa".

Trump disse que Harris foi “muito, muito desagradável” com Biden durante as primárias. “Um dos motivos pelos quais isso me surpreendeu foi que ela provavelmente foi mais desagradável do que Pocahontas com Joe Biden. Ela foi muito desrespeitosa com Joe Biden e é difícil escolher alguém que seja desrespeitoso”, disse Trump aos repórteres, usando o apelido que costuma usar para se referir à senadora democrata Elizabeth Warren.

Antes da entrevista coletiva e pouco após o anúncio de Biden, Trump divulgou em sua conta no Twitter um vídeo que acusa a senadora democrata pela Califórnia de ser integrante da "esquerda radical". O vídeo ainda qualifica Biden como "lento" e ela como "falsa" e diz que a dupla levaria o país a uma radicalização.

No breve vídeo, o narrador diz que Kamala Harris foi pré-candidata à presidência caminhando para a "esquerda radical" e apoiaria o plano do senador Bernie Sanders por "medicina socializada", além de defender "trilhões em novos impostos" e atacar as "políticas racistas de Joe Biden". Segundo o narrador, os eleitores rejeitaram a senadora, considerando-a "falsa", mas Biden "não é tão esperto".

O vídeo diz que Biden seria um "candidato de transição" e entregaria o controle das coisas para Kamala Harris, com a dupla caminhando para a "esquerda radical". "Joe lento e a falsa Kamala, perfeitos juntos. Errado para a América", conclui o narrador./AFP e Reuters 

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Perfil: Kamala sonha em ser a primeira vice-presidente negra dos EUA

Com uma carreira brilhante, a senadora de 55 anos que sonhava em se tornar a primeira presidente negra dos Estados Unidos tentará finalmente em novembro converter-se na primeira vice-presidente mulher do país

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 19h05
Atualizado 11 de agosto de 2020 | 21h18

WASHINGTON - Cansada das especulações que a apontavam como a companheira de chapa democrata antes mesmo que Joe Biden se candidatasse à Casa Branca, Kamala Harris tinha brincado dizendo que, ao contrário, se ganhasse, o ex-vice-presidente seria um braço direito "excelente".

Com uma carreira brilhante, a senadora de 55 anos que sonhava em se tornar a primeira presidente negra dos Estados Unidos tentará finalmente em novembro converter-se na primeira vice-presidente mulher do país. Apesar de que, para muitos, ela estará com os olhos voltados para as eleições presidenciais de 2024.

"Minha mãe costumava me dizer: 'Kamala, você poderia ser a primeira a conquistar muitas coisas. Assegure-se de não ser a última'", Harris repetiu por diversas vezes durante sua campanha para as primárias democratas, que ela pôs fim em dezembro.

Desde o começo de sua carreira, Harris, filha de imigrantes da Jamaica e da Índia, tem sido uma pioneira. Depois de dois períodos como promotora em São Francisco (2004-2011), foi eleita duas vezes promotora na Califórnia (2011-2017), tornando-se a primeira mulher, e também a primeira pessoa negra, a comandar o Judiciário do Estado mais povoado dos EUA.

Harris conhece bem o candidato democrata à Casa Blanca, a quem às vezes simplesmente chama de "Joe" em público, pois era muito próxima do filho dele, Beau, que morreu de câncer em 2015.

Mas como pré-candidata presidencial democrata, surpreendeu ao atacar Biden com agressividade durante o primeiro debate do partido, em 2019, questionando suas posições sobre políticas para acabar com a segregação racial na década de 70.

Após finalmente abandonar as primárias antes das primeiras votações em fevereiro, Harris anunciou seu apoio a Biden em março.

'Ambiciosa'

Alguns aliados do ex-vice-presidente de Barack Obama não a perdoaram por não ter se desculpado o suficiente de suas críticas e advertiram contra uma companheira de chapa tão "ambiciosa", uma qualificação considerada sexista pelos partidários de Kamala.

Mas sua experiência nos poderes Legislativo, Judiciários e Executivo e uma personalidade forte com uma risada contagiosa  finalmente venceram esses temores.

Harris cresceu em Oakland, na Califórnia progressista dos anos 60, orgulhosa da luta pelos direitos civis de seus pais: um jamaicano professor de economia e uma indiana tâmil, que já morreu, pesquisadora do câncer de mama.

Ela estudou na Universidade de Howard, fundada em Washington para acolher estudantes negros segregados. Casada desde agosto de 2014 com Douglas Emhoff, advogado e pai de dois filhos, Harris põe sua família em primeiro lugar: ela tinha escolhido sua irmã Maya para comandar sua fracassada candidatura às primárias democratas. / AFP

 

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Kamala já cobrou compromisso de Bolsonaro sobre Amazônia

Anunciada nesta terça-feira, 11, como vice de Joe Biden, senadora defendeu que EUA suspendessem negociações comerciais com o Brasil por agenda ambiental

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 18h34

WASHINGTON - Anunciada nesta terça-feira, 11, como vice de Joe Biden na corrida presidencial americana, Kamala Harris já defendeu que os Estados Unidos suspendam negociações comerciais com o Brasil pela falta de compromisso do governo Jair Bolsonaro com a proteção da Amazônia.

A senadora da Califórnia endossou deputados e senadores democratas em agosto do ano passado para cobrar o governo Bolsonaro sobre o tema, depois da repercussão negativa internacional do aumento das queimadas na Floresta Amazônica.  

"Enquanto a Amazônia queima, o presidente do Brasil, como Trump, que permitiu que madeireiros e mineradores destruíssem a terra, não está agindo", escreveu Kamala no Twitter em agosto do ano passado. "Trump não deve buscar um acordo comercial com o Brasil até que Bolsonaro reverta sua política catastrófica e resolva os incêndios. Precisamos de liderança americana para salvar nosso planeta", continuou a senadora.

A proteção da Amazônia é considerado um tema obrigatório na agenda democrata para negociar com Bolsonaro. Em março, em uma entrevista à revista Americas Quarterly, Biden afirmou que seu governo iria "reunir o mundo" para garantir a proteção da Floresta Amazônica, se o governo Bolsonaro falhar nessa missão. 

Deputado por Oregon e presidente da subcomissão de Comércio da Câmara, Earl Blumenauer afirmou em entrevista ao Estadão que Biden deve cobrar o governo brasileiro sobre o tema, se eleito. "A liderança brasileira atual não inspira confiança. É essencial falar sobre a Amazônia quando tratamos de mudanças climáticas globais. Biden estará em posição de colocar claramente quais são as condições dos EUA para desenvolver essa relação com o Brasil", afirmou o deputado.

Kamala fez um aceno de comprometimento com a política ambiental ao patrocinar um projeto de lei, apresentado nos últimos dias, assinado também pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, o rosto do projeto conhecido como Green New Deal. O projeto de lei chamado de Equidade Climática busca aumentar a influência de comunidades minoritárias e de baixa renda na política sobre mudanças climáticas. 

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Casal Obama discursará nos principais momentos da convenção democrata

Ex-presidente terá horário nobre no penúltimo dia do evento, enquanto a ex-primeira-dama falará ao público na noite de abertura

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 17h04
Atualizado 11 de agosto de 2020 | 18h42

WASHINGTON - O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama e sua mulher, Michelle, farão discursos nos principais momentos da convenção democrata na próxima semana, na qual Joe Biden será oficialmente indicado candidato do partido para as eleições de 3 de novembro.

O Partido Democrata anunciou nesta terça-feira, 11, que o ex-presidente falará em horário nobre na quarta-feira, na penúltima noite da convenção, enquanto a ex-primeira-dama discursará ao público na segunda-feira, na noite de abertura. Sua candidata a vice, Kamala Harris, anunciada nesta terça-feira, deverá discursar na mesma noite que Biden. 

Biden, de 77 anos, foi por oito anos vice-presidente de Obama e aceitará formalmente a nomeação democrata no quarto e último dia da convenção, em 20 de agosto. 

Obama, que continua sendo um dos políticos mais populares dos EUA, nos últimos meses tem participado de fóruns virtuais com Biden e o ajudou a arrecadar milhões de dólares para sua campanha. 

A convenção foi programada para acontecer em Milwaukee, Wisconsin, um Estado que teve disputas acirradas entre democratas e republicanos nas últimas campanhas presidenciais. 

A pandemia do novo coronavírus atrapalhou os planos de ambos os partidos, forçando-os a transformar eventos tradicionais em encontros virtuais. 

A reorganização repentina vem sendo um pesadelo logístico para ambas as campanhas. Principalmente para os democratas, que esperavam usar a convenção como plataforma de lançamento para a etapa final de Biden nas urnas, já que usualmente reúne um grande público. 

Para a convenção que começa em 17 de agosto, os democratas anunciaram os palestrantes, que apresentam como pessoas inspiradoras. O evento terá a jovem congressista Alexandria Ocasio-Cortez, uma figura importante da esquerda americana. 

O senador Bernie Sanders, duas vezes candidato à presidência e defensor de políticas progressistas como saúde pública e faculdade disponíveis para todos, essas que acabaram por empurrar o moderado Biden para a esquerda, terá espaço para falar na segunda-feira, junto com o governador de Nova York, Andrew Cuomo

A lista de oradores tem muitas pessoas comuns, como socorristas, professores e operários de fábrica. 

Mas também inclui vários senadores que desafiaram Biden para a indicação: Elizabeth Warren, Amy Klobuchar e Cory Booker. 

Também discursará na convenção democrata o ex-governador de Ohio, John Kasich, um republicano que se manteve firme contra Trump e já anunciou seu apoio a Biden. 

O presidente americano, Donald Trump, parecia inflexível sobre fazer seu discurso de aceitação da nomeação em um grande evento presencial em Jacksonville, na Flórida. Porém, acabou por reconhecer a necessidade de fazer isso remotamente. /AFP 

 

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