AP Photo/Carolyn Kaster
AP Photo/Carolyn Kaster

Biden escolhe nomes experientes e defensores de aliança global para política externa

Nomeações oficiais para cúpula de Segurança Nacional serão anunciados na terça-feira, mas imprensa americana já antecipou alguns nomes; nomes para a Segurança Interna e Inteligência também foram anunciados

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 14h00
Atualizado 23 de novembro de 2020 | 16h20

WASHINGTON - O presidente eleito Joe Biden escolheu Antony Blinken, um de seus assessores de política externa mais próximos e mais antigos, como secretário de Estado, enquanto ele se prepara para revelar uma lista de novos indicados nesta semana que enfatizará uma profunda experiência na política externa e o estabelecimento de segurança nacional por meio de alianças globais.

Equipe de transição também antecipou o nome de Alejandro Mayorkas para o Departamento de Segurança Interna, o primeiro latino a chefiar o departamento que cuida, entre outros, de imigração, e o de Avril Haines, que deverá ser a primeira mulher a chefiar a Inteligência Nacional.  

A nomeação de Blinken para um cargo de alto nível do Gabinete ocorre em um momento em que Biden planeja priorizar a política externa como um pilar importante em sua administração, com promessas de reunir alianças globais e inserir os Estados Unidos em uma posição mais proeminente no palco mundial.

Logo após assumir o cargo, Biden planeja voltar ao acordo climático de Paris, impedir a saída dos EUA da Organização Mundial de Saúde e ressuscitar o acordo nuclear com o Irã. Blinken foi descrito como tendo uma “fusão mental” com Biden em uma série de questões que serão centrais em seu começo de mandato.

A nomeação de Blinken, relatada pela primeira vez na noite de domingo pela Bloomberg, foi confirmada por três pessoas familiarizadas com um anúncio agendado para terça-feira. Jake Sullivan, outro assessor de Biden, deve ser nomeado conselheiro de Segurança Nacional, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o anúncio.

Biden também planeja anunciar Linda Thomas-Greenfield como sua nomeada para embaixadora nas Nações Unidas, dando a um ex-oficial de carreira do Serviço de Relações Exteriores dos EUA, e uma mulher afro-americana, um dos cargos diplomáticos de maior visibilidade no governo.

Todos os três prováveis indicados têm carreiras de décadas trabalhando nos mais altos escalões do governo e um profundo respeito pelas instituições.

Sua colocação em posições-chave oferece uma das primeiras janelas sobre como seria o governo que Biden espera construir. Se a administração de Trump foi projetada para perturbar os pilares do governo e da ordem global, a de Biden parece destinada a reconstruí-la com pessoas que desempenharam funções semelhantes no passado. Todos os três indicados também serviram no governo Obama, um sinal claro de que Biden vai contar com pessoas que ocuparam cargos importantes na última vez em que serviu em Washington.

Antony Blinken, um defensor de alianças globais e o mais próximo assessor de política externa do presidente eleito Joe Biden, deve ser indicado para secretário de Estado, cargo em que tentará unir os céticos internacionais em uma nova parceria para competir com a China, segundo pessoas próximas ao processo.

Ele se juntou à equipe de Biden quando ele era vice-presidente, liderando um amplo portfólio que incluía a supervisão dos assuntos relacionados ao Iraque e a elaboração de uma proposta para três regiões autônomas do país.

“Não teríamos saído do Iraque de uma forma que deixasse o governo com uma chance de lutar sem o trabalho árduo de Tony Blinken”, disse Biden ao Post em um perfil de 2013. “Ele era o cara certo. Ele ainda é o cara certo.”

“Tony Blinken é um superstar e isso não é hipérbole”, disse Biden ao The Post em 2013, quando Blinken saiu para se juntar à equipe de Obama. “O presidente reconheceu isso depois de quatro anos comigo e o roubou”, disse Biden, acrescentando que Blinken “poderia fazer qualquer trabalho”.

Blinken, de 58 anos, ex-subsecretário de Estado do presidente Barack Obama, começou sua carreira no Departamento de Estado durante o governo Clinton. Analistas acreditam que suas extensas credenciais de política externa ajudem a acalmar diplomatas americanos e líderes globais, após quatro anos de estratégias estridentes e arrogância nacionalista do governo Trump.

Sullivan, de 43, sucedeu Blinken como assessor de Segurança Nacional do vice-presidente Biden e serviu como chefe de planejamento de políticas no Departamento de Estado de Hillary Clinton, tornando-se seu conselheiro estratégico mais próximo.

Juntos, Blinken e Sullivan, bons amigos com uma visão de mundo comum, tornaram-se o cérebro de Biden e muitas vezes sua voz em questões de política externa. E eles lideraram o ataque à ideia de “America First” (América em Primeiro Lugar) como um princípio orientador do governo Trump, dizendo que isso apenas isolou os Estados Unidos e criou oportunidades para seus adversários.

Blinken está ao lado de Biden há quase 20 anos, inclusive como seu principal assessor na Comissão de Relações Exteriores do Senado e, posteriormente, como seu conselheiro de segurança nacional quando era vice-presidente. Nessa função, Blinken ajudou a desenvolver a resposta americana à turbulência política e à instabilidade em todo o Oriente Médio, com resultados mistos no Egito, Iraque, Síria e Líbia. Mas a principal entre suas novas prioridades será restabelecer os Estados Unidos como um aliado confiável que está pronto para voltar a acordos e instituições globais.

“Simplificando, os grandes problemas que enfrentamos como país e como planeta, seja mudança climática, seja uma pandemia, seja a disseminação de armas - para dizer o óbvio, nenhum deles tem soluções unilaterais”, afirmou Blinken em um fórum no Instituto Hudson em julho. "Mesmo um país tão poderoso como os Estados Unidos não pode lidar com eles sozinho."

Trabalhar com outros países, disse Blinken no fórum, poderia ter o benefício adicional de enfrentar outro grande desafio diplomático: competir com a China escolhendo esforços multilaterais para promover o comércio, investimentos em tecnologia e direitos humanos - em vez de forçar nações individuais a escolher entre as economias das duas superpotências.

Isso provavelmente significará tempo diplomático gasto em forjar laços mais fortes com a Índia e em toda a região do Indo-Pacífico, onde 14 nações assinaram recentemente um dos maiores acordos de livre comércio do mundo com a China.

Também poderia trazer um esforço para aprofundar o envolvimento em toda a África, onde a China fez incursões com investimentos em tecnologia e infraestrutura, e reconhecer a Europa como um parceiro de "primeiro recurso, não último recurso, quando se trata de enfrentar os desafios que enfrentamos", Blinken disse no fórum.

Em declarações públicas e entrevistas nas últimas semanas, ele não fez segredo de outros aspectos da agenda de Biden - e de sua própria - para as primeiras semanas da nova presidência.

Ele terá cerca de 15 dias após a posse para prorrogar por cinco anos o último grande acordo de controle de armas com a Rússia, um passo que Trump inicialmente se recusou a tomar porque insistiu que a China também fosse incluída no tratado.

“Certamente, queremos envolver a China nas questões de controle de armas”, disse Blinken recentemente, “mas podemos buscar a estabilidade estratégica estendendo o novo acordo de limitação de armas START e tentar construí-lo” mais tarde.

Blinken se tornou mais agressivo com a Rússia à medida que a extensão de sua interferência nas eleições de 2016 e em toda a Europa se tornou mais clara. Em uma entrevista recente, ele sugeriu usar o desconforto da Rússia com sua dependência da China, especialmente em tecnologia, para alavancagem.

“Há um outro lado” em lidar com Moscou, disse Blinken. O presidente Vladimir Putin, observou ele, está "procurando aliviar a crescente dependência da Rússia da China", o que o deixou "em uma posição não muito confortável."

“Não somos líderes porque sempre estamos certos, ou porque somos universalmente queridos, ou porque podemos ditar resultados”, disse Blinken. “É porque nos esforçamos ao máximo para alinhar nossas ações com nossos princípios e porque a liderança americana tem uma capacidade única de mobilizar outras pessoas e fazer a diferença.”

Blinken, descrito por alguns como um centrista com uma veia de intervencionismo, também buscou diminuir as crises de refugiados e a migração.

No último dia do governo Obama, o Departamento de Estado estabeleceu um limite de 110.000 refugiados que teriam permissão para se reinstalar nos Estados Unidos no ano fiscal de 2017. Esse número diminuiu desde então para 15.000 no ano fiscal de 2021.

Ele disse que vai tentar ajudar ainda mais a Guatemala, Honduras e El Salvador - os países do Triângulo Norte da América Central - para persuadir os migrantes de que estarão mais seguros e melhor se ficarem em casa.

Jake Sullivan

Ao assumir o cargo de segurança nacional mais importante da Casa Branca, Jake Sullivan será a pessoa mais jovem a ocupar esse cargo desde o governo Eisenhower.

Sullivan fez seu nome no governo Obama, encontrando admiradores até mesmo entre os republicanos conservadores no Congresso, enquanto desempenhava um papel fundamental nas negociações que levaram ao acordo nuclear com o Irã em 2015.

Nascido em Minnesota e graduado pela Yale Law School, Sullivan nos últimos meses ajudou a liderar um projeto no Carnegie Endowment for International Peace repensando a política externa dos EUA em torno das necessidades da classe média americana.

Nos últimos anos, Sullivan deu aulas na Yale Law School e Dartmouth, e mudou-se para New Hampshire com sua mulher, Margaret Goodlander. Goodlander foi assessora do senador republicano John McCain.

Na campanha de Biden, Sullivan deixou mais uma marca na política interna, ajudando-o a conceber o plano Build Back Better, que foi a chave para sua mensagem econômica de impulsionar a indústria dos EUA novamente. Sullivan viajou muito com Biden, acompanhando-o em um passeio de trem por Ohio e Pensilvânia durante a campanha.

Linda Thomas-Greenfield

Linda Thomas-Greenfield trabalhou como a principal diplomata dos EUA para a África sob o presidente Barack Obama, um trabalho de secretária assistente que culminou em sua carreira de 35 anos no Serviço de Relações Exteriores. 

Conhecida como “LTG” entre as bases do Departamento de Estado, ela se aposentou em 2017 depois que Trump assumiu o poder. Ela ingressou na empresa de consultoria Albright Stonebridge como conselheira sênior, onde trabalhou com sua mentora, a ex-secretária de Estado Madeleine Albright.

Thomas-Greenfield também é a líder da equipe de revisão da agência de Biden para o Departamento de Estado, um grupo de consultores de confiança que está se preparando para realinhar o departamento para um governo Biden. Ela tem liderado esforços para promover a diversidade no departamento e outras mudanças.

Biden também restaurará o cargo ao status de gabinete depois que Trump o rebaixou, dando a Thomas-Greenfield um assento em seu Conselho de Segurança Nacional.

Alejandro Mayorkas

A equipe de transição de Biden anunciou também nesta segunda-feira que o presidente eleito nomeará o cubano-americano Alejandro Mayorkas como secretário do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês). Ele será o primeiro latino e imigrante a chefiar a agência. Mayorkas, ex-secretário adjunto do DHS, terá a tarefa de reconstruir o departamento que o governo Trump usou para fazer cumprir sua política de imigração draconiana, incluindo separação de famílias na fronteira EUA-México. 

"Alejandro Mayorkas, ex-subsecretário do DHS, que foi confirmado pelo Senado dos Estados Unidos três vezes ao longo de sua carreira, será o primeiro latino e imigrante designado para servir como secretário do Departamento de Segurança Interna", informou a equipe de transição de Biden em um comunicado. 

Mayorkas, de 60 anos, nasceu em Havana e foi levado por sua família para os Estados Unidos como refugiado político quando tinha cerca de 1 ano, fugindo do regime comunista na ilha. Ele viveu primeiro na Flórida e depois se mudou para a Califórnia. Atualmente, é sócio do escritório de advocacia WilmerHale.

Avril Haines

Ainda de acordo com a equipe de transição, Avril Haines, uma ex-alto funcionária da CIA (agência de inteligência americana) e ex-assessora de Segurança Nacional adjunta, será nomeada diretora de Inteligência Nacional, a primeira mulher a ocupar esse poderoso cargo no governo americano. 

Haines atuou como vice-diretora da CIA no governo Obama antes de suceder Blinken como vice-conselheira de Segurança Macional do ex-presidente. Ela também foi assessora de Biden, servindo como assessora-chefe adjunta da Comissão de Relações Exteriores do Senado de 2007 a 2008, quando o democrata era o presidente da comissão.

Haines também atuou como conselheira para o Conselho de Segurança Nacional de Obama, ajudando-o a lidar com questões legais em torno das operações de contraterrorismo. Se confirmada, Haines será a mulher de mais alto escalão a servir na comunidade de inteligência. O diretor da CIA, atualmente um cargo ocupado Gina Haspel, se reporta ao diretor de Inteligência Nacional./NYT, W. POST, AFP e Reuters 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.