AP Photo/Matt Rourke
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Biden impulsionará plano global para combater covid enquanto disparidades nacionais se ampliam

Programa de vacinação apoiado pelas Nações Unidas está tão atrasado que nem mesmo 10% da população dos países pobres está totalmente vacinada, dizem especialistas

Lara Jakes e Sheryl Gay Stolberg, The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 15h01
Atualizado 22 de setembro de 2021 | 12h35

WASHINGTON - Já lutando contra as divisões dentro de seu próprio país quanto à obrigatoriedade das vacinas e as questões sobre a ética e a eficácia das doses de reforço, o presidente Joe Biden começa a enfrentar uma outra frente de discórdia: uma divisão entre os líderes mundiais sobre como erradicar o coronavírus globalmente, enquanto a variante Delta, altamente infecciosa, deixa um rastro de morte por onde passa.

Em uma cúpula virtual na quarta-feira, durante a reunião anual da Assembleia-Geral das Nações Unidas, Biden tentará persuadir outros países produtores de vacinas a equilibrar suas necessidades internas com um foco renovado na fabricação e distribuição de doses para nações pobres desesperadamente necessitadas.

O Covax facility, programa de vacinas apoiado pelas Nações Unidas, está tão atrasado que nem 10% da população dos países pobres está totalmente vacinada, disseram especialistas.

A iniciativa, que a Casa Branca diz que irá injetar urgência na diplomacia das vacinas, será um teste para a doutrina de Biden, que visa a promover os interesses americanos por meio da construção de coalizões globais. Vindo na esteira da calamitosa retirada dos Estados Unidos do Afeganistão no mês passado, a qual atraiu a condenação tanto de aliados quanto de adversários, o esforço para reunir líderes mundiais será observado de perto por especialistas em saúde pública e defensores que dizem que Biden não está cumprindo suas promessas de fazer dos Estados Unidos o "arsenal de vacinas" para o mundo.

"Esta é uma das questões mais morais do nosso tempo", disse a deputada Rosa DeLauro, democrata de Connecticut, na semana passada. "Não podemos deixar o momento passar. E os Estados Unidos podem retomar seu papel de liderança, assumindo o que é uma das maiores causas humanitárias de todos os tempos. Precisamos pôr fim a esta pandemia".

O cenário está ainda mais desafiador agora do que quando o Covax foi criado, em abril de 2020. Alguns países da Ásia impuseram tarifas e outras restrições comerciais às vacinas da covid-19, retardando sua entrega. A Índia, lar da maior fabricante mundial de vacinas, proibiu as exportações de vacinas contra o coronavírus. E um painel do FDA na sexta-feira recomendou injeções de reforço da Pfizer para pessoas com mais de 65 anos ou com alto risco de covid grave, o que significa que doses que poderiam ir para países de renda baixa e média-baixa permanecerão nos Estados Unidos.

"Se alguém tivesse dito que, vinte meses após o início desta pandemia, ainda veríamos taxas de infecção e perda de vidas da magnitude que estamos vendo, acho que teríamos ficado absolutamente horrorizados", disse Peter Sands, diretor executivo do Global Fund, um parceiro fundador da colaboração global que criou o Covax.

"Devemos enfatizar um verdadeiro senso de urgência: quando você está lutando contra uma pandemia, não faz sentido combatê-la lentamente", disse Sands.

Autoridades disseram que a cúpula de quarta-feira será a maior reunião de chefes de Estado para tratar da crise do coronavírus. O objetivo é incentivar os fabricantes de produtos farmacêuticos, filantropos e organizações não governamentais a trabalharem juntos para vacinar 70% da população mundial, de acordo com um documento preliminar que a Casa Branca enviou aos participantes da cúpula.

"Também sabemos que esse vírus transcende fronteiras", disse Biden em 9 de setembro. "É por isso que, enquanto executamos este plano em casa, precisamos continuar lutando contra o vírus no exterior, continuar a ser o arsenal de vacinas". "Esta é a liderança americana no cenário global", disse ele.

Os especialistas calculam que são necessárias 11 bilhões de doses para alcançar a imunidade global. Os Estados Unidos se comprometeram a doar mais de 600 milhões - mais do que qualquer outra nação - e o governo Biden tomou medidas para expandir a fabricação de vacinas nos Estados Unidos, Índia e África do Sul. A União Europeia, que abarca 27 nações, pretende exportar 700 milhões de doses até o final do ano.

Mas, até julho, apenas 37% das pessoas na América do Sul e 26% na Ásia haviam recebido pelo menos uma vacina, de acordo com Rajiv J. Shah, chefe da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional durante o governo Obama. O número ficou em apenas 3% na África, escreveu Shah em um artigo publicado no mês passado na Foreign Affairs.

Uma estimativa da Campanha ONE, que luta contra a pobreza extrema e doenças evitáveis, mostrou que os sete principais países desenvolvidos teriam juntos um excedente de mais de 600 milhões de doses de vacina até o final de 2021.

Seria o suficiente para vacinar totalmente todos os adultos da África, disse Jenny Ottenhoff, diretora sênior de política de saúde da ONE.

A maioria das doses que foram prometidas, porém, não será entregue aos países mais necessitados, nem injetada nos braços, até o ano que vem. Dada a distribuição lenta, disse a Dra. Kate O’Brien, a maior especialista em vacinas da Organização Mundial de Saúde, “pelos dados que estão saindo, podemos ver claramente que estamos muito longe” de vacinar 70% da população mundial até meados do próximo ano, conforme se projetara inicialmente.

O presidente também está sob intensa pressão de defensores da saúde global que dizem que doar doses não é suficiente e querem que ele amplie a capacidade de fabricação no exterior.

Na segunda-feira, o grupo de defesa Health Gap fará uma manifestação perto da sede da ONU em Nova York, conclamando Biden a "acabar com o apartheid da vacina". Uma coalizão de quase 60 grupos de direitos humanos e outros grupos de defesa também enviará ao presidente americano uma carta instando-o a apoiar um investimento de US$ 25 bilhões que produziria 8 bilhões de doses em um ano - e a pedir ao Congresso que inclua um item específico sobre isso nos US$ 3,5 trilhões da legislação orçamentária do plano "Reconstruir Melhor", que os parlamentares estão avaliando agora. "Não podemos 'doar' nosso caminho para a segurança", escreveram.

Essa crescente disparidade entre quem tem e quem não tem vacina provocou uma cisão entre os países ricos e a maior parte do resto do mundo, cisão esta que só se aprofundou com a disseminação desenfreada da variante delta e, potencialmente, de milhares de outras variantes que podem estar em ascensão. Várias das cepas mais virulentas foram identificadas pela primeira vez em países de baixa renda, como África do Sul e Índia - ambas vacinaram totalmente apenas 13% de suas populações.

Mais de cem países de baixa renda estão esperando que Biden consiga um consenso entre a União Europeia e o Grupo dos 7 da cúpula de quarta-feira para que todos concordem em renunciar aos direitos de propriedade intelectual para a produção de vacinas, de modo que se possa compartilhá-los com fabricantes de outras nações em desenvolvimento. Algumas das principais vacinas contra o coronavírus são produzidas na Europa - entre elas, a Pfizer-BioNTech na Alemanha e a AstraZeneca na Inglaterra - e as autoridades foram acusadas de colocar os lucros à frente do combate à pandemia.

A União Europeia mais uma vez se opôs a um plano de renúncia aos direitos de propriedade da vacina em uma reunião a portas fechadas na Organização Mundial do Comércio (OMC), na semana passada em Genebra, de acordo com um diplomata europeu familiarizado com a discussão.

O governo Biden apoiou a renúncia, embora não com a força que seus defensores desejavam.

"A ação dos Estados Unidos é particularmente importante para mudar as coisas para a frente e fazer as pessoas se sentarem à mesa para discutir essas questões", disse Zane Dangor, conselheiro especial do ministro das Relações Exteriores da África do Sul. Ele disse que as autoridades da União Europeia "gostariam de levar essa discussão mais adiante".

"Quanto mais atrasamos em garantir o acesso equitativo, quanto mais esperamos, mais vai demorar a pandemia", disse Dangor na semana passada.

As nações ricas argumentaram que a isenção por si só não produzirá vacinas, visto que a maioria dos países em desenvolvimento carece de tecnologias ou outros recursos para fabricá-las.

"Muita energia está sendo gasta numa iniciativa que não proporcionará alívio imediato", escreveu Gary Locke, secretário do Departamento de Comércio e embaixador na China durante o governo Obama, em 8 de setembro.

Ele disse que a questão foi politizada: "Mas isso não vai botar doses nos braços das pessoas, que é o que elas realmente precisam agora".

Especialistas em saúde culparam a proibição das exportações de vacinas da Índia, imposta em março, por prejudicar o fornecimento global. Dois meses depois, o Serum Institute da Índia, o maior fabricante mundial de vacinas, anunciou que desviaria sua produção da vacina AstraZeneca para as necessidades domésticas depois que uma segunda onda de infecções devastou a Índia, renegando centenas de milhões de doses destinadas aos países pobres.

O governo Biden vem pressionando o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, a retirar a proibição. Modi e os líderes do Japão e da Austrália visitarão a Casa Branca para uma reunião dos chamados países Quad em 24 de setembro, dois dias após a cúpula do presidente sobre vacinas. Autoridades americanas e europeias se reunirão em Washington na segunda-feira, para discutir o que várias autoridades descreveram como esforços contínuos para impulsionar a fabricação de vacinas.

Isso será ainda mais necessário à medida que os Estados Unidos e outros países começarem a recomendar doses de reforço para idosos e outras populações domésticas vulneráveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pedira aos países ricos que suspendessem a administração de doses de reforço a pacientes saudáveis pelo menos até o final do ano, como forma de permitir que outras nações vacinassem pelo menos 40% de suas populações.

Sem nomear os Estados Unidos, a Dra. O’Brien observou que alguns países estão "avançando com programas de reforço para os quais não vemos evidências que sustentariam sua necessidade" para a população em geral.

"E, ao mesmo tempo, outros nem começaram a vacinar trabalhadores de saúde ou grupos de alto risco", disse ela.

Anthony S. Fauci, o principal conselheiro médico do presidente para o coronavírus, disse em uma entrevista que o governo Biden estava trabalhando em um plano de resposta global de longo alcance, mas não ofereceu detalhes. A construção de fábricas de vacinas pode ser um passo razoável na preparação para a próxima pandemia, disse ele, mas talvez não aconteça com rapidez suficiente para acabar com esta.

"Estamos tentando descobrir qual é a melhor maneira de colocar em andamento um programa realmente impactante", disse o Fauci. "Queremos fazer mais, mas estamos tentando descobrir qual é a melhor abordagem". / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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