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Biden promete fim do personalismo nos EUA Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

Biden inicia guinada contra legado populista que Trump disseminou

Aprovar pacote contra pandemia é primeiro desafio; Kamala se apresenta como potencial sucessora; multilateralismo e alianças tradicionais são retomados; relação com América Latina também muda

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON - Joe Biden toma posse nesta quarta-feira, 20, com a missão de mudar a direção dos Estados Unidos e recolocar um país dividido no caminho da normalidade. A mudança na política americana aponta para uma reorientação da ordem democrática global. Com Biden, o país deve deixar de flertar com líderes autoritários e populistas que nele se espelharam, quando não o imitaram. Os EUA devem abandonar o isolacionismo, restabelecer seu “soft power” e voltar à mesa de negociações internacionais.

Com a posse de Kamala Harris como vice, primeira mulher e primeira negra a chegar à Casa Branca, os democratas acenam também para um futuro que difere muito dos últimos quatro anos.

Em novembro, 81,2 milhões de americanos votaram na chapa democrata, que representa o avesso do que foi o governo Donald Trump. Biden e Kamala receberam o maior número de votos da história americana. Durante quatro anos, o republicano explorou as divisões da sociedade como plataforma política. Os democratas terão dificuldade para romper essa polarização.

Trump atacou as instituições, inflamou a população e rompeu relações com aliados. Biden, uma saída de centro costurada dentro de seu partido, promete valorizar as instituições democráticas – ainda sob influência do ataque inédito ao Capitólio – e a dialogar com opositores.

O democrata promete privilegiar a ciência para resolver questões de saúde ou de clima e buscar saídas multilaterais no palco global. “Biden é alguém que acredita no sistema de governo americano. Por isso, escolheu para o governo pessoas com história no setor público e não indicações políticas que tentam desmantelar os órgãos para os quais trabalham. Vamos entrar em um período de estabilidade”, afirma Michael Traugott, cientista político e professor da Universidade de Michigan.

Aos 78 anos, presidente mais velho a tomar posse e ciente de que não representa a figura que inspira o eleitorado jovem, ele assume também com a promessa de ser um presidente de transição, de um mandato só. O futuro seria representado por Kamala Harris.

Assim que assumir o cargo, o democrata planeja assinar uma série de ordens executivas que confirmam sua ambição de promover uma guinada no país ao desfazer ações de Trump. O novo governo deve derrubar o veto imigratório de países de maioria muçulmana, começar a recolocar o país no Acordo Climático de Paris e tornar obrigatório o uso de máscara em prédios federais e viagens interestaduais – todas decisões contrárias às impostas por Trump.

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“Trump não acredita no papel do governo e por isso os EUA sofreram na pandemia com a falta de organização e ação do governo federal. Biden tem uma visão completamente diferente sobre o papel do governo e vamos perceber isso quando discutirmos, por exemplo, distribuição das vacinas”, afirma Traugott.

Ainda nos primeiros dias, Biden planeja enviar ao Congresso o pacote de socorro de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 10,8 trilhões) para alívio da economia e um projeto de reforma imigratória que garanta direitos aos que chegaram ao país ilegalmente.

Trump chegou à presidência como o mais impopular eleito à Casa Branca. Na semana anterior ao fim de seu mandato, ele praticamente não apareceu em público e foi banido das redes sociais, por onde governou. Deixa o poder com seu pior índice de popularidade, 34%, segundo o instituto Gallup, ficando entre os quatro piores da história desde Harry Truman (1945-1953).  Ainda assim, ele sai após obter 74 milhões de votos na eleição de novembro, com uma base fiel e um julgamento de impeachment pendente no Senado. Um processo que poderia torná-lo inelegível.

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Medo de ataque bloqueia cidade e altera evento

Washington tem avenidas, ruas e monumentos fechados; 12 homens da Guarda Nacional foram afastados por extremismo

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON - A posse presidencial americana costuma ser um dia de festa. Centenas de milhares de americanos formam um mar de gente nos gramados do National Mall, em Washington, para assistir ao juramento do novo presidente. Neste ano, a cena será diferente. Por medo de atos violentos, o entorno do Congresso americano está bloqueado por cercas, barreiras de concreto e forças policiais. 

Doze homens da Guarda Nacional foram afastados na terça-feira, 19, da operação de segurança para a cerimônia de posse, dois deles por possíveis ligações com grupos de extrema direita, informou o Departamento de Defesa. O medo de um ataque possibilitado por algum radical infiltrado nas forças de segurança fez a inteligência americana revisar as fichas dos soldados enviados à capital.

Entre os agentes afastados, dois postaram e enviaram mensagens de texto com opiniões extremistas sobre o evento. Duas autoridades americanas disseram à agência Associated Press que todos os 12 tinham laços com grupos de milícia de direita ou postaram opiniões extremistas online.

Duzentas mil bandeiras dos EUA foram colocadas no National Mall, para representar os americanos que não poderão assistir a Joe Biden e sua vice, Kamala Harris, prestarem o juramento em frente ao Congresso.

A equipe do democrata já buscava maneiras de evitar aglomerações na posse, em razão da pandemia de coronavírus que já matou quase 400 mil pessoas nos EUA. Mas a restrição absoluta de entrada no entorno do Mall foi tomada após a invasão do Capitólio por extremistas que apoiam Donald Trump e diante do risco de ataques ou protestos violentos.

Washington e diversas capitais americanas receberam membros da Guarda Nacional – mais de 25 mil foram deslocados para reforçar a segurança em Washington. No centro da capital, há mais soldados do que civis nas ruas. A cidade foi dividida em zonas. Capitólio, Casa Branca, Suprema Corte e toda a região dos monumentos estão na zona vermelha, onde o tráfego de veículos não é permitido até mesmo para moradores das ruas bloqueadas. A passagem tem de ser feita a pé e, por vezes, após abordagem de um policial. 

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Pontes fechadas

Ao menos quatro pontes que ligam cidades vizinhas do Estado da Virgínia a Washington foram fechadas. Metrô e ônibus não funcionarão. A orientação aos americanos é expressa: fiquem em casa e celebrem a posse com televisões ligadas na transmissão do evento. Bares e restaurantes da capital prepararam pratos especiais para que se possa acompanhar a cerimônia, além dos eventos virtuais, em casa.

O número de membros da Guarda Nacional na capital supera a soma de tropas americanas no Afeganistão. Há ainda agentes do serviço secreto – responsável pela segurança do evento –, do FBI, do Departamento de Polícia Metropolitana de Washington, a polícia do Capitólio e a polícia de Parques do país. 

Viagem de trem

Biden planejava viajar nesta quarta-feira, 20, de trem de Wilmington (Delaware), onde vive, para a posse em Washington. Ao longo de toda a carreira como senador, ele continuou a morar no Estado onde cresceu e ficou conhecido por fazer o trajeto de uma hora e meia de casa ao trabalho de trem. O hábito lhe rendeu o apelido de Amtrak Joe, em referência ao nome da estatal ferroviária americana, e a estação de Wilmington leva seu nome, estampado em uma placa de ferro logo na entrada. Mas a segurança fez o democrata mudar os planos. Biden aceitou dormir na Blair House, a residência de hóspedes da Casa Branca, na noite que antecede a posse, mas manteve o juramento diante do Congresso, como é habitual. 

O clima de cidade sitiada não acabará após o início da gestão Biden. A inteligência americana identificou a tentativa de insurreição e invasão do Capitólio como parte de uma “tendência contínua em que (extremistas) exploram protestos, comícios e manifestações legais para praticar violência ideologicamente motivada”. Autoridades temem que ataques ocorram nos dias seguintes à posse e em diferentes partes do país.

A previsão é de que homens da Guarda Nacional e barricadas continuem na capital durante toda a semana, enquanto a cidade e o país esperam por dias de normalidade.

Melania

A primeira-dama dos EUA, Melania Trump, divulgou na terça-feira uma mensagem de despedida, gravada em vídeo, enquanto se preparava para deixar a Casa Branca. Ela afirmou que “a violência nunca é a solução e nunca será justificada”, dias após a invasão ao Capitólio por partidários do presidente.

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Aprovar pacote contra pandemia é primeiro desafio

Democrata não deve sofrer resistência sobre metas para ampliar vacinação, mas plano de auxílio trilionário não é consensual

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON - A experiência política de Joe Biden foi usada como trunfo durante a campanha eleitoral. O democrata dizia estar pronto para trabalhar desde o primeiro dia para tirar os Estados Unidos das crises econômica e sanitária nas quais o país mergulhou com a pandemia do novo coronavírus. Seu maior desafio será apresentar resultados rápidos em meio a uma emergência sem precedentes. Para isso, quer aprovar um pacote econômico trilionário que não é consensual.

Na véspera da posse do democrata, os EUA ultrapassaram a marca de 400 mil mortos por covid-19, com mais de 24 milhões de infectados. Os dados de desemprego continuam desoladores. Na semana passada, o Departamento de Trabalho informou que os pedidos de auxílio-desemprego nos Estados superaram a marca de 1 milhão desde julho, quando a economia dava sinais de recuperação.

As ondas de contágio da covid-19 se sobrepõem nos Estados Unidos. Desde as vésperas da eleição, a Casa Branca de Donald Trump praticamente ignora a crise de saúde, que se soma à econômica: a pandemia de coronavírus colocou o país em uma recessão comparável apenas à Grande Depressão e a cada vez que há sinais de recuperação, um novo aumento de casos coloca os bons indicadores na berlinda.

Sinais de melhora no vírus no segundo semestre do ano passado deram fôlego aos negócios, mas a nova disseminação do coronavírus no final do ano fez cidades recuarem e estabelecerem novas restrições para comércio e serviços. 

Biden tem na lista de desafios imediatos o sucesso da distribuição de vacinas para ampliar a velocidade de imunização da população, a tentativa de controle das novas ondas de contágio e a aprovação, no Congresso, de um pacote econômico de apoio a empregados e empregadores durante a pandemia. 

Entre as medidas sanitárias, o democrata assinará uma ordem executiva que torna o uso de máscaras em propriedades federais e viagens interestaduais obrigatório. Ele também promete restringir viagens internacionais – e deve rever a liberação, pelo governo Trump, da entrada de viajantes do Brasil e de parte dos países europeus. 

Biden anunciou que irá enviar ao Congresso um pacote de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 10,8 trilhões) que engloba auxílio econômico aos americanos e verba para mais exames e distribuição de vacinas da covid-19. Os EUA já possuem dois imunizantes autorizados para uso emergencial pela agência que regula medicamentos. As vacinas aplicadas nos EUA são as produzidas pelas farmacêuticas Pfizer e Moderna. 

O país começou a vacinar a população em meados de dezembro, mas o ritmo tem sido mais lento do que o governo Trump planejou e a equipe de Biden vê gargalos no plano elaborado pelo republicano. Segundo o Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês), 10,6 milhões receberam uma dose de alguma das vacinas. O governo prometia chegar a 20 milhões em dezembro. O socorro de Biden prevê assistência única de US$ 1,4 mil (R$ 7,5 mil) aos americanos e salário-desemprego suplementar de US$ 400 (R$ 2.140) semanalmente, além de recursos aos Estados para reforçar o plano de distribuição das vacinas.

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Para seu maior desafio, no entanto, Biden precisará do Congresso. O democrata assume a Casa Branca na confortável posição de ter seu partido no controle da Câmara e do Senado pelos próximos dois anos. A última vez que democratas tiveram esse alinhamento foi no primeiro mandato de Obama, quando aprovaram a reforma de saúde conhecida como Obamacare.

Dificuldade

A situação do partido no Senado, no entanto, é frágil. Os democratas têm 48 cadeiras, além de contarem com apoio de dois senadores independentes. Os outros 50 membros são republicanos. O voto de desempate é da vice-presidente, Kamala Harris, que acumula a posição de presidente da Casa.

“O trabalho para acelerar a recuperação econômica é, acima de tudo, reativo e não serve muito para satisfazer as múltiplas demandas que ele enfrenta de pressão de alas diferentes do partido. Há um risco de que o debate inicial de combate à pandemia acabe com o pouco de boa vontade que existe por parte dos republicanos em relação à possibilidade de trabalhar com o governo democrata”, afirma Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em Relações Internacionais da FGV-SP.

Biden deve usar a força política de início de mandato para avançar com o projeto de socorro e combate à pandemia, sua pauta urgente. “É muito difícil haver resistência para ações de saúde, como expansão da vacinação. Já na parte econômica, ele vai ter que gastar mais capital político. Haverá mais dificuldade na área de aumento de impostos para compensar o caixa dos gastos crescentes de auxílio emergencial”, afirma Thiago Aragão, diretor de estratégia da consultoria Arko Advice.

Um editorial crítico do jornal Wall Street Journal foi um dos primeiros sinais de que Biden deve enfrentar resistência com o pacote. A primeira explosão de gastos de Biden – título do texto – afirma que Biden “duplica o plano de Obama para 2009, ainda que a economia esteja prestes a decolar em 2021”. Com o pacote de socorro econômico e os debates da nova administração, senadores ainda terão de analisar o segundo impeachment de Trump, aprovado pela Câmara. “A chave é analisar como Biden atravessa essa primeira fase de pacote de emergência e quantos republicanos moderados ele irá preservar depois disso que estejam dispostos a publicamente apoiar o governo”, afirma Stuenkel.

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Kamala é vista como o rosto do futuro da política

A primeira mulher e a primeira negra a chegar à Casa Branca é cotada para concorrer à presidência em 2024

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON - Kamala Harris assume nesta quarta-feira, 20, a vice-presidência dos EUA como a primeira mulher e primeira negra a chegar à Casa Branca. O componente histórico de sua ascensão não é o suficiente para descrever o que a democrata passou a representar. Desde que entrou na chapa de Joe Biden, Kamala é vista também como o rosto do futuro da política nos EUA.

Era a imagem de Kamala que aparecia quando Biden afirmava que a eleição de 2020 ia “determinar como os EUA vão se parecer por muito, muito tempo”, uma das mais emblemáticas peças de campanha. No vídeo, um discurso de Biden sobre ódio e extremismo é unido à música Where is the love. A cena de Kamala ligada à fala sobre o futuro do país foi uma das mais celebradas durante a festa nas ruas de Wilmington quando os dois venceram a eleição.

Biden está distante da ala jovem do Partido Democrata. Mas a inclusão de uma filha de imigrantes de 56 anos e primeira mulher não branca a chegar à Casa Branca foi bem recebida pelo eleitorado, que pede por quadros políticos mais representativos da sociedade americana.

A ex-senadora californiana tornou-se imediatamente cotada para concorrer à Casa Branca em 2024, já que Biden anunciou que deve ser um presidente de “transição” para o futuro do partido.

Celebrada entre apoiadores, ela tem o rosto estampado em camisetas nas cidades progressistas, como Washington. A frase “senhor vice-presidente, eu estou falando” – dita por ela quando o vice Mike Pence a interrompeu durante debate – virou ímã de geladeira vendido em lojas feministas. 

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“Eu posso ser a primeira mulher nesse cargo, mas não serei a última”, disse Kamala no discurso de vitória, em 7 de novembro em Wilmington.

A ex-procuradora-geral da Califórnia é filha de pai jamaicano e mãe indiana que se conheceram nos EUA marchando pelos movimentos civis. 

Kamala e Biden foram apresentados por Beau, filho de Biden que morreu em 2015. Os dois eram amigos quando ele era procurador-geral de Delaware e ela tinha o mesmo cargo na Califórnia. Kamala prometeu ser leal a Biden e honrar todas as lutas que travaram para que, em 2021, a primeira mulher pudesse chegar à Casa Branca.

 

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Alianças clássicas de volta e frieza com China

Biden buscará pôr fim ao isolacionismo, ainda que tensão com Pequim se mantenha

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON - Valorização do multilateralismo, boa relação com aliados e preocupação ambiental. Os pilares da política externa proposta por Joe Biden mostram que os Estados Unidos, a partir desta quarta-feira, 20, devem voltar a desempenhar no contexto internacional o papel que tinham antes da chegada de Donald Trump à Casa Branca. Com a nova política externa, Biden promete buscar o que julga ser a “restauração da liderança moral” dos Estados Unidos e a “liderança pelo exemplo”, após quatro anos de isolamento e confronto com nações amigas.

Biden é conhecido por gostar e entender do assunto. Sua experiência com política externa no Senado impulsionou seu nome como vice-presidente de Barack Obama, em 2008. Durante os oito anos na Casa Branca, ele assumiu missões internacionais em nome do presidente, como o relacionamento com países da América Latina.

Nesta quarta-feira, 20, logo após tomar posse, o democrata promete assinar uma ordem para recolocar os EUA no Acordo Climático de Paris – um dos tratados menosprezados por Trump e negociado na gestão Obama-Biden. Trump descartou organizações multilaterais, relações de longa data dos EUA e tinha afeição por autocratas – o que se traduziu em proximidade com regimes da Coreia do Norte e da Arábia Saudita. Biden acredita na construção de soluções conjuntas e quer recolocar o país na mesa das negociações coletivas ao lado de aliados.

“Joe Biden é um internacionalista. Ele acredita em colaborar com outros países. Vamos deixar para trás a política de ‘América Primeiro’. Ele terá questões com a China, mas, de uma maneira geral, recolocará o país em uma dinâmica de cooperação multilateral”, afirma Michael Traugott, cientista político e professor da Universidade de Michigan.

Ao apresentar os primeiros nomes do governo para política externa, Biden disse que a equipe vai “reunir o mundo” para enfrentar desafios que “nenhuma nação pode enfrentar sozinha”. “É tempo de restaurar a liderança americana”, costuma dizer o democrata.

A política nacionalista denominada “América Primeiro” norteou as relações externas de Trump, que com seu estilo autoritário e isolacionista entrou em choque com aliados históricos como França, Alemanha e Canadá. A eleição de Biden foi saudada pelos líderes dos três países.

Mas a tensão comercial com a China, uma das principais marcas da gestão Trump, deve continuar. Biden criticou o que considera práticas comerciais abusivas da potência asiática e a falta de proteção a direitos humanos de minorias no país. A visão negativa sobre a relação com a China é crescente entre os americanos – tanto entre democratas como republicanos. 

A estratégia, no entanto, tende a mudar. O democrata já criticou a guerra de tarifas iniciada no governo Trump, que considera “errática”. O time de Biden defende que a pressão sobre os chineses seja feita por meio de uma união com aliados e uso de mecanismos legais na Organização Mundial do Comércio (OMC) – órgão que sofreu boicote durante o governo Trump.

Na lista de acordos que Trump deixou para trás e Biden planeja restabelecer está o tratado para limitar o programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções.

Para Entender

Biden venceu nos EUA. O que muda no mundo? Análises exclusivas respondem

Decisões do presidente dos EUA sobre economia, política externa, imigração, meio ambiente e mesmo comportamento afetam a sua vida. Banco de análises traz projeções de quem mais entende sobre os efeitos do futuro governo Biden

Uma das críticas ao democrata tem a ver com seu apoio a parte das intervenções militares em outros países. Em 2001, Biden apoiou a invasão no Afeganistão. Depois, como vice, trabalhou para a redução das tropas no país. Em 2003, ele também apoiou a invasão no Iraque, mas durante a campanha disse ter cometido um erro.

Clima

Biden colocou as mudanças climáticas entre as quatro prioridades de seu governo durante a transição de mandato e nomeou o ex-secretário de Estado e um dos principais nomes da diplomacia americana, John Kerry, como um czar do tema no Conselho de Segurança Nacional. É a primeira vez que um nome dedicado ao ambiente terá assento no Conselho de Segurança, o que significa que discussões climáticas devem permear toda a política externa. O democrata já prometeu “reunir o mundo” para obter fundos para preservação da Amazônia e disse que haveria consequências econômicas caso o Brasil não se comprometesse em proteger a floresta.

“Biden e o futuro secretário de Estado, Tony Blinken, entendem duas coisas muito claramente. Primeiro, os desafios globais mais urgentes da nossa época devem ser enfrentados em cooperação com os parceiros dos EUA. Biden disse: ‘América primeiro tornou a América isolada’”, afirma Michael Camilleri, diretor do centro Rule of Law, do instituto InterAmerican Dialogue, e ex-assessor para América Latina durante o mandato de Obama. “Em segundo lugar, eles entendem que a liderança dos EUA ainda é importante e deve ser construída, como disse Blinken, com humildade e confiança”, diz Camilleri.

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