Maddie McGarvey/The New York Times
Maddie McGarvey/The New York Times

Biden já aparou atritos com Brasil, mas relação com Bolsonaro tende a ser tensa

Política externa de democrata, em caso de vitória, deve se orientar por três eixos: liderança na resposta global à pandemia, agenda de proteção ambiental e oposição a governos autoritários; brasileiro tem sido pressionado em todos

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 20h50

Uma eventual vitória do democrata Joe Biden na eleição presidencial dos Estados Unidos poderá mudar a rota da relação do país com o Brasil. Como ex-vice-presidente, Biden foi crucial para a construção de uma boa relação entre Washington e Brasília, mas o apoio inequívoco de Jair Bolsonaro a Donald Trump e o questionamento internacional sobre a atual política ambiental do País tendem a distanciá-lo do governo brasileiro.

A admiração de Bolsonaro por Trump sempre foi deixada às claras. O brasileiro quebrou o padrão de diplomacia internacional ao declarar, nos jardins da Casa Branca, que torceria pela reeleição do republicano. 

“Joe Biden defende uma agenda do século 21 entre os dois países. A eventual presidência dele teria muito potencial para impulsionar as relações entre Brasil e EUA”, afirma Thomas Shannon, embaixador americano no Brasil em parte do governo Obama.

“Bolsonaro, no entanto, abraçou o governo Trump e se comprometeu com ele, quase em nível pessoal, o que limita a capacidade do Brasil de construir um relacionamento bipartidário em Washington”, diz Shannon.

Bolsonaro voltou a dizer que torce pela reeleição de Trump na última quinta-feira, mas afirmou que há interesse na relação entre os dois países “independentemente de qual partido esteja no poder”. “Se eles (democratas) não quiserem, paciência, né? O Brasil vai ter que se virar por aqui”, disse.

Entre ex-assessores e diplomatas que já trabalharam com Biden, é consenso que o democrata tem conhecimento sobre o País, sobre os entraves na relação bilateral e disposição para o aprofundamento da parceria com o Brasil. Mas, para isso, o governo Bolsonaro precisará fazer sinais.  “O potencial de tensão com o governo Bolsonaro é muito claro”, afirma Michael Camilleri, diretor do centro Rule of Law, do instituto InterAmerican Dialogue. 

Isso porque, segundo ele, a política externa de Biden deve se orientar por três eixos: liderança na resposta global à pandemia, agenda de proteção ambiental e pressão sobre governos autoritários. Bolsonaro tem sido pressionado pela comunidade internacional e pela esquerda americana em todos.

“Mas Biden tem estilo construtivo, conhece o Brasil e valoriza a parceria com o País. Dependerá, honestamente, de como o governo Bolsonaro agir”, afirma Camilleri, que foi assessor de América Latina no governo Obama no Departamento de Estado americano e no Conselho de Segurança Nacional, onde trabalhou direto com Biden. 

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Quando Dilma Rousseff desmarcou a viagem que faria a Washington, em 2013, em meio a denúncias de que fora espionada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), a Casa Branca escalou Biden para resolver o problema. 

Em 2014, o democrata foi à Arena das Dunas, em Natal, para assistir a estreia da seleção americana na Copa, e depois esteve em Brasília, no primeiro dia de 2015, para a posse de Dilma no segundo mandato. 

Segundo interlocutores dos dois governos, Biden telefonava mensalmente para Dilma e era o único vice-presidente com quem ela aceitava conversar. O democrata esteve envolvido na disputa pela venda de caças supersônicos ao Brasil. “Quais são os problemas?”, perguntava Biden nas reuniões com o governo brasileiro, querendo saber dos empecilhos para a Boeing na disputa. 

O americano anotava em um caderno as questões levantadas pelos brasileiros e telefonava depois com parte dos problemas resolvidos. No fim, os EUA ficaram frustrados com o desfecho da disputa, quando o Brasil comprou os caças da sueca Gripen.

Mesmo assim, a boa relação rendeu resultados em 2015, quando Dilma afirmou, em Washington, que o sucesso da visita deveria ser creditado a Biden, “por sua determinação e disposição de dialogar”. A petista chegou a chamar o americano de “amigo” e a defini-lo como um “homem charmoso”. 

As pesquisas de intenção de voto nos EUA têm mostrado Biden com apoio crescente, com mais de dez pontos de diferença sobre Trump – como a eleição americana é definida em um Colégio Eleitoral, o resultado em alguns Estados tem mais peso e nem sempre quem tem mais votos no geral vence. 

Até mesmo o conservador John Bolton, que foi conselheiro de Segurança Nacional de Trump, afirmou que o governo Bolsonaro precisa garantir “linhas de comunicação abertas” com os democratas, em entrevista ao Estadão

Shannon, no entanto, avalia que o Brasil pode chegar atrasado. “O mundo vai estar bastante ocupado em janeiro. O tempo de um presidente eleito estará voltado para resposta à pandemia e consequências econômicas, para o relacionamento com China e Rússia, para tentar salvar o acordo nuclear com o Irã, para os problemas com a Turquia na Otan, para os europeus”, afirma Shannon.

Sintonia sobre Amazônia seria essencial em aproximação

Nesse sentido, para abrir caminho com os democratas, o governo Bolsonaro terá de se mostrar disposto a discutir temas sensíveis, como a proteção da Amazônia. “O governo Bolsonaro tem uma abordagem sobre meio ambiente, povos indígenas e direitos LGBT que um governo Biden não será capaz de apoiar”, ressalta Shannon.

A proteção da Amazônia é tema obrigatório na agenda democrata para negociar com Bolsonaro. Em março, em uma entrevista à revista Americas Quarterly, Biden afirmou que seu governo iria “reunir o mundo” para garantir a proteção da Floresta Amazônica, se o governo Bolsonaro falhar nessa missão. “Biden se preocupa muito com a questão climática e é também um tema no qual a base do Partido Democrata coloca muita energia”, afirma Camilleri. 

A resistência articulada pelos parlamentares da ala mais à esquerda do Partido Democrata ganhou corpo depois das notícias sobre o aumento das queimadas na Amazônia, no ano passado. Neste ano, 24 deputados da Comissão de Orçamento, a mais importante da Câmara dos Deputados, enviaram uma carta ao Escritório Comercial americano na qual dizem se opor a um eventual acordo comercial com o Brasil durante a gestão Bolsonaro. 

Deputado por Oregon e presidente da subcomissão de Comércio da Câmara, Earl Blumenauer é um dos que subscreveu a manifestação. Para o deputado, Bolsonaro é “uma imitação pobre de Trump”. “A liderança brasileira atual não inspira confiança. É essencial falar sobre a Amazônia quando tratamos de mudanças climáticas globais. Biden estará em posição de colocar claramente quais são as condições dos EUA para desenvolver essa relação com o Brasi”, afirmou Blumenauer ao Estadão.

Governo brasileiro e americano trabalham em um pacote de facilitação de comércio que não envolve negociação sobre tarifas. Por isso, o governo Trump pode assinar um acordo sem pedir aval para o Congresso. Blumenauer acredita que mesmo uma negociação de menor escala seria amplamente repudiada pelos parlamentares democratas. “Não acho que o governo Trump esteja querendo criar mais problema neste momento”, afirma o parlamentar. 

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