Hector RETAMAL / AFP
Instituto de Virologia de Wuhan em foto de 2017  Hector RETAMAL / AFP

EUA farão em 90 dias relatório de inteligência sobre origens do coronavírus na China

Novas evidências fizeram ressurgir dúvidas sobre a origem do Sars-CoV-2; autoridades de saúde do governo Biden pediram novas investigações

Yasmeen Abutaleb, Shane Harris e Ben Guarino, The Washington Post

26 de maio de 2021 | 14h21

WASHINGTON -  O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pediu às agências de inteligência americanas para redobrar esforços na investigação da origem da pandemia de covid-19. Segundo o líder democrata, os dados atuais são insuficientes para determinar se o vírus surgiu de causas naturais ou de um acidente de laboratório. Um relatório sobre as origens do coronavírus deve ser entregue à Casa Branca em 90 dias. 

"A comunidade de inteligência não acredita que exista informação suficiente para dizer que uma teoria é mais provável que a outra", disse Biden em nota. "Os EUA trabalharão em sintonia com parceiros internacionais para que a China colabore de forma transparência para prover acesso a todos os dados e provas relevantes.

Ainda de acordo com Biden, é provável que em virtude da resistência do governo chinês em cooperar com investigações internacionais nunca se chegue a uma conclusão sobre as origens do Sars-Cov-2.

Pressão na OMS

Mais cedo, o principal oficial de saúde dos Estados Unidos convocou nessa terça-feira, 25, uma investigação de acompanhamento rápida sobre as origens do novo coronavírus em meio a novas questões sobre a transmissão do vírus ter ocorrido de um hospedeiro animal para humanos, em um evento natural, ou ter escapado de um laboratório de Wuhan.

O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Xavier Becerra, disse em uma reunião ministerial anual da Organização Mundial da Saúde (OMS) que os especialistas internacionais deveriam ter "a independência para avaliar completamente a origem do vírus e os primeiros dias do surto".

Os comentários de Becerra, que foram pré-gravados, sinalizaram que o governo de Joe Biden continuará a pressionar a OMS para expandir sua investigação para determinar as origens do vírus.

Enquanto o coronavírus devastava os Estados Unidos e grande parte do mundo no ano passado, uma das primeiras teorias era que ele emergiu de um mercado em Wuhan, que vendia carne de animais selvagens criados em cativeiro, e depois se espalhou rapidamente pelo globo. Os especialistas em evolução do genoma viral determinaram que quase certamente não foi projetado como uma arma biológica, porque tem várias características naturais e está intimamente relacionado a um coronavírus de 2014, que veio de um morcego em uma caverna na China. Mas eles também disseram que não podiam descartar que o vírus pode ter escapado do Instituto de Virologia de Wuhan, um laboratório de pesquisa que estuda o coronavírus.

Embora a teoria do vazamento de laboratório tenha sido inicialmente apontada como improvável, relatórios recentes sobre a hospitalização de pesquisadores do laboratório de Wuhan em novembro de 2019 - semanas antes do vírus ser identificado na cidade - deram-lhe uma nova força. Uma equipe liderada pela OMS concluiu que um vazamento de laboratório era extremamente improvável após visitar as instalações de Wuhan, mas alguns cientistas e pesquisadores internacionais disseram que as conclusões foram contaminadas por influências políticas e pediram mais investigações.

A suposição padrão dos cientistas é que este foi um evento de ocorrência natural, uma vez que centenas de vírus zoonóticos saltam de animais para humanos e causam todos os tipos de doenças. Muitos cientistas que estudam doenças dessa natureza dizem que esse ainda é o cenário mais provável. Mas em parte porque ainda não identificaram o animal que pode ter espalhado o vírus para humanos, a teoria do laboratório de Wuhan ganhou mais credibilidade.

Em uma reunião na Casa Branca na terça-feira, Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do governo, disse acreditar que é mais provável que o vírus tenha se originado de uma "ocorrência natural". Mas ele disse que uma investigação mais profunda é necessária.

"Como não sabemos 100 por cento qual é a origem, é imperativo que procuremos e façamos uma investigação", disse Fauci.

No mesmo encontro, Andy Slavitt, o conselheiro sênior da Casa Branca sobre a resposta ao coronavírus, expressou frustração com as barreiras impostas aos cientistas internacionais pelo governo chinês.

"É nossa posição que precisamos chegar ao fundo disso, e precisamos de um processo totalmente transparente da China. Precisamos da OMS para ajudar nessa questão. Não sentimos que temos isso agora", disse Slavitt. "Essa é uma prioridade crítica para nós."

A agência das Nações Unidas divulgou um relatório conjunto com cientistas chineses em março, depois que uma missão liderada pela OMS passou quatro semanas em Wuhan. Mas os Estados Unidos e outras nações levantaram preocupações sobre os limites impostos a essa missão e pediram que a China seja mais transparente. Os Estados Unidos e outras nações expressaram preocupação de que "o estudo internacional de especialistas sobre a origem do vírus Sars-CoV-2 foi significativamente atrasado e não tinha acesso a dados e amostras originais completos".

Os comentários de funcionários de Biden na terça-feira reiteram a posição do governo, mas ainda não está claro se ou como eles podem pressionar a China a ser mais transparente.

A administração Biden não se retratou de uma declaração do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional, divulgada durante a administração Trump, de que a comunidade de inteligência "concorda com o amplo consenso científico de que o vírus covid-19 não foi feito pelo homem ou geneticamente modificado". A declaração observou que as agências de inteligência continuariam a tentar "determinar se o surto começou através do contato com animais infectados ou se foi o resultado de um acidente em um laboratório em Wuhan".

O governo Trump também buscou respostas sobre as origens do vírus, mas alguns funcionários foram além, sugerindo que a China liberou ou criou o vírus intencionalmente. O ex-conselheiro comercial de Donald Trump, Peter Navarro, por exemplo, acusou a China de criar o vírus como uma arma biológica.

O The Wall Street Journal informou no início desta semana que três pesquisadores do laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan ficaram doentes em novembro de 2019 e procuraram atendimento hospitalar, renovando o interesse na teoria da origem do laboratório. O jornal citou um relatório de inteligência dos EUA como fonte e observou que uma pessoa disse que a informação veio de um "parceiro internacional", que a descreveu como potencialmente significativa, mas precisando de mais corroboração.

Isso ecoou um relatório anterior do Departamento de Estado, que nos últimos dias do governo Trump, disse que "o governo dos EUA tem motivos para acreditar que vários pesquisadores do (Instituto de Virologia de Wuhan) adoeceram no outono de 2019". A declaração não disse precisamente quando os trabalhadores supostamente adoeceram ou quantos adoeceram, mas observou que seus sintomas surgiram "antes do primeiro caso identificado do surto" e eram "consistentes com covid-19 e doenças sazonais comuns".

Um ex-funcionário dos EUA familiarizado com a inteligência, que falou sob condição de anonimato porque não estava autorizado a divulgar a informação, disse que o governo dos EUA estava confiante de que os trabalhadores ficaram doentes, mas não podia dizer que sofriam de covid-19.

O debate sobre se o vírus se originou em um acidente de laboratório foi tomado por teorias da conspiração que buscaram estabelecer uma ligação entre Fauci, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) e Instituto de Virologia de Wuhan - um problema que surgiu na terça-feira em uma audiência do NIH no Capitólio.

Essa teoria se concentra em uma doação de US$ 3,7 milhões (R$ 19,69 milhões) do NIH a uma organização sem fins lucrativos de pesquisa com sede em Nova York chamada EcoHealth Alliance. O Instituto de Virologia de Wuhan recebeu uma subvenção sob esse contrato, levando os teóricos da conspiração a alegar que Fauci, um oficial do NIH, estava de alguma forma ligado ao surgimento do coronavírus.

O deputado republicano Andy Harris ergueu uma cópia do Wall Street Journal durante a audiência, referindo-se à sua história recente sobre os trabalhadores do laboratório de Wuhan que ficaram doentes. Harris perguntou ao diretor do NIH, Francis Collins, se era verdade que US$ 600 mil (R$ 3.193.500,00) dos $ 3,7 milhões doados à EcoHealth Alliance fossem direcionados às instalações de Wuhan. Collins disse que isso era certo.

Harris também perguntou se a agência sabia se a pesquisa que aumenta artificialmente a contagiosidade de um patógeno, conhecida como "ganho de função", foi conduzida lá. "Eles não foram aprovados pelo NIH para fazer pesquisas de ganho de função", disse Collins.

Fauci descreveu a pesquisa financiada pelo NIH como uma "colaboração modesta com cientistas chineses muito respeitáveis" após o susto da SARS de 2002 e 2003. Esse vírus "inquestionavelmente" passou de um morcego a um hospedeiro intermediário e iniciou uma epidemia entre os humanos, disse ele na audiência.

"Você tem que ir aonde está a ação" para estudar vírus como esses, disse Fauci, que justificou que a verba mencionada foi usada para financiar um programa de vigilância de coronavírus em morcegos.

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