Al Drago/EFEEPA
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Biden assina ordens executivas para combater a pandemia, revertendo políticas de Trump

Novo presidente americano diz que ‘as coisas vão continuar a piorar antes de melhorarem’; governo tenta acelerar o ritmo de vacinação para garantir a imunização total da população até o final de junho

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 10h40
Atualizado 21 de janeiro de 2021 | 20h38

WASHINGTON - Em seu primeiro dia de trabalho como presidente dos Estados Unidos, Joe Biden centrou os esforços no combate ao coronavírus, com a assinatura de dez medidas relacionadas ao enfrentamento da crise, o que classificou como um “esforço de guerra de larga escala”. Entre as mudanças, o presidente estabeleceu exigência de testesquarentena obrigatória para viajantes que chegam aos EUA e obrigatoriedade do uso de máscaras em ônibus, trens e aviões. 

Com tom sóbrio, Biden afirmou que a “verdade brutal” é que os EUA levarão meses até vacinar a maioria dos cidadãos e a homenagem às mais de 400 mil vítimas da covid-19 feita por ele na posse infelizmente não será o último momento de luto no país. “Deixe-me ser claro: as coisas vão continuar a piorar antes de melhorarem”, declarou. O tom vai na contramão da retórica adotada pelo ex-presidente Donald Trump, que costumava minimizar a gravidade do vírus ao dizer que a pandemia estava sob controle.

A mudança não é só na narrativa. O novo presidente apresentou um plano de cerca de 200 páginas em que o governo federal centraliza a resposta ao vírus, algo que a gestão Trump evitou fazer. O ex-presidente transferiu em muitos momentos a responsabilidade a governadores – como a decisão de reabrir negócios e serviços durante o primeiro pico da pandemia.

“No ano passado, não pudemos contar com o governo federal para agir com a urgência, o foco e a coordenação de que precisávamos, e vimos o custo trágico desse fracasso”, disse Biden. O combate à pandemia é o maior desafio do novo governo. Para tentar controlar o vírus, o presidente promete aplicar 100 milhões de doses nos 100 primeiros dias de governo.

Como as duas vacinas aprovadas para uso dos EUA requerem duas doses – e 16 milhões  já foram vacinados – a estimativa de especialistas é que entre 65 e 75 milhões de americanos estejam imunizados ao fim dos 100 primeiros dias. 

O número é visto como baixo por especialistas, mas Biden se recusou a responder se a estimativa era insuficiente ao ser questionado por um repórter: “Quando eu anunciei, vocês disseram que não era factível. Me dê um tempo, cara”, respondeu.

Os EUA começaram a vacinação em meados de dezembro, após a aprovação para uso emergencial de dois imunizantes: o da Pfizer e o da Moderna. Mas a velocidade de vacinação é menor do que os americanos esperavam. Trump prometeu vacinar 20 milhões de pessoas só em dezembro, mas deixou o governo tendo imunizado metade do número pretendido. O governo Biden tenta acelerar o ritmo e garantir a imunização total da população até o final de junho e colocar o país próximo à normalidade no segundo semestre. 

Até lá, a nova Casa Branca tenta passar uma mensagem unificada à população pelo uso de máscaras em lugares públicos, algo que Trump sempre rejeitou fazer. Os assessores de Biden ostentavam publicamente máscaras diante das câmeras, como o próprio presidente fez ao longo da campanha. 

Parte das medidas anunciadas, como ampliação da testagem e reembolso a Estados que enviaram suas Guardas Nacionais para ajuda no combate à pandemia, depende da aprovação pelo Congresso do pacote de socorro de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 10,8 trilhões), que enfrenta oposição entre os republicanos.

Viajantes

Medida executiva assinada por Biden prevê que viajantes internacionais precisam apresentar um teste de covid-19 negativo para viajar aos EUA – algo que o governo Trump estabeleceu nas últimas semanas de seu governo, com vigência a partir do dia 26 – e fazer uma quarentena. Mas o período do isolamento não foi informado, nem a forma de comprovar o cumprimento da determinação.

O governo Trump havia estabelecido restrições de entrada a viajantes de determinados países. Mas antes de deixar a Casa Branca, Trump derrubou a proibição de entrada de passageiros do Brasil, Reino Unido, Irlanda e de 26 países europeus. Biden pode recolocar a proibição de entrada de viajantes de países com alto número de casos de covid-19, como o Brasil, mas até o momento não mencionou o assunto. Se o governo não emitir nova ordem executiva restabelecendo a restrição, passageiros que viajam do Brasil, Europa, Reino Unido e Irlanda poderão entrar nos EUA a partir do dia 26, desde que cumpram as exigências.

"Além do uso de máscaras, todos aqueles que viajarem aos Estados Unidos de outro país, terão de fazer um exame antes de embarcar no avião e realizar uma quarentena quando chegarem", informou Biden durante pronunciamento na Casa Branca. "Não entramos nessa confusão da noite para o dia e vai levar meses para reverter isso", disse Biden. "Apesar das melhores intenções, vamos enfrentar contratempos. Mas para uma nação à espera de ação, deixe-me ser claro neste ponto: a ajuda está a caminho."

Toda a estratégia coincide com um marco que demonstra a extensão da doença no país: na quarta-feira, as mortes causadas pelo novo coronavírus nos Estados Unidos ultrapassaram o número de americanos mortos na 2ª Guerra.

Segundo a Universidade Johns Hopkins, até a noite de quarta, os EUA contabilizavam 405.400 mortes pela doença, mais que qualquer outro país do planeta. Na manhã desta quinta-feira, os mortos já eram mais de 406 mil. De acordo com o Departamento de Assuntos dos Veteranos, 405.399 americanos perderam a vida no conflito mais letal do século passado.

Vacinação e testagem

Parte do financiamento do plano virá da Agência para a Coordenação de Emergências Federais (Fema), que foi ordenada a iniciar a implementação de centros comunitários de vacinação que terão o apoio do governo, mas recursos adicionais são necessários. A nova porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse na quarta-feira que o presidente deverá invocar a Lei de Produção de Defesa para suprir as necessidades.

Herança da Guerra da Coreia e raramente usada na área da saúde, a medida permite que o governo inste companhias privadas a priorizar suas ordens para garantir que não falte produtos essenciais. Em 2020, Trump ameaçava com frequência usar a legislação para pressionar empresas, mas raramente o fez.

Conselheiros da nova gestão se recusaram a detalhar quando ou como a lei será usada. Elas afirmaram, no entanto, terem identificado a escassez de 12 tipos de materiais essenciais para o combate à crise, entre eles máscaras N95, reagentes, seringas e swabs usados para os exames que detectam a doença.

“Onde for possível produzir mais, nós o faremos, e se precisarmos usar a Lei de Produção de Defesa para ajudar, nós o faremos também”, disse Tim Manning, chefe do braço da força-tarefa que coordena a cadeia de produção.

Força-tarefa

Outro decreto desta quinta criará um Conselho Nacional de Testagem, medida que busca fomentar a aplicação de exames, pesquisas e a busca por tratamentos. Também será implementada uma segunda força-tarefa para “responder ao impacto desproporcional e severo da covid-19 em minorias étnicas e outras populações desamparadas”.

A testagem nos EUA aumentou significativamente nos EUA ao longo de 2020 - na última semana, cerca de 2 milhões de exames foram realizados por dia. O acesso, no entanto, ainda é difícil e desigual entre as regiões do país. As autoridades também afirmaram que irão apresentar novas diretrizes para a reabertura segura das escolas, ponto de tensão durante o governo que deixou a Casa Branca na quarta./Com Ap, AFP e W.Post

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