AP Photo/Evan Vucci
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Biden rejeita 'nova Guerra Fria' e fala em cooperação internacional durante Assembleia-Geral da ONU

Na contramão dos discursos americanos dos últimos anos, durante o governo de Donald Trump, Biden defendeu a busca de saídas conjuntas para as agendas internacionais, em claro aceno ao multilateralismo

Gabriel Caldeira, Ilana Cardial e Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 13h12
Atualizado 22 de setembro de 2021 | 12h40

Em um discurso longo, com mais de meia hora de duração, Joe Biden fez seu primeiro pronunciamento na Assembleia-Geral da ONU como presidente dos Estados Unidos. Durante a fala, marcado por acenos ao multilateralismo e à cooperação internacional, Biden rejeitou a hipótese de que os EUA tenham interesse em mergulhar o mundo em uma nova Guerra Fria - tema que foi levantado recentemente pelo secretário-geral da ONU, António Gueterres.

"Nós não estamos buscando - e eu repito, nós não estamos buscando - uma nova Guerra Fria, ou um mundo dividido em blocos rígidos", afirmou durante o discurso. E completou: "Os Estados Unidos estão dispostos a trabalhar com qualquer nação que se comprometa e busque uma solução pacífica para compartilhar os desafios, embora tenhamos intensas divergências em outras áreas", sem mencionar diretamente a China, maior rival do país em áreas estratégicas.

O pronunciamento de Biden vai na contramão dos posicionamentos defendidos pelos Estados Unidos na Assembleia-Geral nos últimos anos, durante o governo de Donald Trump. Enquanto o ex-mandatário colocou o país em uma posição de isolamento em relação à comunidade internacional sobre os temas em debate - defendendo sempre a resolução interna das agendas, em detrimento das saídas multilaterais -, Biden deixou claro que pretende tratar diversas agendas prioritárias, como o combate à pandemia da covid-19 e as mudanças climáticas, de forma conjunta com os demais líderes mundiais.

A mudança de posicionamento também fica evidente em trechos do discurso de Biden que parecem destinar rivais e aliados. Enfrentando uma crise diplomática com a França, após a formação de uma aliança com Reino Unido e Austrália para fornecimento de submarinos nucleares no Pacífico atravessar um negócio bilionário francês, Biden afirmou que seu governo tenta reconstruir pontes e revitalizar alianças com parceiros estratégicos - o que pode ser entendido como a reaproximação dos EUA e da Otan -, classificando-os como "centrais" para a continuidade da segurança e prosperidade do país.

No campo da segurança e defesa, Biden apontou que pela primeira vez em 20 anos que os EUA não estão envolvidos em um guerra e que o país pretende usar a via diplomática para mitigar conflitos armados ao redor do mundo, afirmando que "estamos de volta à mesa de negociações internacionais, especialmente das Nações Unidas, para focar a atenção e ação global e compartilhar desafios",  ressaltando a volta do país a acordos e organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ao mesmo tempo em que destacou o momento pacífico e o que os EUA buscarão"guiar as ações mundiais" não apenas "com o exemplo de nosso poder, mas com o poder de nosso exemplo", o democrata também declarou que o país está pronto para responder a qualquer ameaça a ele e a seus aliados.

"Não se enganem, os Estados Unidos vão continuar se defendendo, seus aliados e interesses contra ataques, incluindo ameaças terroristas quando necessário. Mas para defender nosso interesse nacional, incluindo contra ameaças em curso e iminentes, mas a missão precisa ser clara e alcançavel, feita com o consentimento dos americanos e sempre que possível em parceria com nossos aliados."

Multilateralismo, pandemia e agenda ambiental

O caráter multilateral do discurso já ficou visível no momento de abertura, quando Biden apontou que a dor pelas perdas provocadas pela pandemia era comum a toda a humanidade, afirmando que o momento de "luto compartilhado" funciona como um lembrete de que o futuro coletivo depende da capacidade de "reconhecer nossa humanidade comum e nossa ação compartilhada". "A próxima década deve ser uma década decisiva, que literalmente determinará nossos futuros", disse.

Algumas pautas prioritárias foram mencionadas pelo presidente americano, como o próprio combate à pandemia. Biden defendeu a criação de um novo mecanismo de financiamento à saúde, ressaltando que o mundo ainda lidará com outras pandemias. "Precisamos agir para expandir acesso a vacinas contra a covid-19".

O presidente ainda garantiu que os EUA doarão mais vacinas ao Covax facility, da OMS e que os EUA vão anunciar novos compromissos sobre combate global à pandemia na quarta-feira, 22.

Outra agenda discutida pelo presidente - tema prioritário e recorrente desde as eleições americanas - diz respeito à pauta ambiental. O presidente voltou a afirmar que os líderes devem enfrentar a crise climática juntos e mencionou a "enorme oportunidade" de geração de empregos e crescimento econômico trazidos pelas transformações por elas exigidas -  em um tom quase idêntico ao discurso feito durante a Cúpula do Clima realizada no começo deste ano nos EUA.

Biden afirmou que os EUA vão dobrar o financiamento contra as mudanças climáticas e destacou a importância de que todos os países levem suas maiores ambições para lidar com a crise à COP 26, a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que ocorre em novembro, em Glasgow.

O presidente prometeu mirar, junto às nações parceiras do G7 e aliados do setor privado, investimentos de "centenas de bilhões de dólares" em infraestrutura. O presidente argumentou que investimentos em "infrastrutura verde" e veículos elétricos ajudarão a reduzir as emissões de poluentes em todo o mundo. Ele ainda protestou contra iniciativas de construções de "má qualidade, que degrada ainda mais as condições ambientais".

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