Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Biden será um presidente ativista no cenário mundial?

Presidente pode ser mais visível e presente do que muitos preveem no momento em que começa a lidar com a pandemia, com a recuperação econômica e com profundas divisões deixadas pela era Trump

Mark Landler / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 08h42

LONDRES - Há dez anos, Joe Biden entrou em um salão de recepção em Atenas para um encontro com o presidente da Grécia, um país na época afogado em dívidas e envolvido em negociações tensas com a União Europeia. “Este homem representa o Departamento do Tesouro”, disse Biden impassível ao seu anfitrião, enquanto apontava para um membro de sua delegação de terno cinzento. “Ele trouxe centenas de milhões de dólares”.

A sala irrompeu em gargalhadas. Estava claro que o vice-presidente não fora com uma maleta de dinheiro vivo para saldar a dívida da Grécia. Mas a sua piada expressava uma verdade mais profunda. Em 2011, muitos ainda consideravam os Estados Unidos o fiador último da ordem internacional. E Biden se viu claramente nas vestes do administrador desse legado, enquanto a sua fácil autoconfiança era o produto de um senador que passara quarenta anos como globe-trotter.

Quando Biden prestou o juramento do cargo ontem, prometendo “reparar as nossas alianças e trabalhar com o mundo mais uma vez”, a pergunta que muitos se fizeram no exterior é se finalmente poderão ver logo mais este homem do mundo.

Em todas as capitais da Europa à Ásia, diplomatas e especialistas em política externa questionaram se os Estados Unidos não estariam demasiado divididos, enfraquecidos e preocupados com as convulsões internas para desempenhar o papel de liderança que Biden considerara garantido quando senador e vice-presidente.

Entretanto, há razões para acreditar que o presidente Biden será mais visível e mais ativista do que muitos preveem, no momento em que ele começa a lidar com a pandemia, com um esforço de recuperação econômica e com as profundas divisões deixadas pela era Trump. Das pessoas que ele escolheu para postos chave em política externa para as oportunidades de viagens que ele tem este ano, os que conhecem Biden afirmam que é improvável que ele fique por muito tempo fora do palco global.

“Este é um homem que passou 40 anos conhecendo os líderes estrangeiros ao redor do mundo”, disse Peter Westmacott, que morou ao lado de Biden como embaixador britânico em Washington no governo Obama. “Quando você toma o gosto pelas relações internacionais, não dá as costas a tudo isto”.

Wolfgang Ischinger, ex-embaixador alemão nos Estados Unidos, comentou que esperava que Biden utilizasse suas relações pessoais para reatar os laços com os aliados europeus que foram desfeitos pelo ex-presidente Donald Trump. “Joe Biden é mestre em criar redes, e ele reparará facilmente a falta de confiança”, disse Ischinger, que agora dirige o Munich Security Fórum de Munique sobre Segurança.

O objetivo imediato de Ischinger é convencer o presidente a participar de sua influente conferência anual. Ele tem uma chance considerável de encontrá-lo; Biden tem sido uma presença fundamental em Munique anos a fio, principalmente em 2009, quando anunciou que o ex-presidente Barack Obama queria “apertar o botão do reset” com a Rússia.

Em seu discurso de posse, Biden afirmou que “o mundo está observando”. Ele prometeu que os Estados Unidos haviam “saído mais fortes” do seu recente stress. E prometeu a restauração da liderança americana pois, afirmou: “Nós não lideraremos apenas pelo exemplo do nosso poder, mas pelo poder do nosso exemplo”.

É provável que Biden faça a sua estreia formal em uma reunião do G-7 em junho, do qual o Reino Unido será o anfitrião, em um resort no litoral da Cornualha. Ele poderá ampliar a viagem para visitar outros destinos europeus como a Alemanha, onde terá a possibilidade de despedir-se da chanceler Angela Merkel, antes que ela se retire do cargo depois de 16 anos.

No outono, Biden deverá participar de uma reunião do G-20 em Roma, e da conferência  sobre a mudança climática da ONU, em Glasgow, na Escócia, onde poderá reafirmar a sua decisão de voltar ao Acordo de Paris sobre o clima. Considerando estas datas da agenda diplomática, os especialistas afirmam que as obrigações de Biden não sugerem uma Casa Branca voltada para os problemas internos.

A sua escolha de Kurt Campbell para o cargo de coordenador de alto nível da política asiática, por exemplo, poderá prognosticar relações difíceis com a China, juntamente com um grande esforço visando tranquilizar os aliados americanos Japão e Coreia do Sul. Como representante do Departamento de Estado no governo Obama, Campbell criou o chamado “pivô” para a Ásia.

“Biden escolheu pessoas que compreendem e estão comprometidas com a concorrência estratégica”, disse Thomas Wright, especialista em política externa da Brookings Institution. Alguns especialistas afirmam que o caos visto no Capitólio comprometeu o papel tradicional da nação como campeã da democracia, e que a série de crises internas consumiria a energia de Biden, distraindo-o dos assuntos externos.

“Objetivos ambiciosos em política externa absolutamente não se coadunam com as realidades da disfunção política e econômica do país”, afirmou Emma Ashford, pesquisadora sênior do Conselho Atlântico na revista “Política Externa”. “Como poderiam os Estados Unidos espalhar a democracia ou agir como exemplo para outros se a democracia mal funciona em sua casa?”

Contudo, Wright argumentou que as ameaças internas à democracia deverão fortalecer a resolução do governo Biden de combater os abusos em matéria de direitos humanos na China, Rússia e em outros governos autocráticos. “Eu nunca entendi a relação entre ambições internas e ambições externas”, ele disse. “Justamente pelo fato de a democracia ser desafiada internamente, os EUA precisam agir de maneira mais enérgica na defesa da democracia no exterior”.

Os laços entre política interna e externa foram reforçados pela indicação de Susan Rice, que foi assessora de segurança nacional de Obama, ao cargo de diretora do conselho de política interna de Biden. As principais prioridades internas como a pandemia, destacam os especialistas, são também desafios globais.

Outro assessor de alto nível de Biden, Jake Sullivan, na área de segurança nacional, usou o Twitter  para avaliar as questões sensíveis antes da posse do seu superior. Ele condenou a prisão do líder da oposição Alexei Navalny, pela Rússia, apelou para a União Europeia para que pense duas vezes antes de assinar um tratado de investimentos com a China, e disse que o fato de Trump ter designado os rebeldes Huthis do Iêmen como grupo terrorista “só infligirá mais sofrimento ao povo iemenita”.

Resta ver se o governo Biden apoiará estas palavras com ações, evidentemente. Entretanto, alguns afirmam que os instintos, o temperamento e a experiência de Biden como membro do Senado da Comissão de Relações Exteriores do Senado faz com que pareça improvável que ele ignore as chances de comandar o cenário mundial.  

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