Alexander Ermochenko/Reuters
Alexander Ermochenko/Reuters

Biden telefona para Putin e tenta reduzir tensão na fronteira da Ucrânia

EUA garantem apoio militar aos ucranianos e enviam dois destróieres ao Mar Vermelho, após Rússia mobilizar mais de 80 mil soldados; presidente americano sugere ao russo uma cúpula entre os dois para buscar uma solução diplomática para crise

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 21h45

WASHINGTON - A crise na fronteira da Rússia com a Ucrânia levou nesta terça-feira, 13, o presidente dos EUA, Joe Biden, a telefonar para seu colega russo, Vladimir Putin, para tentar reduzir a tensão na região. O americano propôs uma cúpula entre os dois no futuro próximo, em um terceiro país, além de expressar apoio aos ucranianos. 

A conversa foi revelada pela Casa Branca, em comunicado, e virou uma peça de propaganda dos dois lados. Moscou disse que o telefonema foi realizado a pedido dos EUA, dando a impressão de que Biden estaria pedindo um favor aos russos. 

Horas antes, o Kremlin exigiu que o governo americano ficasse longe do Mar Negro – uma referência aos destróieres USS Donald Cook e USS Roosevelt, que foram enviados de uma base da Espanha e devem chegar amanhã à região. Serguei Ryabkov, vice-chanceler russo, disse que a movimentação naval era uma “provocação” feita para “testar os nervos” da Rússia. “Não há nenhuma razão para navios americanos estarem em nosso litoral”, disse. 

Nas últimas semanas, Putin mobilizou 83 mil soldados na fronteira da Ucrânia, segundo serviços de inteligência ocidentais, criando o primeiro grande desafio de política externa de Biden, justamente contra um dos mais experientes atores internacionais, Putin, um rival histórico dos EUA.

Embora Putin não tenha dado nenhuma razão para a mobilização de tropas na fronteira com a Ucrânia, analistas acreditam que a medida possa ser uma resposta às declarações recentes de Biden, que chamou Putin de “assassino”, endurecendo a política americana com a Rússia.

Nesta terça-feira, o chanceler da Ucrânia, Dmitro Kuleba, se reuniu em Bruxelas com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenburg. O ucraniano obteve de ambos o apoio “inequívoco” da aliança militar contra qualquer agressão da Rússia. 

Segundo a Casa Branca, durante a conversa com Putin, a segunda entre os dois presidentes desde a posse de Biden, em janeiro, o americano expressou preocupação com o aumento do contingente militar russo na fronteira. Já o Kremlin disse os dois líderes se mostraram “dispostos ao diálogo”, mas não esclareceu se Putin tinha aceitado a proposta.

A crise na Ucrânia começou em fevereiro de 2014, após protestos populares destituírem o governo do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, um conhecido aliado de Putin que vinha tentando afastar a Ucrânia da União Europeia e da Otan. Yanukovich fugiu para Moscou e a oposição assumiu o governo em Kiev.

A resposta de Putin foi violenta. Um mês depois da fuga de seu aliado, forças russas anexaram a Península da Crimeia, onde fica a base naval e o Porto de Sebastopol, considerado uma das principais saídas marítimas da Rússia. Em seguida, milicianos comandados por Moscou se rebelaram no leste da Ucrânia, iniciando uma guerra civil nas regiões de Donetsk e Luhansk. 

Em comum, Crimeia, Donetsk e Luhansk são regiões ucranianas onde existe um grande contingente de cidadãos de origem russa, o que teria servido para justificar a ação, sob o ponto de vista de Putin. Foram os rebeldes pró-Rússia, lutando no leste da Ucrânia, que abateram por acidente o Boeing 777 da Malaysia Airlines, que ia de Amsterdã para Kuala Lumpur, em março de 2014 – 298 pessoas morreram. 

O conflito, que já deixou mais 13 mil mortos, se intensificou nas últimas semanas, com frequentes confrontos que abalaram o cessar-fogo negociado no ano passado. Moscou não nega, o envio de soldados, tanques e armamento pesado para a fronteira com a Ucrânia, mas garante que está realizando “exercícios de treinamento” na área em resposta ao que chamou de ações “ameaçadoras” da Otan. 

O ministro da Defesa da Rússia, Serguei Shoigu, disse que a Otan estaria enviando 40 mil soldados e 15 mil peças de artilharia para a região. Esta semana, o Kremlin deixou claro que, se a situação se agravar na Ucrânia, fará o possível para garantir a “segurança de seus cidadãos” na região – desde 2019, a Rússia já distribuiu mais de 600 mil passaportes para moradores de Donetsk e Luhansk.

Apoio entre russos a uma ofensiva militar seria baixo

Alguns especialistas especulam que Putin pode estar buscando um confronto com a Ucrânia para reforçar sua posição em casa. Relatórios mostram uma queda na popularidade de Putin e seu impopular partido governista enfrenta eleições em setembro.

Mas os dados sugerem que pode ser difícil para Putin usar a política externa para angariar apoio para uma intervenção militar. 

Os russos apoiaram fortemente a anexação da Crimeia, em 2014, mas agora não estão entusiasmados com a assertividade da política externa russa. A anexação da Crimeia, que elevou os índices de aprovação de Putin para a faixa de 80% por quatro anos, pode ser o motivo pelo qual agora não há aprovação pública para uma política externa russa agressiva.

A anexação criou uma euforia coletiva que levou a uma manifestação de orgulho e confiança nos líderes russos. Para especialistas, o apoio popular foi alto em parte porque a anexação ocorreu com pouco derramamento de sangue.

Mas uma pesquisa de janeiro de 2020 revelou que 82% dos russos acreditam que a Ucrânia deve se manter como um Estado independente, e apenas 15% acreditam que “a Rússia e a Ucrânia devem ser um único país”. A pesquisa revelou que 67% dos russos acham que o Kremlin deveria ver o Ocidente como um “parceiro” e apenas 16% como um “rival”. Um pesquisador do respeitado Levada Center observou que esses dados “sublinham o esgotamento em massa da política externa de confronto”. / AFP, EFE, REUTERS e WP 

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