Anna Moneymaker/The New York Times
Anna Moneymaker/The New York Times

Biden tem a chance de turbinar a economia americana; leia a análise

Presidente deve ter sucesso por tempo suficiente para que essa versão antidemocrática do Partido Republicano trumpista se extinga e seja substituída por um novo Partido Republicano de centro-direita

Thomas L. Friedman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 20h33

Depois da eleição presidencial, escrevi que o que acabara de acontecer me parecia uma cena em que a Estátua da Liberdade atravessava a Quinta Avenida quando, do nada, um maluco dirigindo um ônibus furasse o sinal vermelho. Felizmente, a “Dona Liberdade pulou para a calçada no último segundo. Agora, ela está sentada no meio-fio, com o coração batendo forte, feliz por estar viva”. Ela sabe que escapou por pouco.

Minha esperança era que, assim que Joe Biden assumisse o controle, a ansiedade diante dessa quase morte de nossa democracia desaparecesse de uma vez. Não foi o que aconteceu. Basta ouvir Donald Trump ou o senador Ron Johnson ou a Fox News minimizando a invasão do Capitólio como um piquenique de meninos brancos e republicanos que acabou ficando um pouco turbulento.

Basta ouvir a ex-advogada de Trump, Sidney Powell, tentando escapar de um processo argumentando que nenhuma pessoa séria teria acreditado em suas afirmações de que as máquinas dos sistemas de votação da Dominion haviam fraudado a eleição.

Basta assistir à legislatura da Geórgia aprovando uma medida supostamente destinada a evitar a mesma fraude que Powell agora diz nunca ter acontecido criando obstáculos para os eleitores negros – até mesmo tornando crime alguém servir água para as pessoas que esperavam horas e horas em uma fila de votação.

Sim, o motorista de ônibus maluco ainda está lá fora e a Estátua da Liberdade ainda corre o risco de ser atropelada.

Em vez de o Partido Republicano se sentar após a eleição e resolver: “Vamos fazer uma ponte para os votos de uma América do século 21 diversificada – onde a mensagem republicana de reforma da imigração e políticas pró-negócios, pró-lei-e-ordem e pró-estado-mínimo possa vencer” – o partido decidiu queimar qualquer pedaço dessa ponte e competir apenas por uma América do século 20, dominada pelos brancos.

Como Michael Gerson, ex-redator dos discursos de George W. Bush e agora colunista do Washington Post, disse outro dia: “Um dos veneráveis e poderosos partidos políticos dos Estados Unidos foi tomado por pessoas que fazem do ressentimento contra os outros o elemento central de suas reivindicações (...). Os republicanos eleitos que não são intolerantes geralmente são covardes diante da intolerância. E isto é uma coisa chocante e horrível”.

É por isso que este Partido Republicano trumpista nunca mais deve ter a possibilidade de voltar à Casa Branca. Não se pode sequer confiar que venha a ceder o poder. Quase não o fez em janeiro e já não mostra qualquer sinal de ter se arrependido de seu comportamento. É por isso que, se quisermos preservar nossa democracia, ainda temos de lutar a grande batalha de nossas vidas.

Coisas concretas

A chave para vencer essa batalha é Biden ter sucesso o suficiente e por tempo suficiente para que essa versão antidemocrática do Partido Republicano trumpista se extinga e seja substituída por um novo Partido Republicano de centro-direita, que tenha princípios e esteja pronto para disputar a América do século 21 (precisamos de um partido conservador saudável para manter alguns dos excessos dos democratas liberais sob controle, como a cultura do cancelamento).

E a chave para isso é Biden entregar coisas concretas, que permitam que todos os americanos realizem todo o seu potencial. E a chave para isso é garantir que o estímulo de US$ 1,9 trilhão e sua proposta verde e de infraestrutura de US$ 3 trilhões realmente sejam realizados conforme prometido. E a chave para isso é que Biden não apenas dê vazão a seu Franklin Delano Roosevelt, mas também tenha um pouco de Ronald Reagan.

Os democratas estão todos maravilhados com o fato de Biden ter conseguido aprovar mais dólares de estímulo do que Barack Obama. O que fará uma diferença sustentável, porém, é se o estímulo Biden não apenas socorrer os pobres, mas também impulsionar o setor privado a abrir novas empresas e criar mais empregos que melhorem a produtividade e aumentem de forma sustentável os padrões de vida, para que possamos não apenas repartir o bolo, mas também fazer o bolo crescer.

Apesar das preocupações de que US $ 1,9 trilhão possam elevar as taxas de juros a níveis que afundem o mercado de ações e prejudique os empréstimos e gastos discricionários do governo no futuro, há muitos sinais de que podemos estar caminhando para uma explosão de empreendedorismo.

Vejamos essa reportagem do Wall Street Journal na sexta-feira: “Depois de um ano de paralisações econômicas e outras mudanças provocadas pela covid-19, os aluguéis de lojas, apartamentos e espaços de trabalho em Manhattan caíram aos preços mais baixos em anos. Isso já está atraindo novos pequenos negócios e residentes e tem o potencial de mudar a cara do bairro mais exclusivo da cidade (...). No ano passado, o Estado de Nova York lançou seu maior número de novos negócios desde 2007”.

Se fizermos tudo certo, o pacote de estímulo de Biden irá alimentar e turbinar uma economia já em reestruturação. Com tanto dinheiro barato disponível, tanto acesso barato a computação de alta potência, tantos novos serviços sendo digitalizados e tantos novos problemas para resolver, temos todos os ingredientes para uma explosão de inovação, startups e destruição criativa.

O que Trump faria se presidisse tal boom? Ele colocaria seu nome em cima. É exatamente o que Biden precisa fazer. Se acontecer, vamos chamar de “Biden Boom” e celebrar os empresários, investidores, criadores de empregos, agricultores e todos aqueles que trabalham com as mãos. Vamos deixar claro que todos eles têm espaço no Partido Democrata, não apenas as elites educadas de esquerda. É assim que você ganha as eleições de meio de mandato.

Biden também precisa maximizar suas aspirações verdes. Não se trata apenas de liberar gastos. É preciso liberar o capitalismo. A chave para uma revolução verde é a escala. Precisamos de muito de tudo – eólica, solar, hidrelétrica, nuclear, baterias, materiais eficientes. E a única maneira de obter esse tipo de escala é alavancando o mercado – incentivando todos os tipos de parcerias público-privadas que possam reduzir o carbono e aumentar os lucros.

O governo pode catalisar esse processo de duas maneiras. A primeira é usar seu poder de compra para reduzir custos. Por exemplo, “a energia eólica offshore costumava ser muito mais cara do que a eólica onshore”, explicou Hal Harvey, CEO da Energy Innovation, “mas aí os governos britânico e dinamarquês intervieram para subsidiá-la e movê-la para baixo na curva custo-volume. Agora é um recurso gigantesco e eficiente em termos de custo-benefício”.

A equipe de Biden acaba de anunciar US$ 3 bilhões em garantias de empréstimos para fazer exatamente o mesmo aqui. Parabéns!

Então, quando essas tecnologias verdes são acessíveis, disse Harvey, “você estimula o setor privado para torná-las cada vez mais baratas e mais eficientes, fazendo com que o governo defina padrões de desempenho aprimorados a cada ano” – como fez a Califórnia recentemente, exigindo o fim dos motores de combustão interna em carros até 2035, e como Obama fez em 2012, quando exigiu que as montadoras americanas quase dobrassem a economia média de combustível de novos carros e caminhões até 2025.

É assim que se obtém escala, acrescentou Harvey: “Você permite que o setor privado forneça bens públicos” – com lucro. O governo deixa as novas tecnologias mais econômicas, e o setor privado, impulsionado por padrões cada vez mais rígidos, “faz com que elas se tornem onipresentes”.

Isto é capitalismo inteligente. E é a maneira mais segura de garantir o sucesso das duas gigantescas contas de despesas de Biden e desferir um golpe mortal nesse patético incêndio no lixo chamado Partido Republicano trumpista. Seria um presente tanto para os liberais quanto para os conservadores que têm princípios – e também para a Estátua da Liberdade./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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