(AP Photo/Patrick Semansky, File)
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Biden tenta reforçar alianças dos EUA e se contrapor à China com viagem à Europa

O presidente, na sua primeira viagem ao exterior, vai enfrentar desafios evidentes e dúvidas persistentes sobre a confiabilidade dos Estados Unidos e o custo que a Europa deverá pagar

Michael D. Shear e David E. Sanger/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 10h00
Atualizado 10 de junho de 2021 | 10h02

WASHINGTON — Não deveria ser tão difícil um líder americano visitar a Europa pela primeira vez depois do presidente Donald Trump.

Mas Joe Biden vai enfrentar seus próprios desafios quando viajar na quarta-feira, especialmente num momento em que os Estados Unidos confrontam uma Rússia indisciplinada e uma China em ascensão, e ao mesmo tempo tentando reagrupar e congregar uma aliança ocidental abalada à medida que emerge da pandemia do coronavírus.

O primeiro encontro de Biden será com o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, em uma tentativa de “reconstruir o relacionamento especial” entre o Reino Unido e os Estados Unidos, disse Biden.

Espera-se que eles enfatizem uma visão conjunta para uma recuperação global sustentada da pandemia e evoquem a poderosa história compartilhada das duas nações para enfatizar o ponto.

Espera-se que Biden e Johnson anunciem o que está sendo anunciado como uma renovação da Carta do Atlântico - a declaração de cooperação pós-guerra que o primeiro-ministro Winston Churchill e o presidente Franklin D. Roosevelt fizeram em 1941 durante a 2ª Guerra.

Ainda assim, as questões fundamentais que os dividem permanecem. Biden se opôs à iniciativa britânica de deixar a União Europeia, um impulso que Johnson ajudou a liderar. O presidente americano também está preocupado com a Irlanda do Norte, já que o acordo do Grexit reacendeu as tensões sectárias na região.

Biden, que terá na Europa uma série de reuniões de cúpula encorajado com um programa de vacinação bem-sucedido em seu país e a economia em recuperação, passará a próxima semana demonstrando que os Estados Unidos estão de volta e prontos para liderar novamente o Ocidente no que chama de um choque entre democracias e autocracias.

Estão previstas reuniões no Reino Unido com líderes do G-7, seguidas por visitas à OTAN e à União Europeia. No último dia, em Genebra, ele terá sua primeira reunião como presidente com Vladimir Putin, da Rússia.

A tarefa primordial de Biden é oferecer a serenidade diplomática que desapareceu dessas reuniões durante quatro anos nos quais Trump incendiou as relações com aliados próximos, ameaçou retirar o país da OTAN e acolheu Putin e outros autocratas, admirando sua força.

Mas a boa vontade que Biden expressa simplesmente por não ser Trump não disfarça dúvidas persistentes quanto à sua durabilidade, a confiabilidade americana e o custo que a Europa deverá pagar. 

Aos 78 anos de idade, Biden é o último suspiro de uma política externa internacionalista no velho estilo? A Europa arcará com o custo do que parece ser cada vez mais uma nova Guerra Fria com a Rússia? Será exigido que ela se envolva numa política de contenção da China? E Biden cumprirá os compromissos no tocante ao clima?

Essas perguntas surgirão no momento em que ele tratar dos desacordos no campo do comércio, as novas restrições sobre investimentos na China, e também as compras e a posição dos europeus no caso do gasoduto que liga diretamente a Rússia à Europa, desviando da Ucrânia.

Do começo ao fim, Biden enfrentará líderes europeus que hoje se mostram cautelosos com os Estados Unidos como jamais se viu desde 1945, se perguntam para onde isso vai levar.

“Eles têm observado a situação do Partido Republicano”, disse Barry Pavel, diretor do Scowcroft Center for Strategy and Security no Atlantic Council. “Viram o que ocorreu em seis de janeiro. Sabem que podemos ter outro presidente em 2024”.

Autoridades da Casa Branca afirmam que a diplomacia americana estável retornou para sempre, mas naturalmente não garantem isso depois de janeiro de 2025. Por seu lado, as autoridades europeias vêm acompanhando os debates políticos ferozes dentro dos Estados Unidos e observam que o controle de Trump do seu partido não está enfraquecendo.

Dias antes da partida de Biden para a Europa, os republicanos do Congresso rejeitaram a criação de uma comissão bipartidária para examinar a invasão no Capitólio

Os legisladores republicanos apoiaram as alegações falsas de Trump de que a eleição em 2020 foi roubada. Os democratas estão tropeçando em seus esforços para aprovar leis abrangentes e conter os ataques republicanos ao direito de voto no plano estadual.

Em meio a tudo isso, Trump continua sugerindo um retorno político dentro de quatro anos.

“Há uma inquietação com relação à política americana", afirmou Ian Lesser, vice-presidente do German Marshall Fund of United States. “Simplesmente, qual será o resultado das eleições de meio de mandato? Se o Trumpismo for mais durável que Trump, o que ocorrerá no futuro na política americana?

Se o futuro dos Estados Unidos constitui uma preocupação de longo prazo, como lidar com uma Rússia causadora de atritos é um assunto mais imediato. Nenhuma parte da viagem de Biden está mais carregada do que sua reunião um dia inteiro com Vladimir Putin.

Biden pediu esse encontro – o primeiro desde que Trump aceitou as negativas de Putin de interferência na eleição americana durante a cúpula em Helsinque, na Finlândia, há três anos, apesar dos alertas de ativistas de direitos humanos que só fortaleceram e encorajaram o líder russo.

Jake Sullivan, assessor de segurança nacional, observou que os presidentes americanos se reuniram com seus colegas soviéticos durante todo o período da Guerra Fria e com seus sucessores depois de ela acabar. Mas na segunda-feira ele afirmou que Biden advertirá Putin diretamente de que se não houver uma mudança de comportamento, “haverá respostas”.

Mas veteranos do embate entre Washington e Moscou dizem que provocar desordem é o superpoder de Putin.

“Putin não deseja necessariamente uma relação mais estável ou previsível”, disse Alexander Vershbow, que foi embaixador americano na Rússia durante o governo do ex-presidente George W. Bush. “O melhor que podemos esperar dessa reunião é que os dois líderes discordem em muitas coisas, mas que o diálogo continue”.

Segundo oficiais da Casa Branca, o presidente Biden não tem intenção de restabelecer uma relação com a Rússia.

Tendo chamado Putin de “assassino” este ano, Biden foi claro quanto ao seu adversário: ele considera Putin um chefão da máfia, ordenando ataques com seu arsenal de agentes nervosos, mais do que um líder de uma nação.

Mas Biden está determinado a colocar o que Sullivan chama de “barreiras de proteção” no relacionamento, embora acompanhadas de alguma cooperação, começando com o futuro dos seus arsenais nucleares.

Mas existe uma percepção na Europa de que, embora Putin valorize seu arsenal em expansão, a capacidade nuclear da Rússia é um remanescente estratégico de uma era de conflito entre superpotências. 

No que Putin recentemente chamou de nova Guerra Fria com os Estados Unidos, as armas de escolha agora são cibernéticas, ransomware usado por gangues operando a partir do território russo e a capacidade de perturbar seus vizinhos como a Ucrânia colocando tropas em massa na fronteira.  

Biden defenderá a OTAN e o artigo V da sua Carta – que estabelece que cada membro da aliança deve considerar um ataque armado contra um membro um ataque contra todos. 

Mas está menos claro o que significa um ataque armado na era moderna: um ataque cibernético como a investida de hackers que se aproveitaram da SolarWinds e se infiltraram em redes corporativas e do governo? O movimento de mísseis de alcance intermediário e tropas russas na fronteira da Ucrânia, que não é membro da OTAN?

Segundo os parceiros de Biden, a chave é ele deixar claro que já conhecia as bravatas de Putin antes e que isso não o perturba.

“Joe Biden não é Donald Trump”, disse Thomas E. Donilon, que atuou como assessor da segurança nacional no governo Obama e cuja mulher e irmão são também assessores de Biden. “Você não vai ver uma relutância inexplicável de um presidente americano para criticar um presidente russo que governa um país que é ativamente hostil com relação aos Estados Unidos em muitas áreas. Isso você não verá.

Quando Biden define a atual luta como “uma batalha entre a finalidade das democracias no século 21 e as autocracias”, ele parece estar mais preocupado com a atração da China como parceiro comercial e fonte de tecnologia do que com os distúrbios provocados pela Rússia. E embora os europeus não considerem a China uma ameaça crescente nos campos tecnológico, ideológico e militar, como Washington acredita, esse é um argumento que Biden começa a fazer valer.

Ele conseguirá convencer os céticos aprovando a meta de combate à mudança climática, mesmo que haja dúvidas quanto a se está fazendo o bastante a respeito.

Há quatro anos, na primeira participação de Trump na cúpula do G-7, seis líderes mundiais reafirmaram seu comprometimento com o acordo firmado em Paris, ao passo que os Estados Unidos declararam “não estar em posição de se unir ao consenso”.

Biden está revertendo essa posição e prometeu reduzir em 50% a 52% as emissões, aos níveis de 2005, no final da década, e num artigo de opinião que escreveu para o The Washington Post antes da reunião de cúpula afirmou que, com os Estados Unidos de volta à mesa, os países “têm uma oportunidade de realizar progressos ambiciosos” .

Mas os líderes mundiais continuam cautelosos no tocante à disposição dos Estados Unidos de aprovar leis sérias de combate às suas emissões e cumprir as promessas financeiras para os países mais pobres.

“Eles têm mostrado o enfoque certo, mas não necessariamente na magnitude que poderiam”, disse Graça Machel, ex-ministra da Educação e Cultura de Moçambique.

A chave para se alcançar os ambiciosos objetivos na questão climática é a China, cujas emissões de gases com efeito estufa são maiores do que Estados Unidos, Europa e Japão juntos. 

Peter Betts, que foi negociador nas conversações sobre o clima, representando o Reino Unido e União Europeia, disse que, neste caso, o teste para Biden é conseguir liderar os países do G-7 numa campanha de pressão que seja bem-sucedida. “A China se preocupa com o que o mundo em desenvolvimento pensa”, afirmou.

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