''''Big Li'''', o major que é rei na favela

Tratamento a oficial brasileiro reflete trabalho assistencial do Exército

O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

A patrulha brasileira sai do antigo reduto de criminosos, o Forte Nacional, na favela de Bel-Air, para mais um trabalho de confraternização com os haitianos pobres e de intimidação dos desordeiros.O major Lídio está no jipão da Força de Paz da ONU, com mais cinco soldados, vestindo pesado uniforme e levando muito equipamento de proteção. O repórter é dispensado do colete à prova de balas porque a situação está sob controle, mas mesmo usando apenas bermudas e camiseta ele já está quase nocauteado pelo calor.O carro avança devagar entre as vielas do antigo Forte Dimanche, lugar onde Papa Doc enterrava vivo seus adversários e hoje é uma favela degradante. Durante a passagem, a patrulha é bem recebida. É divertido ouvir os soldados brasileiros dizendo ''''bon jour'''' para os haitianos. Eles são muito populares e, pela primeira vez, o motivo não é só o futebol.O trabalho feito pelo pessoal do major é realmente significativo. Ele atende menores de até 16 anos. Na área médica há uma clínica geral e odontológica. Na área educacional, ensinam informática, formação de agentes de saúde, português, inglês e espanhol. Além disso, tem capoeira, dança, corte de cabelo, gincanas, pinturas, artesanato, futebol e atletismo.No total, são 170 crianças que participam de jogos, aprendem uma profissão ou simplesmente saem por algumas horas do convívio sufocante das favelas.ÍDOLOO próprio major é uma figura única. Tornou-se famoso. Por ser muito grande e forte, é chamado de Big Li pelos haitianos. É um ídolo das crianças. De longe, elas logo o identificam e vem correndo aos gritos de ''''Big Li! Big Li! Big Li!'''' Agarram-se ao seu corpo, uma verdadeira adoração. Gritam de alegria. Em nenhum momento olharam para a câmera. Autenticidade total.Lágrimas correm pela face do major. Ele conhece dezenas das crianças, chamando-as pelos nomes. Enquanto caminha, ele diz que está no próximo contingente que volta ao Brasil. Não será fácil para o comando brasileiro ficar sem ele.Numa pequena escola improvisada, os militares pedem ao repórter para que faça algumas perguntas aos meninos. Após um pequeno discurso, as crianças, atentas e educadas, e o professor, humilde, agradecem a visita com uma aparente sinceridade, numa cena muito comovente.Na saída, por estar quente demais, o major fica com medo de que o repórter, sem boné, pegue uma insolação.Para sobreviver bem em Porto Príncipe a melhor coisa a fazer e permanecer sempre em algum lugar que tenha ar-condicionado. Depois, precisa-se de um bom veículos 4x4 para enfrentar os enormes buracos das ruas.O problema é que as entidades internacionais que trabalham para tirar o país do caos também sabem disso. E a maior de todas, a ONU, deve ter centenas deles, o que torna o trânsito insuportável.Na capital, falta luz regularmente. A água vem em caminhões-pipa e tem um cheiro podre. Muita coisa é estranha: os quadros que os haitianos penduram nas paredes ficam absurdamente tortos. Seria vodu ou alguma coisa intencional? Se eles vivem em estado de penúria, como é que conseguem estar sempre com a roupa limpinha? Por que no calor de derreter asfalto, nunca se vê um haitiano sem camisa ou de bermuda?Na chuva, fortíssima, olha-se pela janela do carro e percebe-se espantado que eles vão andando devagar sem guarda-chuva, como se nada estivesse acontecendo, parecendo zumbis. O que quer dizer isso? Você vê mulheres lavando roupa na água do esgoto. Para turistas, melhor mesmo é ir para a praia, na vizinha República Dominicana.

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