Heo Ran/Pool Photo via AP
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Bigode de embaixador americano em Seul irrita sul-coreanos

Harry Harris defendeu o uso do seu bigode e criticou a ideia de que seria uma homenagem ao brutal regime colonial do Japão sobre a Coreia do Sul

Choe Sang-Hun / The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2020 | 08h00

SEUL - Em um momento de crescente inquietação com a aliança entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul, uma questão diplomática cabeluda abalou a Ásia nesta semana: o bigode do embaixador americano no país.

Na quinta-feira, 16, o enviado Harry Harris Jr. - um almirante aposentado da Marinha que nasceu no Japão e tem mãe japonesa - defendeu o uso do seu bigode e criticou a ideia de que seria uma homenagem ao brutal regime colonial do Japão sobre a Coreia do Sul.

Os sul-coreanos mantêm uma animosidade de longa data em relação ao Japão por causa desse período, e muitos lembram que durante o domínio colonial todos os oito governadores-gerais japoneses usavam bigodes. O uso de bigodes era comum entre os oficiais e militares japoneses, por ser um símbolo de virilidade.  

O domínio do Japão de 1910 a 1945 sobre a Península da Coreia é uma fonte contínua de ressentimento na Coreia do Sul, cujas relações com o vizinho azedaram no ano passado em meio a disputas marítimas, e o bigode de Harris se tornou mais um tema nesta disputa.

Em redes sociais, sul-coreanos lançaram suas críticas à aparição de Harris logo depois que ele foi nomeado, em julho de 2018.

“A mãe de Harris é japonesa. Parece que só isso é suficiente para não gostarmos dele”, escreveu um blogueiro no mês passado. "Qual lado ele escolherá se for solicitado a escolher entre a Coreia do Sul e o Japão?"

Harris, de 63 anos, se defendeu na semana passada, e disse a repórteres em Seul que estava sendo criticado "por causa de seu passado".

"Meu bigode, por algum motivo, se tornou um ponto de fascínio aqui", disse ele. "Fui criticado na mídia local, especialmente nas mídias sociais, por causa de minha origem étnica, porque sou nipo-americano."

Harris disse que se manteve barbeado por 40 anos de sua carreira naval, mas decidiu cultivar um bigode para marcar o início de sua carreira diplomática.

"Eu queria fazer uma pausa entre minha vida como oficial militar e minha nova vida como diplomata", disse ele no mês passado, segundo o Korea Times. "Tentei ficar mais alto, mas não posso ficar mais alto, tentei ficar mais jovem, mas não consegui ficar mais jovem. Só consegui deixar crescer um bigode, então fiz isso.”

Quando sua nomeação foi anunciada, muitos sul-coreanos consideraram uma agressão ao seu orgulho nacional o fato de o presidente Trump ter escolhido um nipo-americano como o principal enviado dos Estados Unidos ao seu país.

Harris irritou alguns sul-coreanos com seu apoio às demandas de Trump de que o país pague US$ 5 bilhões pelo custo de hospedagem de 28.500 soldados dos EUA no país - mais de cinco vezes o valor que Seul pagou no ano passado.

Desde que assumiu o cargo de embaixador, Harris pressionou incansavelmente pela demanda do governo Trump sobre as tropas americanas em solo coreano. 

Ele também canalizou a pressão de Washington sobre a Coreia do Sul para retirar sua decisão de abandonar um acordo de compartilhamento de inteligência militar com o Japão, que as autoridades americanas consideraram importante na proteção contra a China e a Coreia do Norte.

Na quinta-feira, Harris sugeriu que Washington fosse consultada sobre a Coreia do Sul realizar novos intercâmbios com a Coreia do Norte, para garantir que nenhuma sanção seja violada no processo.

Tais comentários ajudaram a dar a Harris a imagem de um enviado americano autoritário entre muitos sul-coreanos. Questionado na sexta-feira sobre as declarações do embaixador nas trocas inter-coreanas, um porta-voz do governo, Lee Sang-min, disse que a política da Coreia do Sul em relação ao Norte era "uma questão de soberania nacional". 

Membros seniores do partido acusaram Harris de "intrometer-se nos assuntos domésticos"e até de "agindo como um governador geral".

Harris apontou que ninguém havia feito críticas semelhantes aos líderes da independência coreanos que também usavam bigode. Ele disse que, embora entenda o contexto histórico das tensões atuais entre o Japão e a Coreia do Sul, não iria menosprezar sua etnia em resposta a comentários racistas.

"Eu sou quem eu sou", disse ele. "Tudo o que posso dizer é que todas as decisões que tomo se baseiam no fato de eu ser o embaixador americano na Coreia, não o embaixador nipo-americano na Coreia."

E o bigode, ao que parece, chegou para ficar. Perguntado se ele pretendia raspar, Harris respondeu: "Você teria de me convencer de que, de alguma forma, o bigode é visto de uma maneira que prejudica nosso relacionamento". 

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