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Bin Laden e o brasileiro

Natural de Jucás, no Ceará, Francisco Helder Braga Fernandes sabe o que é ralar. Garoto, abandonou aquele canto do semiárido para tentar a sorte em São Paulo. Reinventou-se comerciante e há 20 anos toca um bar no Vale do Anhangabaú, centrão da cidade, onde a jornada, de domingo a domingo, lhe custou dores lombares e tingiu de branco a indomada barba preta.

Mac Margolis,

27 de abril de 2014 | 02h02

No entanto, com um empurrão do destino e um faro para o marketing "made in Brazil", o retirante, hoje com 54 anos, achou seu jeito. A guinada veio em setembro de 2001, nos destroços das Torres Gêmeas. A fumaça ainda velava a cidade de Nova York quando o barbudo do Vale do Anhangabaú rebatizou o seu boteco. O Barbas virou Bar do Bin Laden.

Por aclamação popular, pode-se dizer. "Hoje, ninguém me chama de Francisco. Sou o Bin Laden. Ou o Osama. Ou somente Bin", garante. "Dizem que sou a cara dele."

O brasileiro tem o dom de rir da desgraça. É essa a arte do Carnaval mais envolvente do planeta e o combustível para tantos chargistas brilhantes. É também um dos motivos para que muitos estrangeiros abracem o Brasil como sua pátria adotiva, este repórter entre eles.

Fica para os entendedores da cultura a explicação de como o mentor de uma manhã de terror, que de uma tacada obliterou 2.752 vidas, assombrou um país e arrastou o restante do mundo a tiracolo, tornou-se instantes depois em alegoria para o "happy hour" nacional.

O que fazer quando a piada atropela o bom senso e deleta a memória coletiva? Por trás do balcão do Bin, há um espírito de porco, turbinado por um niilismo da esquerda colegial e regado pela amnésia histórica.

Nos dias seguintes ao 11 de setembro de 2001, assisti a uma manifestação pequena na Cinelândia, no centro do Rio. Lá, duas jovens universitárias brincavam de Torres Gêmeas, cada uma portando um arranha-céu na cabeça. Não julgavam que suas fantasias enalteciam o feito da Al-Qaeda, apenas que anunciavam o ruir do império.

Com o tempo, a fantasia se descolou do feito. Questionado se receava afastar clientes com seu apelo provocativo, Fernandes não titubeou. "Claro que não, a casa vive cheia", garante.

O sucesso não é só dele. Uma breve busca pelo Google identificou no mínimo uma dezena de outros empreendimentos pelo Brasil que se inspiraram no ex-chefe da Al-Qaeda. Entre eles, estão um restaurante (Bin Laden e Família), uma loja de autopeças (Bin Laden Bombas) e um badalado botequim em Niterói, a Caverna do Bin Laden, que se promove como "o lugar onde o Taleban se reúne".

No dia em que Bin Laden foi assassinado, universitários em Juiz de Fora baixaram no seu mais novo ponto de encontro preferido, o Bar do Bin, alguns portando camisetas do líder terrorista.

O mais espantoso é que nenhuma desses estabelecimentos nem sua clientela vislumbram uma gafe nem ofensa em suas atitudes. Aí jaz o perigo. A piada brasileira brota virgem, blindada por soberba. No balcão do bar, Bin Laden não é um algoz que tocou o terror, senão um pierrô com barba de profeta. Ou mesmo um mártir, o David frente a Golias, o gringo.

Assim é gargalhada certa vestir o Bin Laden com farda camuflada e bomba falsa na mão, no elenco de um programa de auditório, como fez uma emissora de TV.

Não é essa encenação que faz a cabeça de Fernandes, mas ele se curva ao paladar popular, grato pela atenção e pela freguesia. Virou refém da figura que encarna atrás do bar. É um happy hour à brasileira, em que pimenta no olho do império é chope.

* É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO PORTAL DE NOTÍCIAS VOCATIV

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