Bin Laden e o Paquistão

Incompetência e corrupção explicam como o terrorista conseguiu se refugiar no país

SÃO JORNALISTAS, SABA IMTIAZ & , BEN ARNOLDY, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, SÃO JORNALISTAS, SABA IMTIAZ & , BEN ARNOLDY, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h02

Nos últimos dois anos, o Paquistão tem lutado para explicar como Osama bin Laden conseguiu se refugiar em uma de suas cidades onde existia um quartel militar. Segundo um relatório de 336 páginas, a resposta pode estar na total incompetência e na corrupção existentes no baixo escalão do governo e do Exército do país.

Nos nove anos em que Bin Laden viveu no Paquistão, o homem cuja cabeça valia US$ 25 milhões poderia ter sido capturado por qualquer funcionário do governo. Entre eles, o guarda de trânsito que parou Bin Laden e seu guarda-costas kuwaitiano por excesso de velocidade e os liberou depois de o "caso ser rapidamente solucionado".

Pagar propina ou convencer um guarda a não lhe aplicar uma multa é tradição por aqui. De acordo com dados divulgados na terça-feira pela organização Transparência Internacional, 65% dos paquistaneses entrevistados afirmam que eles ou alguém da sua família pagaram propina para a polícia no ano passado.

A comissão que divulgou o relatório não concluiu que foi a corrupção e a incompetência - e não a conivência oficial - que protegeram Bin Laden. Mesmo assim, os autores expressam consternação com um governo medíocre que serviu de abrigo para o terrorista, do mesmo modo que os inquéritos nos EUA sobre o 11 de Setembro se preocuparam com as falhas de agências do governo que não trabalharam em conjunto.

Provas da corrupção ou de simples negligência no cumprimento de um dever se acumulam em páginas e páginas do relatório, incluindo autoridades civis e militares que não assinalaram as incontáveis violações na compra da propriedade por Bin Laden usando documentos falsos, violações de leis que regem a construção e a falta de pagamentos de impostos e de inspeções do imóvel.

A polícia da cidade de Abbottabad também não teria investigado um tiroteio na propriedade, ocorrido em 2010, nem o estilo de vida isolado dos moradores. As agências de inteligência não deram muita atenção a Abbottabad, apesar de Umar Patek, procurado pela participação nos atentados a bomba em Bali, em 2002, ter sido preso na região.

Todas essas chances perdidas são explicadas pelos indivíduos responsáveis como corrupção habitual, negligência normal, problemas de capacidade e falta de fiscalização por parte dos seus departamentos. A comissão recebeu tais alegações com ceticismo.

"Qualquer uma dessas falhas, em circunstâncias normais, seria perfeitamente compreensível. Mas, se considerarmos a história inteira, isso nos leva a alguma coisa que não é tão facilmente explicada. Assim, nenhuma delas equivale a uma prova ou a uma forte possibilidade de conduta dolosa, mas, consideradas em conjunto, sugerem a possibilidade de algo mais sinistro", escrevem os autores do relatório.

Talat Aslam, editor sênior do The News de Karachi, disse ao Christian Science Monitor que o relatório retrata um país "em caos total". "Ninguém é competente. Militares, civis ou a Receita. No geral, a incompetência é grande", disse. "O relatório deixa tudo aberto a interpretação. As pessoas podem ter sido cúmplices e é muito difícil dizer, pois existem inúmeros pequenos detalhes dispersos."

Aslam afirma que existe um ambiente propício para uma repetição do episódio Bin Laden. "As pessoas não sabem quem são seus vizinhos. Ninguém fica alarmado com relação a coisas misteriosas, onde a correspondência é deixada ou porque os documentos não foram recebidos. Não se trata só de incompetência. Todos acham que aquilo não é da sua conta."

Certamente, Bin Laden tomou precauções para se proteger contra os olhos curiosos na vizinhança. De acordo com o relatório, o homem "procurado morto ou vivo" pelo texano George W. Bush usava um chapéu de cowboy para evitar ser visto por aviões de vigilância.

Esconderijo. Os membros da sua família viviam uma vida enclausurada em uma casa no condomínio, sem contato com vizinhos e mesmo com os empregados que moravam no complexo. Certa vez, a filha de um dos guardas do condomínio reconheceu na TV Al-Jazeera a imagem do homem que, às vezes, via caminhando em torno do complexo e era conhecido como "Tio Pobre", não como Osama bin Laden. A família foi proibida de ver televisão e Bin Laden não mais falou com aquelas pessoas. Uma das poucas distrações por trás dos muros da casa era a jardinagem. Aparentemente, Bin Laden premiava os filhos que se saíam melhor no trabalho.

Os autores do relatório censuram o Exército e os líderes civis por não terem detectado Bin Laden e impedido a invasão surpresa do complexo, mas também apontam para o que chamam de "síndrome de implosão da governança", que permitiu que o ataque ocorresse.

Qualificando a incompetência do governo de "espantosa, se não inacreditável", o relatório alerta que "a incompetência e a negligência são as mais fortes acusações que podem ser feitas contra todas as instituições, especialmente as responsáveis pela segurança nacional.

Muitas das pessoas entrevistadas no relatório entraram em um impressionante jogo de acusações - da polícia, que responsabiliza a falta de recursos, ao comandante da Força Aérea, que diz que os paquistaneses são "mal informados" e "emotivos", até o ex-chefe da inteligência, Ahmad Shuja Pasha, que acusa o governo e a polícia.

Pasha foi mais longe e a comissão o cita extensivamente no relatório, já que ele se empenhou em resumir o mal-estar nacional. "Somos um Estado muito fraco e um Estado muito apavorado. Aceitamos tudo e não reagimos. E tudo isso acaba se reduzindo a uma governança medíocre e corrupta. Existe uma apatia em todos os níveis, em todos os setores da vida nacional. A sociedade paquistanesa está profundamente impregnada", disse.

"A mídia está praticamente comprada e todos da nossa elite podem ser comprados. Um oficial da inteligência dos Estados Unidos teve a coragem de dizer: 'Vocês são muito baratos. Podemos comprá-los com um visto, com uma visita aos EUA ou até com um jantar. Podemos comprar qualquer um'. E, consequentemente, somos um Estado em processo de falência, se já não somos um Estado falido", afirmou o ex-chefe da inteligência paquistanesa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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