Banaras Khan/AFP
Banaras Khan/AFP

‘Bin Laden estaria feliz, há alguém da Al-Qaeda no poder’, diz jornalista

Especialista na região descarta uma possível moderação no Taleban e prevê uma guerra civil em grande escala

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 10 de outubro de 2021 | 05h00

“É uma besteira. Uma completa besteira”. É assim que Peter Bergen resume o discurso de moderação adotado pelo Taleban após tomar Cabul e reassumir o poder. Bergen foi o primeiro jornalista americano a entrevistar Osama bin Laden, em 1997, nas montanhas do Afeganistão. Também foi o primeiro a ter acesso aos 470.000 arquivos recuperados em Abbottabad, no Paquistão, onde o líder da Al-Qaeda foi morto, incluídos os descritos pela CIA como o “diário de Bin Laden”. 

Com 30 anos de experiência em coberturas sobre o Oriente Médio e nove livros sobre terrorismo, o último deles The Rise and Fall of Osama bin Laden (Ascensão e Queda de Osama bin Laden), recém-lançado nos EUA, Bergen diz que bin Laden estaria “over the moon” (exultante, em uma tradução pobre) com a vitória do Taleban. A seguir os principais trechos da entrevista ao Estado.

O que representa a retomada do Afeganistão pelo Taleban após 20 anos da presença dos EUA no país?

Foi uma derrota da política externa americana e da política intervencionista. O Afeganistão é uma colcha de retalhos multiétnica e ingovernável há séculos. O erro americano durante 20 anos foi acreditar que poderia aplicar um conceito ocidental de nação em um país organizado há séculos em tribos e clãs. Mas, ao mesmo tempo, poderia ter dado certo. Pense na Coreia do Sul. Quando a Guerra da Coreia acabou, havia mais de 25.000 soldados americanos lá. A Coreia do Sul não é o Afeganistão, mas a Coreia do Sul era um dos países mais pobres no final da guerra em 1953. E agora é um dos mais ricos. O Afeganistão não é a Coreia do Sul. Mas sob o guarda-chuva da segurança nacional americana, vários países se saíram muito bem, seja a Coreia do Sul, a Alemanha ou o Japão.

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Muitas coisas que os EUA fizeram no Afeganistão deram certo. Hoje as meninas podem ir para a escola. As mulheres podem ter empregos. Há uma mídia independente saudável, com literalmente centenas de estações de TV e rádio no Afeganistão. As taxas de mortalidade infantil despencaram. Quer dizer, muitas coisas deram certo. E 20 anos não é muito tempo para que uma mudança real aconteça. Há toda uma nova geração de afegãos – é um dos países mais jovens do mundo, 70% da população tem menos de 25 anos. Não há nostalgia entre esse grupo, realmente, de voltar ao Taleban. Minha preocupação é que haverá uma guerra civil muito brutal que fará com que a guerra anterior que está ocorrendo no Afeganistão desde 11 de setembro pareça uma partida de críquete.

Por que o senhor teme uma guerra civil?

Bem, o que estamos vendo é um novo capítulo da guerra civil que assola o Afeganistão desde antes da invasão soviética e do início da guerra civil em 1978. Obviamente, o Taleban agora conquistou o que parece ser uma vitória total. O que me preocupa é o fato de o novo gabinete do Taleban ser muito parecido com o antigo Taleban. Houve muita especulação sobre um novo governo Taleban ser inclusivo, modernizado, um Taleban novo e melhorado. Não vejo nenhuma evidência disso. 

O senhor não acredita no discurso de moderação do Taleban?

Claro que não, é uma besteira total. Conversa para boi dormir, para resumir o que penso. Vamos falar de maneira clara: um grupo que sufoca minorias, que não acredita que homens e mulheres possam compartilhar o mesmo espaço, que acredita que mulheres e minorias são inferiores, que acredita que a melhor maneira de combater crimes é decepando a mão e jogando ácido no rosto das pessoas, jamais poderá adotar uma prática de moderação. Eles têm uma visão deturpada e radical do islamismo, e isso não mudou nos últimos 20 anos. 

Bin Laden estaria feliz com a derrocada americana no Afeganistão?

Ele estaria radiante, absolutamente exultante. Ele veria o anúncio do novo governo Taleban como uma vitória completa. Veja a presença de Sirajuddin Haqqani como ministro do Interior. Ele faz parte da rede Haqqani, vinculada à Al-Qaeda, é irmão e sobrinho de Khalil Haqqani, que integra as listas de terroristas dos EUA e das Nações Unidas. Os EUA oferecem uma recompensa de US$ 5 milhões por informações que levem a sua captura. E Khalil estava discursando exultante em uma mesquita em Cabul e foi incumbido pelo Taleban de cuidar da segurança da capital. Sirajuddin Haqqani foi o arquiteto dessa vitória militar muito rápida, e por isso foi nomeado ministro do Interior. É como se você colocasse o chefe da máfia para dirigir o Departamento de Segurança Interna e o FBI ao mesmo tempo. Então estamos na situação incomum em que um membro da Al-Qaeda é, pela primeira vez na história, o principal membro do Gabinete em um Estado-nação, um resultado muito imprevisível e muito triste no 20º aniversário de 11 de Setembro. 

E há outros grupos atuando no Afeganistão, não?

Sim. O foco é mais amplo do que simplesmente a Al-Qaeda. Os militares dos Estados Unidos disseram muitas vezes no passado que há 20 organizações terroristas estrangeiras presentes no Afeganistão. Há uma espécie de sopa de letrinhas terrorista: Lashkar-e-Taiba, que é um grupo paquistanês focado em ataques à Índia, o Movimento Islâmico do Usbequistão, que tem como foco o Usbequistão, e um monte de outros grupos. Todos ficarão energizados com isso. Eles prosperaram quando o Taleban estava no poder da última vez. E acho que eles vão prosperar novamente com o Taleban no poder agora.

O senhor teve acesso aos documentos de Bin Laden em sua casa de Abottabbad, onde ele foi morto. Como Bin Laden via o estado da jihad global?

James Clapper, que foi diretor de inteligência dos EUA, disse que as coisas que Bin Laden estava escrevendo nos seus dias finais lembraram as ilusões que Hitler tinha antes da queda de Berlim. Ele acreditava que os jihadistas estavam se erguendo para defender o mundo muçulmano, que a Al-Qaeda iria matar Barack Obama e David Petraeus. Era completamente alucinado. Mas por outro lado, ele tentava fazer um microgerenciamento da Al-Qaeda, ele enviava relatórios enormes para alguns braços do grupo na África. Com o Al-Shabab, por exemplo, ele avisou ao grupo para não se autoafirmar como ligado a Al-Qaeda, porque isso iria atrapalhar a capacidade de levantar fundos, e eles fizeram isso. Só se declararam como ligados a Al-Qaeda depois que Bin Laden morreu. Ele acreditava que jihad global estava crescendo. Mas imagine manter um negócio no Brasil no século 19. Era a mesma coisa com Bin Laden. Suas mensagens se perdiam, ele não tinha comunicação direta com vários líderes jihadistas, então era um comando frágil. 

Que tipo de novos documentos o senhor encontrou ao ter acesso aos arquivos de Abbottabad?

Bem, no final de 2017 o governo Trump divulgou os 470.000 arquivos que foram recuperados em Abbottabad, no Paquistão, incluídos aqueles descritos pela CIA como o “diário de Bin Laden”. Acabou sendo algo ligeiramente diferente. É tudo escrito à mão em árabe. Era um tipo de diário da família que Bin Laden manteve essencialmente nas últimas semanas de vida. E é uma espécie de janela para o que ele estava pensando no momento e também o que suas duas esposas mais velhas estavam pensando e seus filhos adultos, porque eles basicamente estavam perplexos sobre A Primavera Árabe, que Bin Laden entendeu como o evento mais importante no Oriente Médio em séculos. Mas ele também estava perplexo sobre o que fazer com esses grandes eventos, porque ele estava ciente do fato de que os manifestantes não estavam exigindo uma teocracia islâmica. Eles exigiam direitos humanos universais, liberdade de expressão e o fim de governos autoritários e corruptos. Ele foi morto em maio de 2011, e eu acho que ele nunca foi capaz entender a Primavera Árabe.

 

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