Bin Laden fez notícia, mas não história

Guerra ao terror foi a responsável por amplificar as reivindicações do líder da Al-Qaeda e torná-lo histórico

David Miliband, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2011 | 00h00

Dez anos após o atentado de 11 de Setembro, a história presente está sendo escrita. No jornal francês Le Monde, um suplemento comemorativo, bastante inteligente, qualificou o período de "A Década de Bin Laden". Mas isto está correto?

Nos dez anos desde o 11 de Setembro, o Produto Interno Bruto (PIB) combinado dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) aumentou de 8,4% para 18,3%. O capitalismo anglo-saxônico desmoronou.

Além disso, foi a década em que o acesso à Internet se tornou global - passou de 360 milhões de pessoas em 2000 para mais de 2 bilhões hoje.

Foi o período em que a guerra do Iraque dividiu o mundo, mas também quando um movimento de contestação civil, exigindo liberdade, finalmente, chegou ao Oriente Médio. Milhões de muçulmanos foram às ruas em busca de inspiração para uma governança democrática e não da jihad global.

Nada disso foi obra de Osama bin Laden. Com certeza, a Al-Qaeda foi (e é) um novo e grave tipo de ameaça. Nascida há 30 anos, a partir de tumultos no Oriente Médio, a organização terrorista tem uma visão de mundo, não apenas uma visão local. Não deseja mudanças, mas revolução.

De fato, a noção de "guerra contra o terror" em resposta aos atentados foi equivocada, em parte porque permitiu que as pessoas pensassem que a Al-Qaeda seria simplesmente mais um grupo terrorista como o Exército Republicano Irlandês (IRA), o grupo terrorista alemão Fração do Exército Vermelho (RAF), também conhecido como Baader-Meinhof ou as Brigadas Vermelhas italianas. A Aç-Qaeda não foi - e não é. Mas também amplificou a reivindicação de Bin Laden para tornar-se um personagem histórico mundial.

A guerra liderada pelos Estados Unidos - com o resto do Ocidente fornecendo ajuda discreta -, debilitou a influência e capacidade da Al-Qaeda. Mas também foi um desvio, imposto, da tarefa diplomática vital de criar novas regras e instituições para um mundo independente.

Não vejo outra alternativa à nossa determinação, em 2001, de tirar o Afeganistão do controle do Taleban. A tragédia é que, uma vez a batalha ganha, a paz foi perdida. A Conferência de Bonn, de dezembro de 2001, convocada com a finalidade de esboçar uma nova Constituição afegã, excluiu os vencidos.

Enquanto os EUA criaram sua própria democracia de baixo para cima, com base em princípios federalistas, o Afeganistão acabou se tornando um dos Estados mais centralizados do mundo, apesar de ser uma das sociedades mais descentralizadas que se conhece.

Tragicamente, os sinais enviados pelo antigo Taleban, da sua base afegã de Kandahar, foram mal interpretadas. O Taleban, que exigia ser deixado em paz em troca de se manter fora da política, foi empurrado para o Paquistão, onde se recompôs. A nova ameaça à segurança exigiu uma resposta militar, embora a luta devesse ser predominantemente política e diplomática.

A melhor maneira de compreender a atual situação vem de uma analogia feita pela ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright. A política externa durante a Guerra Fria, diz ela, foi como navegar pelo canal do Panamá; depois da queda do Muro de Berlim, foi como navegar no Canal da Mancha - água por todos os lados, mas a terra também era visível. Hoje, a política externa é como estar num mar aberto, sem nenhuma regra além das 200 milhas marítimas, e nenhuma terra à vista.

Se isso for correto, temos pela frente tarefas urgentes. A primeira é reafirmar a posição da diplomacia na política internacional. O diplomata americano Richard Holbrooke, que morreu no fim do ano passado, certa vez disse que os EUA desde o 11 de Setembro sofreu uma "militarização da diplomacia". "Precisamos do oposto. Num mundo de ameaças assimétricas, devemos seguir o manual de campo do Departamento de Defesa: em termos de contrainsurgência, a política tem prioridade".

Em segundo lugar, precisamos repensar nossas ideias de equilíbrio de poder, porque elas não mais dizem respeito a Estados apenas, mas também povos. Como a primavera árabe mostrou, a onipresença da informação significa que futuras coalizões precisam ser criadas ao nível micro, nos vilarejos e vales de lugares como Afeganistão e Paquistão, e não só a nível macro, com a administração do sistema global.

Em terceiro lugar, estamos entrando numa era de escassez de recursos.

Exceto a bomba atômica, esse é o mais perigoso problema de segurança em dois séculos. Se você acha que o jogo de culpa na Europa sobre a Grécia é ruim, simplesmente espere por acusações sobre o que está provocando a seca e a inflação dos preços dos alimentos.

Não são somente de problemas "ambientais, mas de justiça e responsabilidade. E para resolve-los são necessárias instituições regionais e internacionais mais fortes.

Finalmente, o Ocidente precisa redescobrir as alegrias do multilateralismo e da soberania compartilhada. Na Europa, isso é difícil agora, já que ninguém quer pagar as contas da Grécia.

O multilateralismo é uma apólice de seguro global contra o abuso de poder de qualquer Estado. O problema não está no fato de a União Europeia e outras instituições multilaterais serem fortes demais; mas de serem fracas demais. Na realidade, as instituições regionais do mundo árabe, da África, da América Latina e do Leste da Ásia ainda se encontram na infância - e precisam evoluir rapidamente.

Nos últimos séculos, houve três sistemas de ordem internacional: a dominação econômica e militar, o equilíbrio de poder e a soberania compartilhada. Elas podem coexistir, como mais ou menos ocorreu em várias partes do mundo nos anos que se seguiram a 1945. Mas hoje, os EUA estão numa posição de defesa, tanto em termos econômicos como militares.

Novas potências, como a China e a Índia, estão em ascensão. Não ascenderam ainda, misturando a autoafirmação com ênfase em seu status de constante "desenvolvimento". A Europa, onde foi adotada a soberania compartilhada, luta para resolver seus próprios problemas, sem se preocupar em se tornar um ator global.

Portanto, ninguém é responsável. Isso é ainda mais problemático num momento em que os países e os povos do mundo estão mais interligados do que nunca, porque ideias, informações, finanças, migrantes e problemas se movimentam cada vez mais livremente através das fronteiras.

Um século atrás, o Prêmio Nobel da Paz, Norman Angell, afirmou em A Grande Ilusão que a segurança econômica permite a expansão militar e vice-versa. Na realidade, nenhuma das duas pode ser alcançada sem uma visão política. É a lição mais importante que podemos extrair da década que se seguiu aos atentados de 11 de Setembro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-SECRETÁRIO DE RELAÇÕES EXTERIORES (2007-2010) E DEPUTADO DO PARTIDO TRABALHISTA NO PARLAMENTO BRITÂNICO

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.