Bin Laden, o hábil manipulador do irracional

O Afeganistão certamente não acabou e temem-se voltas furiosas de chamas naquele país ou em países muçulmanos vizinhos ou longínquos. Mas já é possível constatar que a primeira fase do drama do dia 11 de setembro está prestes a acabar. E, na falta de um balanço, algumas observações podem ser sugeridas.A primeira observação diz respeito a George W. Bush. Deus sabe quanto a Europa e, particularmente, a França, do alto de seus dois mil anos de cultura, do alto de Goethe, de Racine, de Dante, de Platão e de Descartes, riu desse texano inculto, que sempre usa as palavras com o significado de outras.E hoje podemos avançar essa proposição revolucionária: Bush é menos besta do que parece. Podemos ir mais longe? Podemos compará-lo a Harry Truman, o rude vendedor de camisas que se tornou um dos grandes presidentes americanos? Sem chegar até aí, somos obrigados a reconhecer que sua reação após o 11 de setembro foi muito hábil para evitar uma catástrofe radical no planeta: o racha do mundo em dois campos, com os muçulmanos de um lado, e, do outro, os demais.Nenhum dos países muçulmanos voltou-se efetivamente contra a "coalizão". Mesmo o Irã, que há vinte anos era a loucura do mundo, com Khomeiny e o líder dos terroristas religiosos, manteve-se discreto, quase mudo. O Teerã até trabalhou em favor da "coalizão" (um sucesso, então, para o partido dos islamitas democratas do presidente Khatami).Temia-se muito que o Paquistão, "ninho" de islamitas e inventor (com a CIA e os Estados Unidos) dos talebans, se revoltasse contra o presidente Musharraf, que optou por fazer aliança com os Estados Unidos.Ora, nada disso! Musharraf teve apoio e até mesmo aproveitou para purgar o exército paquistanês (e sobretudo seus Serviços Secretos do ISI) de seus elementos mais perigosamente islamitas.O Iraque, feudo do anti-americanismo (principalmente após a guerra do Golfo e os abomináveis embargos que lhe foram impostos há anos, pelos Estados Unidos) não se mexeu. Na Palestina, a intifada não aumentou, e o chefe palestino, Yasser Arafat, ataca os islamitas extremistas do Hamas.Na Síria, nenhuma agitação. E o que é mais estranho ainda: dois dos países islamitas mais violentos, o Sudão do general Bechir e o Iêmen do coronel Salah, longe de apoiarem Bin Laden e os talebans, muito pelo contrário, colaboraram veementemente com os Estados Unidos, provavelmente para apagar seus desvios islamitas recentes.Este é o quadro atual. Mas ele ilustra sobretudo as posturas oficiais desse mundo muçulmano, as dos governantes. Sob essas classes esclarecidas, ricas e poderosas, há povos desesperados, e ali o perigo persiste. As massas pobres estão freqüentemente de coração com os talebans, às vezes com Bin Laden.Neste sentido, o resultado da caça atual de Bin Laden desempenhará um papel determinante para o futuro. Há nesta "caça" todos os ingredientes necessários ao nascimento de um mito: o homem sozinho, atacado por hordas de soldados superequipados e que sempre consegue escapar.O homem no fundo das grutas, no fundo de suas trevas; o homem que vive nas rochas e nas areias e desafia a mais opulenta potência industrial e militar de todos os tempos. O homem que sacrifica sua vida pelo triunfo, não de suas próprias idéias, mas de seu Deus.Bin Laden conhece muito bem esses elementos "irracionais". Desde o início, ele produz o "mito" em série, retomando sempre imagens de epopéias antigas: ele está escondido e é exibido nas telas, mudo e barulhento como um trovão, aqui e, no entanto, lá, presente e ausente, onipresente, riquíssimo e optou pelos "pobres", agindo ao mesmo tempo na solidão e na comunidade, na miséria e no luxo.Utilizou diabolicamente os cenários do Afeganistão para ressuscitar espíritos religiosos e rudimentares, imagens antiqüíssimas, provenientes do início da história: o homem de barba longa, vestido com togas intemporais, enfurnado em rochas que podem ser as de Maomé, de Gilgamesh ou até mesmo de São João Batista. Só falta o arcanjo Gabriel.Rejeitado e maldito. Santo e assassino. Militar e místico.Ele usa até a própria morte: seja a de seus empregados (pois a morte voluntária dos pilotos dos Boeings contribuiu bastante para semear o terror no mundo ocidental, tão avesso a esses horrores por meio de sacrifícios), seja a sua própria morte, seu próprio assassinato.Sua mensagem, anunciando que não será preso vivo e que seu filho prometeu, por um juramento, executá-lo em caso de captura, não pode ser baseada em outra vontade, e talvez não possa ter outra conseqüência, a não ser a de criar uma espécie de "culto".Sem dúvida é aí que os homens de Estado do Ocidente deverão demonstrar mais discernimento ainda do que o que demonstraram para constituir a "coalizão". Será a prova mais sutil: administrar a morte, o assassinato ou o suicídio de Bin Laden.Leia o especial

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