Bin Laden se preocupava com 'marca' Al-Qaeda

'Filiais' acabaram se tornando fonte de recursos para a enfraquecida rede terrorista

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2013 | 02h01

Os cerca de 6 mil documentos encontrados na mansão de Abbottabad, no Paquistão, onde Osama bin Laden se escondeu até ser morto em uma operação dos EUA, em maio de 2011, mostram o líder preocupado com a "marca" Al-Qaeda e as ações de grupos operando sob sua bandeira. Mas pouco se sabe ainda sobre o grau de comando e controle da rede criada pelo saudita sobre "filiais" como a Al-Qaeda do Magreb, em guerra contra a França no Mali.

"O que existe é uma tentativa de controle das operações regionais. Mas, com o tempo, essas afiliadas tornaram-se, mais do que isso, uma fonte de sobrevivência da Al-Qaeda", disse ao Estado Peter Bergen, diretor de estudos de Segurança Nacional da New America Foundation e autor de Procurado - Do 11 de Setembro ao ataque a Abbottabad e The Longest War (A mais longa guerra, em tradução literal), sobre o embate entre a Al-Qaeda e os EUA. "Não só não há evidência de envio de recursos da Al-Qaeda para as filiadas, como o comando central no Paquistão passou a receber dinheiro desses grupos."

Financiados principalmente por atividades criminosas, como o sequestro de estrangeiros, tráfico de drogas e contrabando, esses grupos são uma alternativa de financiamento da Al-Qaeda, cujas fontes tradicionais passaram a ser rastreadas pelos EUA após os ataques do 11 de Setembro. Mais de 300 suspeitos de apoiar a rede tiveram as contas congeladas, muitos foram presos, e os recursos minguaram.

"A Al-Qaeda do Magreb Islâmico faz muito dinheiro com sequestros e os líderes no Paquistão tentam se apropriar de parte desse dinheiro, como fizeram em 2005 e 2006, quando a Al-Qaeda no Iraque levantou muitos recursos para a rede capturando estrangeiros", diz Bergen. Em vídeo, Ayman al-Zawahiri, atual número 1 da Al-Qaeda, pediu às filiadas que aumentassem os sequestros.

"A Al-Qaeda do Magreb, como as outras facções da Al-Qaeda, organiza as próprias operações locais, com a vantagem de ser financeiramente autônoma, embora exista um 'pedido de bênção' à rede", disse ao Estado o diretor do International Crisis Group para o Norte da África, William Lawrence.

Para filiar-se à Al-Qaeda, a maior parte das filiadas encaminhou o pedido formal a Bin Laden por meio de um integrante de alto escalão. "A autorização para o uso da marca podia levar meses", diz Bergen, que vasculhou os documentos encontrados em Abbottabad. "Para esses grupos, é emocionante fazer parte de algo maior. Por outro lado, desde a guerra contra os soviéticos no Afeganistão, Bin Laden sempre tentou trazer tantos aliados quanto fosse possível."

O crescimento das filiadas, a dependência financeira e a falta de controle sobre suas ações, no entanto, passaram a preocupar Bin Laden, mostram os documentos encontrados em Abbottabad. A Al-Qaeda havia se tornado uma franquia do terror e isso estava ameaçando a marca que ele criara, acreditava o saudita.

"A morte de civis é particularmente prejudicial à Al-Qaeda e Bin Laden temia que essas mortes, em grande escala nas regionais, acabassem por reduzir ainda mais o apoio à rede", diz Bergen. Em uma carta ao Al-Shabab, da Somália, Bin Laden pediu à afiliada que parasse com o ataque a civis e direcionasse esforços para as tropas da União Africana.

"Era como gerir uma empresa no século 19, em que os recados e respostas, por meio de mensageiros, demoravam meses", diz Bergen. "Se as filiadas adotavam os comandos da liderança da Al-Qaeda não está claro."

Mas há indícios de que sim. Por carta, em 2010, a Al-Qaeda da Península Árabe pediu a bênção para nomear como líder o clérigo Anwar al-Awlaki, nascido nos EUA e morto em 2011. Bin Laden opôs-se. "É difícil afirmar com 100% de certeza que o grupo no Iêmen recebia as ordens de Bin Laden, mas o fato é que Al-Awlaki nunca foi promovido."

À Al-Qaeda do Magreb Islâmico, Bin Laden recomendou que plantassem árvores, pois achava a região descampada demais. Assim, poderiam esconder suas posições, evitando serem atingidos por ataques aéreos.

Mais do que uma preocupação com os aliados africanos, Bin Laden não via futuro para a Al-Qaeda no Paquistão, onde a rede sofreu baixas em ataques dos EUA com aviões não tripulados (drones) nas áreas tribais da fronteira com o Afeganistão, intensificados pelo presidente Barack Obama a partir de 2009.

"Os drones enfraqueceram a rede, dificultando a movimentação dos líderes", disse o ex-diretor de Inteligência Nacional dos EUA, Dennis Blair, por telefone, em conferência do Council of Foreign Relations. Militantes de alto escalão migraram para Iêmen e Somália. Apesar disso, Blair não vê as associadas da rede, como a Al-Qaeda do Magreb Islâmico, como uma ameaça. "Um ataque como o 11 de Setembro só foi possível porque a rede atuava sem vigilância. Hoje, onde quer que estejam, isso não é mais possível."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.