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Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Bispos católicos dos EUA articulam para negar comunhão a Biden por posição pró-aborto

Mudança, que tem como alvo um governante que regularmente comparece à missa, marca impulso dos conservadores católicos americanos

The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2021 | 19h15

WASHINGTON - Os bispos católicos dos Estados Unidos, desrespeitando uma advertência do Vaticano, votaram esmagadoramente para redigir uma declaração no país sobre o sacramento da Eucaristia, em um impulso político dos conservadores para negar a comunhão ao presidente Joe Biden por causa de seu apoio aos direitos ao aborto.

A decisão, tornada pública na tarde desta sexta-feira, 18, tem como alvo o segundo presidente católico do país (o primeiro foi John F. Kennedy) e o mais religioso desde Jimmy Carter, além de expor amargas divisões no catolicismo americano. A decisão foi tomada ao fim de três dias de debate em uma reunião virtual da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA. A medida foi aprovada com 73% de votos a favor e 24% contra.

A Eucaristia, ou comunhão, é um dos rituais mais sagrados do Cristianismo, e os bispos têm se preocupado nos últimos anos com o declínio da frequência à missa e com a incompreensão da importância do sacramento para a vida católica.

Mas a mudança, que tem como alvo um governante que regularmente comparece à missa, vem de líderes da mesma fé do presidente. O caso chama atenção de especialistas especialmente depois que muitos católicos conservadores fizeram vista grossa às impropriedades sexuais do ex-presidente Donald Trump e apoiaram sua agenda política. Ela revela um catolicismo exclusivamente americano, cada vez mais em desacordo com Roma.

O texto da proposta em si não foi escrito e, em última análise, exigiria a aprovação por uma maioria de dois terços dos votos. O esboço proposto, relatado anteriormente pela America Magazine, afirma que incluiria a base teológica para a disciplina da Igreja a respeito da recepção da Sagrada Comunhão e um apelo especial para que os católicos que são líderes culturais, políticos ou paroquiais testemunhem a fé.

Mas o fato de as opiniões de Biden sobre o aborto serem uma questão de discussão pública já é uma vitória para os católicos conservadores.

Biden, como o papa Francisco, incorpora um cristianismo liberal focado menos na política sexual e mais na desigualdade racial, mudança climática e pobreza. Sua administração é uma reversão do poder que os oponentes ao aborto, incluindo os bispos que propuseram a medida, desfrutaram sob Trump.

A luta acontece quando ativistas contra o aborto nos EUA são encorajados e aqueles que lutam pelos direitos reprodutivos pressionam Biden para que fale com mais força em sua defesa. As legislaturas estaduais introduziram mais de 500 restrições ao aborto nos últimos cinco meses, e a Suprema Corte, com sua maioria conservadora recém-ampliada, concordou em aceitar um caso sobre uma lei do Mississippi que proíbe a maioria dos abortos em 15 semanas, o que poderia desafiar o constitucional direito ao aborto estabelecido pelo processo Roe versus Wade. 

Cinco dos seis juízes católicos do tribunal foram nomeados por republicanos.

Espera-se que os bispos votem a próxima declaração em novembro, antes das eleições de meio de mandato, dando aos conservadores uma ferramenta para criticar os políticos democratas durante o ciclo de campanha. O aborto tem sido uma das forças políticas mais mobilizadoras da direita religiosa.

Esse subtexto ficou claro quando os bispos debateram o assunto por mais de duas horas na quinta-feira: “Não posso deixar de me perguntar se os anos 2022 e 2024 (de eleições) estão incluídos”, disse dom Robert M. Coerver, de Lubbock, Texas.

O bispo Kevin C. Rhoades, que lidera o Comitê de Doutrina dos bispos, que apresentou o esforço de comunhão, respondeu em uma entrevista coletiva que as próximas eleições presidenciais e de meio de mandato, segundo ele, nunca passaram por sua cabeça ou pela do comitê.

Os defensores das medidas contra o aborto já veem oportunidades políticas no plano dos bispos. A organização Students for Life realizou comícios em sete cidades na quinta-feira para exortar os bispos a votarem “sim”. 

"Até agora, os republicanos não estão tendo muita sorte em demonizar Biden, então estão testando o aborto como uma questão potencial para criticá-lo, assim como fizeram com atletas transgêneros em esportes juvenis e teoria racial crítica", disse Mike Mikus, um consultor político em Pittsburgh, que assessora campanhas democratas. “O objetivo é mobilizar os republicanos; é tudo uma jogada para a base.”

A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, uma assembleia dos 433 bispos ativos e aposentados do país, pode emitir declarações de orientação, mas não tem autoridade para decidir quem pode ou não receber o sacramento da comunhão. Esse poder está reservado ao bispo local, que tem autonomia em sua diocese, ou ao papa.

O cardeal Wilton Gregory, arcebispo de Washington, deixou bem claro que não apoia a negação da comunhão a Biden. O bispo eleito William Koenig de Wilmington, Delaware, cidade de Biden, se mantem calado sobre o assunto antes de sua posse, no mês que vem.

Normalmente, a reunião anual dos bispos em junho é árida. Mas a desta semana foi a mais fascinante em anos, não apenas por causa do tópico, mas também porque foi controversa e revelou a divisão total, teológica e política, entre os líderes da Igreja nos EUA.

Cerca de 56% dos católicos dos EUA apoiam o aborto legalizado, mas cerca de dois terços dos católicos que frequentam a missa regularmente não, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center realizada em março.

Os católicos em geral estão divididos nas linhas partidárias sobre se Biden deve receber a comunhão: 55% dos republicanos católicos acham que ele deve ter a comunhão negada e 87% dos democratas católicos acham que não, de acordo com o Pew.

A tensão na hierarquia da Igreja nos EUA sobre as políticas de aborto de Biden vem crescendo há meses. Pouco depois da eleição de Biden em novembro, o arcebispo José H. Gomez de Los Angeles, presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, anunciou a criação incomum de um grupo de trabalho para tratar de conflitos que poderiam surgir entre as políticas de seu governo e o ensino da Igreja .

No dia da posse, o arcebispo Gomez emitiu uma declaração criticando Biden por políticas que promoveriam os males morais, especialmente nas áreas de aborto, contracepção, casamento e gênero.

Biden e o papa Francisco são aliados políticos há anos, especialmente por causa da parceria entre o Vaticano e os Estados Unidos durante o mandato do presidente Obama em questões como a normalização das relações com Cuba e o Acordo Climático de Paris.

No mês passado, o principal oficial doutrinário do papa Francisco, o cardeal Luis Ladaria, advertiu os bispos dos EUA em uma carta que uma política de comunhão no que se refere aos políticos poderia se tornar uma fonte de discórdia em vez de unidade.

O debate vai crescer nos próximos meses, à medida que o comitê de doutrina avança. O documento será um para todos os católicos, não para indivíduos, disse o bispo Rhoades aos bispos esta semana. 

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