Bites, bytes e bombas em Israel

Israelenses às vezes sonham estar fora do Oriente Médio

É COLUNISTA DO NYT, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA DO NYT, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h05

Lendo o noticiário sobre o Oriente Médio em geral e depois vendo Barack Obama em Israel, ocorreu-me: o presidente americano parecia em visita a algum atol no Pacífico, ou talvez à Nova Zelândia, mas certamente a algum país ilha cercado por mares agitados.

Ari Shavit, do jornal Haaretz, destacou a atitude em sua coluna, um dia desses, que começava: "Meses atrás, Amnon Danker publicou um artigo engraçado, mas contundente no jornal Sof Hashavua. Ele falou que o projeto tecnológico inovador de Shimon Peres faz com que Israel se destaque do Oriente Médio e se desloque para oeste no Mar Mediterrâneo, como uma espécie de ilha flutuante. Ironias à parte, Danker captou perfeitamente o espírito do momento. Nos últimos anos, Israel mostrou que sente, pensa e se comporta como se não estivesse mais no Oriente Médio, e tivesse passado a existir como uma ilha que rompeu os vínculos com o continente. Como se não houvesse mundo árabe, Palestina nem Irã. Nem árabes, nem colonos, nem ocupação".

Enquanto Obama estava em Israel, saiu a notícia de que armas químicas estavam sendo usadas no país ao lado, na Síria, e a vizinha Faixa de Gaza tinha disparado foguetes contra Israel. Mas, ao mesmo tempo, o Globes, o jornal econômico de Israel falava como a "Accel Partners completou o Accel London IV, um fundo de US$ 475 milhões voltado para Europa e Israel". Gaza dispara foguetes sobre Israel pela manhã e, à tarde, entra capital de risco de Londres. A capacidade de Israel de viver como se estivesse desconectada do restante da região é impressionante e necessária. Mas é também ilusória e perigosa.

É impressionante e necessária porque Israel é o único país do mundo hoje que tem protagonistas não estatais, armados de mísseis, operando entre civis em quatro de suas cinco fronteiras: o Sinai, Gaza, sul do Líbano e Síria. Além delas, está uma série de Estados consumidos pelo tumulto interno e o Irã. E Israel conseguiu controlar bits, bytes e bombas - com muros altos, que neutralizam seus inimigos, e alta tecnologia, que alimenta sua economia. Mas existe uma fina linha entre manter o perigo "extramuros" e encerrar a fantasia no seu interior, entre manter o seu povo vivo e alimentar sonhos tresloucados. Israel está prestes a cruzar esse limite.

A perigosa ilusão de que Israel está vivendo, afirma Shavit, é a ideia de que "pode viver como uma autarquia sem nenhuma relação com o exterior". Mas nenhuma nação pode fazer isso "e certamente não uma nação na qual 6 milhões de judeus compartilham o território com mais de 5 milhões de palestinos. Certamente não uma nação que insiste, até mesmo na segunda década do terceiro milênio, em ocupar outra nação".

Na realidade, o sonho tresloucado que Israel mantém vivo é que poderá ocupar permanentemente a Cisjordânia, com os seus 2,5 milhões de palestinos, para satisfazer seus colonos que se inspiram na Bíblia, que atualmente detêm os principais postos no novo governo de Israel, como a pasta da Habitação. Com cerca de 600 mil israelenses que agora vivem em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, a possibilidade de uma solução de dois Estados "está lentamente desaparecendo da face da Terra", observa o filósofo Moshe Halbertal, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Surpreendentemente, as pesquisas de opinião ainda mostram uma maioria de ambos os lados que defende um acordo de dois Estados, "mas existe um grave problema de confiança" que precisa ser superado rapidamente.

Nahum Barnea, o veterano colunista israelense do Yediot Aharonot, disse que Obama conseguiu uma verdadeira "façanha" junto ao público israelense com seu discurso, no dia 21. "Se antes ele era considerado um inimigo, agora é considerado um amigo", disse Barnea. "Até os que ainda discordam dele, não o consideram mal intencionado com Israel".

Obama ofereceu aos israelenses compreensão e franqueza. Ele ressaltou em seu discurso: "Como Ariel Sharon disse 'é impossível existir um Estado judeu que, ao mesmo tempo, controla todo o território de Israel. Se insistirmos em realizar esse sonho integralmente, poderemos perdê-lo completamente'".

É por isso que os palestinos precisam abandonar todas suas precondições e começar a negociar, e Israel precisa conter os assentamentos e testar se o presidente Mahmoud Abbas e o primeiro-ministro Salam Fayyad, da Autoridade Palestina, cumprirão sua promessa. A melhor maneira de os israelenses administrarem o caos a seu redor não é enfiando a cabeça na areia, mas colaborando com os palestinos na construção de um Estado moderno, secular e ocidental na Cisjordânia. Se israelenses e palestinos não tentarem tudo agora para que isso possa ocorrer, esta será lembrada como a oportunidade perdida e nenhuma ilha escapará da tempestade que se seguirá. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.