Paul Ellis/AFP
Paul Ellis/AFP

Blackpool: cidade inglesa conhecida por parques de diversão mergulha na pobreza com a pandemia 

Basta andar alguns metros na orla para ver a extrema pobreza nas ruas, com lojas fechadas e prédios decadentes

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 15h00

BLACKPOO, REINO UNIDO - "Eu não era alguém que vinha para sopões", diz Ali Alian, carregando uma sacola de comida distribuída por uma associação em Blackpool, uma cidade no noroeste da Inglaterra cuja indústria do turismo foi paralisada pela pandemia, deixando muitos sem trabalho.

Foi o caso deste cozinheiro de 50 anos, empregado em um restaurante que fechou por causa do coronavírus, como outros estabelecimentos que dependem do turismo, pulmão econômico da cidade.

Ali ganhava entre 300 e 400 libras (US$ 410-550) por semana, mas agora recebe essa quantia por mês com o auxílio estatal aos mais desfavorecidos. Isso mal cobre seu aluguel. Depois tem "eletricidade, impostos (...) a conta não fecha", lamenta.

"Antes eu era como todo mundo. Agora me sinto como se estivesse em um buraco e afundando cada vez mais. Não sei como vou sair", declara, antes de voltar para casa a pé, andando por mais de uma hora no frio à noite para economizar a passagem de ônibus.

No local onde a associação Street Angel distribui comida quente, café e alimentos doados por comércios próximos, Alice Smith, uma voluntária de 24 anos, observa que "cada vez mais pessoas vêm" para a distribuição nas segundas à noite.

Mas não são os mesmos de antes da pandemia: menos pessoas sem-teto ou viciados e mais famílias. "Eles têm um teto, mas não podem comprar comida" ou pagar pelo aquecimento, explica Alice.

Blackpool é conhecida por seu parque de diversões, com trens fantasmas, carrosséis e montanhas-russas com vista para o Mar da Irlanda, e por sua Torre de Blackpool, uma mini-réplica da Torre Eiffel de Paris. 

Mas basta andar alguns metros na orla para ver a extrema pobreza nas ruas, com lojas fechadas e prédios decadentes. 

A cidade foi um destino de férias para os britânicos até a década de 80, mas o surgimento de viagens baratas para o exterior a mergulhou em um longo declínio. Desde então, tem sido uma das áreas mais deprimidas do país e a pandemia tornou a situação muito pior.

Declínio brutal 

Steve Lyon era até um ano atrás operador de uma atração do parque de diversões. Ficou tecnicamente desempregado durante o primeiro confinamento e foi demitido no segundo, diz o homem de cabelos grisalhos na fila da sopa do Amazing Grace.

Ao seu lado, Craig Johnson, de 29 anos, que segura seu filho loiro de olhos azuis, reconhece que já vivia de "emprego em emprego" antes da pandemia.

Mas não encontra nada há um ano e sem os bancos de alimentos não sabe como sua família sobreviveria. "Antes atendíamos cerca de 250 pessoas por semana, agora são mais de 400", assegura Mark Butcher, fundador da Amazing Grace. 

"É difícil saber que você mora em uma cidade onde há tanta pobreza", afirma Sylvia Culshaw, chefe do banco de alimentos de Blackpool. "Todas as cidades são afetadas, mas Blackpool mais do que muitas outras", acrescenta, enquanto prepara sacos com pão, frutas, verduras e latas de conservas para serem entregues.

A recessão histórica causada pela covid-19 pode dobrar a pobreza extrema no Reino Unido e atingir 2 milhões de famílias, incluindo 1 milhão de crianças, de acordo com um estudo recente realizado para a ONG Trussell Trust.

"Pela primeira vez desde que inauguramos, há 11 anos, tivemos que recusar novas famílias porque estávamos no limite de nossa capacidade", lamenta Pat Naylor, diretora da organização Home Start, que ajuda famílias em dificuldades.

E afirma que teme as consequências de longo prazo para as crianças. "Não é só não poder alimentar sua família. É passar de 'tenho um emprego, estou bem, as crianças estão bem, o Natal vai ser fabuloso' para 'perdi tudo'".

Embora alguns hotéis, restaurantes e atrações de Blackpool estejam começando a contratar novamente para se preparar para a reabertura planejada em 12 de abril, na opinião de Naylor, "vai demorar muito para as pessoas recuperarem a confiança". /AFP 

 

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