Blair enfrenta dissidência no Reino Unido

O primeiro-ministro Tony Blair tem cruzado o mundo ajudando a montar uma coalizão internacional antiterrorismo, mas ele pode em breve ter de usar suas habilidades diplomáticas em casa. Alguns membros de seu Partido Trabalhista começam a questionar o bom senso do envolvimento britânico nos bombardeios contra o Afeganistão. Como demonstraram o questionamento ao primeiro-ministro na sessão de hoje da Câmara dos Comuns, Blair controla facilmente o grosso de seu partido - e os que concordam com ele entre os partidos da oposição são em maior número do que os que discordam. "Não temos outra opção senão continuar essa (ação militar), levá-la a uma conclusão bem-sucedida e fechar de uma vez por todas a rede terrorista", disse Blair, cujas palavras foram recebidas com um respeitoso silêncio. Muitos daqueles expressando reservas são veteranos opositores, membros da ala esquerdista do partido de Blair, mas parece que a inquietação começa a se espalhar mesmo entre centristas que geralmente apóiam o governo. "Nas semanas seguintes ao 11 de setembro, tem havido uma cautela entre os membros do Parlamento sobre dizer o que realmente pensam, mas acho que agora isso está mudando um pouco", disse o legislador trabalhista Doug Henderson, um ex-ministro do Exterior e da Defesa. Ele afirmou à rede de televisão BBC que os ataques anglo-americanos contra o Afeganistão deveriam parar, "a menos que haja uma explicação muito clara sobre os tipos de alvos que são potenciais ameaças às forças americanas ou britânicas". "Não acredito que esse seja o caso", acrescentou. O parlamentar George Galloway, um adversário de longa data de Blair e crítico da política ocidental para o Oriente Médio, comparou os bombardeios ao Afeganistão, desesperadamente pobre e arrasado por guerras, com o boxeador Mike Tyson enfrentando uma criança de 5 anos. "Bombardear sem piedade a população civil do Afeganistão é moralmente grotesco", disse ele numa sessão especial da Câmara dos Comuns, na terça-feira, para se discutir a guerra contra o terrorismo. "O curso da ação em que estamos levanta o risco de nos levar à Terceira Guerra Mundial... que os fanáticos querem provocar", afirmou Galloway. A Grã-Bretanha e os EUA insistem que não estão alvejando civis. Pesquisas indicam que existe um forte apoio popular ao envolvimento britânico nos bombardeios, que visam primariamente Osama bin Laden e o regime Taleban que o abriga. Mas cresce um desconforto no Partido Trabalhista, na medida em que a esmagadora campanha prossegue. As preocupações se concentram na crise humanitária no Afeganistão, notícias de vítimas civis, e incertezas sobre quais são os objetivos da campanha anglo-americana. Blair - que tem sido o mais determinado aliado no exterior do presidente dos EUA, George W. Bush, desde os atentados contra Nova York e Washington - buscou conter as preocupações. Ele citou a declaração feita num videoteipe de um porta-voz da rede al-Qaeda, de Bin Laden, na qual ele adverte sobre outros ataques semelhantes aos de 11 de setembro. "Se eles não forem parados, eles vão tentar cometer novas atrocidades terroristas", disse Blair hoje na Câmara dos Comuns. A maior parte da dissensão parte do próprio partido de Blair. O oposicionista Partido Conservador, normalmente mais belicista que o Trabalhista, tem apoiado firmemente os bombardeios. O líder Iain Duncan Smith só tem uma discordância com Blair - ele queria que o Iraque também fosse bombardeado. O parlamentar trabalhista Bob Marshall-Andrews advertiu que a luta contra Bin Laden "concedeu a ele exatamente o status que buscava... Antes um criminoso, agora ele é um guerreiro e depois de ser guerreiro, ele passará a ser um mártir".Leia o especial

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