Blair faz a aposta mais arriscada de sua vida

A decisão já está tomada e representará a aposta mais arriscada feita por Tony Blair em sua carreira política: mesmo sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mesmo com a enorme oposição da opinião pública e até mesmo colegas do Partido Trabalhista, o primeiro-ministro vai alinhar o Reino Unido na ofensiva militar liderada pelos Estados Unidos contra o Iraque. Como comentou um deputado conservador, ?quem imaginaria há um ano que Bush e Saddam representariam uma séria ameaça a Blair? ?O povo é contra Blair tem sido obrigado a enfrentar pressões em várias frentes. As pesquisas de opinião mais recentes indicam que apenas 15% dos britânicos apoiam um ataque contra o Iraque sem a aprovação da ONU. No final de fevereiro, 122 deputados trabalhistas manifestaram a sua oposição a um ataque contra Saddam Hussein. Se essa rebelião em seu partido crescer, é possível que Blair necessite do apoio dos rivais do Partido Conservador para aprovar no Parlamento o apoio à ação do governo no Iraque. Nesta semana, a secretária de Desenvolvimento Internacional. Clare Short, criticou duramente Blair e disse que irá renunciar ao cargo caso o país ataque Saddam sem o sinal verde da ONU. Segundo analistas, Blair ainda não demitiu Short apenas para evitar o surgimento de uma mártir que incendiaria a rebelião em seu partido. A imprensa é contraBoa parte da imprensa britânica também se opõe a um conflito militar. O articulista do jornal Guardian, Gary Younge, salientou que com a enorme maioria que conta no Parlamento e uma oposição tão debilitada, Blair poderia ter escolhido ao longo dos últimos seus anos inúmeros temas ?para assumir uma instância moral e mostrar liderança contra a opinião pública ou contra interesses poderosos nebulosos?. Mas Blair, segundo Younge, preferiu ir contra ?o seu país e seu partido num tema relacionada à lei interncional, embarcando se necessário numa ação militar para garantir o abastecimento de petróleo barato para a nação mais ricado do mundo?. ?Poodle de Bush?Certamente o legado do envolvimento do país numa guerra contra a vontade esmagadora da sociedade trará algum custo político a Blair. Mas, pelo menos por enquanto, é prematuro se afirmar que o futuro político de Blair está definitivamente comprometido. Isso vai depender do desfecho do conflito. A história mostra que a opinião pública britânica tende a cerrar fileiras com o governo a partir do momento que as tropas entram em ação, mesmo aqueles que se opunham ao anteriormente à deflagração do conflito. Uma vitória rápida e sem números expressivos de vítimas no Iraque e com provas de que Saddam escondia armamentos de destruição de massa, poderá permitir a Blair recuperar boa parte da popularidade perdida nos últimos meses. Já os custos de uma guerra prolongada, com pesadas perdas humanas e materiais, certamente recairão sobre os ombros do primeiro-ministro, que dificilmente manterá o posto. A defesa de um ataque militar ao Iraque já custou ao primeiro ministro apelidos como ?poodle do Bush? . Mas mesmos os críticos do líder britânico reconhecem a determinação com que ele vem defendendo a sua posição desde que o presidente norte-americano anunciou sua intenção de se livrar de vez de Saddam Hussein. Segundo Blair, a remoção de Saddam do poder é do interesse nacional britânico, pois o governo do Iraque representa hoje uma ameaça tanto na disseminação de armas de destruição de massa como no apoio ao terrorismo internacional. Mero figurante Entre o leque de justificativas para a manutenção do status de aliado mais próximo dos Estados Unidos, Blair ressalta a capacidade de se poder influir nas decisões da Casa Branca, atenuando-se assim uma tendência de comportamento unilateralista da maior potência do mundo realçada desde que Bush filho assumiu o poder. Além disso, o Reino Unido seria a ponte da Europa com a América do Norte. Essas duas teses, no entanto, desabaram recentemente. O secretário de Defesa, Donald Runsfeld não descartou que os Estados Unidos poderiam atacar o Iraque mesmo sem a participação das forças britânicas, o que colocou Blair numa situação constrangedora, com um mero figurante num filme no qual só há uma estrela e um vilão. Já vários países europeus, como a França e Alemanha, não querem usar a ponte oferecida por Blair. Na verdade eles e boa parte da Europa vêem hoje o Reino Unido apenas como um porta-voz de Washington. Para muitos analistas, a estratégia britânica de se alinhar aos Estados Unidos será testada no seu limite na crise do Iraque. Se as coisas derem errado e Blair sair do poder, os britânicos poderiam até se aproximar da Europa, o que reforçaria a capacidade do velho continente de promover uma política independente de Washington.

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