Blair faz a guerra e Londres lava o dinheiro do terror

Onde, então, o dinheiro sujo pode ser lavado? É uma antiga questão atormentadora, mas igualmente desencorajadora, pois as soluções para acabar com essa prática detestável são precárias ou inoperantes. Desde o dia 11 de setembro, essa pergunta mudou de natureza: anteriormente, os "paraísos fiscais" lavavam o dinheiro das "máfias", o dinheiro da droga (o que já era escandaloso). Hoje, é pior: a caça aos "paraísos fiscais" mudou de natureza. Na verdade, corre-se atrás do dinheiro da morte, do dinheiro do "terror". Há alguns meses, os deputados franceses se interessam por esses problemas. Eles já publicaram depoimentos volumosos, meio agressivos, que incriminam duramente centros financeiros, como Mônaco, Liechtenstein, Suíça. Hoje, eles escalam um novo nível com audácia: por um lado, atacam o centro financeiro de Londres e, por outro, não falam mais apenas em dinheiro da Máfia, mas do dinheiro dos terroristas, do gênero Bin Laden. Seu relatório é violento. Miram seus binóculos na direção dos circuitos labirínticos de Bin Laden, mostram "a importância para as organizações criminosas com objetivos terroristas" do centro financeiro de Londres e dos territórios offshores da Coroa britânica (New Jersey, Ilhas Cayman, Ilhas Virgens britânicas). Essas análises ajudam a compreender a facilidade com a qual os financiadores do "terrorismo" podem desafiar as regras e as leis, nesse formigueiro obscuro que é um centro financeiro como o de Londres. Em primeiro lugar, existe o gigantismo desse centro: os bancos estrangeiros instalados em Londres administram a metade das fortunas bancárias depositadas no Reino Unido (12 mil bilhões de francos). Além disso, acontece que as autoridades de regulação inglesas são de uma indulgência extraordinária: em Londres, entre 1986 e 1996, houve apenas 100 processos por "lavagem" (nos Estados Unidos, houve 2.034). O relatório afirma: "O centro financeiro de Londres é muito atraente para os que fazem lavagem de dinheiro. Ele constitui não só um paraíso fiscal, bancário e financeiro, mas também, infelizmente, judiciário em muitos aspectos". É possível imaginar que isso vai provocar muito barulho em Londres: quando os mesmos deputados franceses arranharam o laxismo do Mônaco e da Suíça, as reações já foram de indignação. É possível imaginar que as reações de Londres serão ainda mais virulentas. Algumas observações. A primeira é que Londres - e a Inglaterra - constituem um enorme paradoxo. O chefe de guerra anti-Taleban mais exaltado é Tony Blair, e a Inglaterra é o único país, junto com os Estados Unidos, que colocou forças significativas em linha de batalha na guerra anti-Taleban. Ora, essa mesma Inglaterra é também o país europeu em que os terroristas muçulmanos, que muitas vezes não são da esfera de influência de Bin Laden, são os mais numerosos e os mais organizados, quase à vista de todos. Do mesmo modo, o centro financeiro de Londres parece ser o lugar em que os terroristas afegãos ou de outros lugares desfrutam da maior impunidade para fazerem a lavagem de seu dinheiro, para fazê-lo transitar, escondê-lo, utilizá-lo. Decididamente, a Inglaterra é um país bem misterioso: como tudo isso pode ser conciliado? Por um lado, a energia "como a de Churchill" com a qual Tony Blair defende a guerra do Afeganistão e, por outro, a tolerância da mesma Inglaterra em relação ao dinheiro do "Terror"? Digamos ainda que a maneira imperiosa e solitária como a Inglaterra, esquecendo-se, como lhe é de costume, de suas solidariedades européias, optou impetuosamente pelos Estados Unidos mais do que pela União Européia, chocou. O tema de uma "diplomacia comum européia", que já não tinha muita força antes do dia 11 de setembro, parece hoje seriamente apagado. Leia o especial

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