Blefes e bravatas permeiam conflito

Onda de boatos, desinformação e desmentidos se espalham em meio a tiros e bombardeios

David D. Kirkpatrick e Rod Nordland, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES / TRIPOLI - A verdade foi a primeira vítima na Líbia bem antes de a guerra começar, e o conflito não melhorou as coisas, em nenhum dos lados. Há muito tempo a Líbia é uma república de mentiras ou, nas palavras de Muamar Kadafi, "a única democracia no mundo".

 

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Kadafi foi o ditador absoluto que afirmou, há alguns anos, estar além de qualquer função pública, que era mais um guru, um guia, para os 6 milhões de cidadãos líbios.

Na Líbia, como geralmente ocorre com governos autoritários, os líderes costumam ditar como as pessoas devem pensar. Não importa o quão escandalosa seja a mentira, ou bizarra, (como foi quase sempre o caso na Líbia), ela é aceita como realidade por uma população paralisada pelo isolamento e a opressão. Portanto, não é surpresa que os rebeldes que agora enfrentam Kadafi frequentemente parecem ter uma atitude similar, pois Kadafi foi o único governante que conheceram. Muitos dos líderes dos insurgentes pertenceram ao alto escalão do ditador, ajudando a defender e promover sua visão, e versão, da realidade.

Um exemplo disso foi a declaração que fizeram no domingo, de que tinham capturado Seif al-Islam Kadafi, filho do ditador líbio, considerado seu possível herdeiro. A afirmação foi feita com tamanha autoridade que chegou mesmo a desencadear um debate entre os rebeldes sobre o que fazer com o filho de Kadafi, que, segundo a Corte Penal Internacional, deveria ser levado para Haia.

Mas na madrugada de terça-feira, Saif al-Islam escoltava jornalistas pelas redondezas de Trípoli, ao lado de simpatizantes do líder líbio, dizendo que os rebeldes que entrassem na cidade cairiam numa armadilha.

Informações verdadeiras sempre são difíceis de se obter em qualquer zona de guerra. A desinformação é um poderoso instrumento usado para enganar o inimigo, ocultar táticas, insuflar o medo ou conquistar apoio popular. E há também a névoa da guerra, a confusão nas comunicações e o caos no campo de batalha que impedem qualquer entendimento objetivo.

Mas na Líbia, com tantas facções e programas que se sobrepõem, partidários de Kadafi, tribos que competem entre si, guerrilheiros ocidentais, rebeldes orientais, aliados da Otan, tudo isso é uma verdade que chega às vias do excepcional.

Ao amanhecer, parecia que a afirmação do filho de Kadafi, de que havia montado uma armadilha, era mais uma mentira, já que os rebeldes invadiram o complexo de Bab al-Azizia, de Kadafi.

"É um lembrete oportuno de que o Twitter, os canais de notícias 24 horas, além dos telefones via satélite, são inúteis diante da névoa da guerra", escreveu Rob Crilly, do Daily Telegraph, de Londres.

Durante os seis meses de combates, tanto os rebeldes quanto as forças de Kadafi repetidas vezes exageraram ou distorceram suas capacidades e sucessos no campo de batalha. As forças rebeldes afirmavam ter capturado cidades, para horas ou dias depois serem rechaçadas - na terça-feira as forças leais a Kadafi insistiram que tinham o controle de Trípoli.

Nos primeiros dias da intervenção da Otan, declarações sobre os sucessos rebeldes na guerra pareciam ter por objetivo tranquilizar o público interno inquieto de que uma vitória rápida era possível. Um dia antes de os rebeldes invadirem o complexo de Kadafi, o porta-voz da Otan, Roland Lavoie, foi questionado se o líder líbio teria se escondido.

"Não tenho como saber", ele afirmou numa entrevista coletiva na Itália, uma resposta que parecia verossímil. Mas, em seguida, acrescentou, menos convicto, "não sei se isso é realmente importante".

Os exemplos de informação tendenciosa de ambos os lados são similares ao que vimos na Guerra do Iraque e a queda de Saddam Hussein.

Durante meses em busca do esconderijo do ditador, o Exército dos EUA insistiu que a captura dele não era importante - naturalmente, até as forças americanas o capturarem, distribuindo imediatamente fotografias em que piolhos eram retirados do cabelo dele.

Quando os americanos entraram em Bagdá, a alegação - que mais tarde se verificou falsa - era que o Iraque tinha armas de destruição em massa.

Afirmação que foi levada tão a sério pelos soldados americanos que eles trouxeram na bagagem máscaras contra gás e passaram grande parte das primeiras semanas do conflito em busca de armas não convencionais, em vez de controlar os saqueadores, um dos problemas que mais tarde insuflaram a insurgência.

Às vezes é difícil dizer se as pessoas que disseminleais ao governoleais ao governoam informações falsas acreditam nelas. Não há infiéis americanos em Bagdá, disse Muhammad Said al-Sahaf, ministro da informação de Saddam, muito tempo depois de as tropas americanas terem entrado na capital.

Ao contrário do Iraque, a desinformação na Líbia às vezes parece ser parte de uma ópera cômica. Quando a revolta contra Kadafi começou, ele acusou a Al-Qaeda e os jovens "alimentados com leite e Nescafé misturado com drogas alucinógenas".

Quando essa alegação já não convencia mais, ele declarou que os rebeldes "se acham rápidos no gatilho e atiram especialmente quando estão drogados". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO        

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