Blindado no Congresso, premiê sob suspeita vê Justiça espanhola avançar

Durante mais de quatro horas, na noite de quinta-feira, milhares de manifestantes exigiram em Madri, na Espanha, a renúncia do primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy. O grito mais frequente - "é uma máfia, não um governo" - sintetizava o desejo de que, diante do domínio exercido sobre o Parlamento pelo grupo suspeito de corrupção, a Justiça elucide as denúncias de caixa 2 que abalam, mas não derrubam o premiê.

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h09

O juiz Pablo Ruz, encarregado do caso, deu um passo nessa direção ao consultar a promotoria, na sexta-feira, sobre a conveniência de convocar o premiê, entre outros de seus correligionários, a depor sobre o caso.

Com 186 deputados, de um total de 350, e 165 senadores, de 266, Rajoy conta com uma bancada forte para se manter na chefia de governo, mesmo com a pressão do líder da oposição socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba, que tenta aprovar uma moção de censura contra o conservador. Na prática, dizem analistas políticos espanhóis, só um cenário derrubaria Rajoy: a traição de seus próprios correligionários do Partido Popular (PP).

Foi justamente uma traição o que transformou Rajoy, alvo de denúncias diretas do tesoureiro de seu próprio partido, Luis Bárcenas. Com a convocação do premiê e de outros integrantes do partido, cresceriam as chances de surgirem contradições e, eventualmente, algum "novo Bárcenas" descontente com a falta de apoio.

O Caso Bárcenas estourou no início do ano, quando documentos contábeis escritos à mão pelo tesoureiro foram publicados pelos jornais El País e El Mundo. Os papéis, referentes à contabilidade interna do partido entre 1990 e 2008, registravam o pagamento de somas a secretários-gerais e vice-secretários do partido. Em fevereiro, o jornal El Mundo revelou os primeiros indícios de "salários" de € 5 mil a € 15 mil, ilegais, pagos com dinheiro de empreiteiras.

A denúncia não atingiu Rajoy, até que El País publicou as 14 páginas do caderno de contabilidade de Bárcenas. Os papéis indicavam que grandes personalidades do partido, como o atual premiê, e seu antecessor conservador, José María Aznar, receberiam os "bônus", além de ministros e ex-ministros, como Rodrigo Rato, ex-diretor-gerente do FMI entre 2004 e 2007. Uma rubrica em separado indicava os pagamentos que somavam 322,32 mil em dinheiro.

As denúncias seguiram sendo apuradas pela Justiça até que, na semana passada, novas revelações sacudiram a política espanhola e comprometeram de vez Rajoy. Pedro J. Ramírez, diretor do jornal El Mundo, entrevistou o contador durante quatro horas. Na conversa, Bárcenas confirmou a autenticidade dos documentos contábeis, cuja autoria ele negava. O tesoureiro, então, fez a revelação bombástica: durante 20 anos, ajudou a montar um esquema de financiamento clandestino de campanhas eleitorais e de "salários" ilegais pagos por empresários.

Há seis dias, foi a vez do jornal El País obter o conteúdo dos depoimentos prestados por Bárcenas, que revelavam a "entrega" de cargos de governo a doadores do partido.

Rajoy foi flagrado em mentiras. Durante seis meses, afirmou não manter contatos com o suspeito número 1. No entanto, em mensagens de texto, enviadas depois do início do escândalo, o premiê expressou-lhe seu "apoio", pedindo ao tesoureiro - que tem contas clandestinas de € 48 milhões na Suíça - que se mantivesse "forte". A sequência de mentiras levou o jornal El Mundo, conservador, a afirmar: "Bárcenas guardava o silêncio em troca do apoio de Rajoy".

Diante das acusações, o premiê revelou inabilidade política. Para se manter no poder, recusando-se a renunciar, Rajoy multiplicou citações à crise econômica. "A Espanha está em uma situação difícil, em saída da crise, e o grande valor do país é sua estabilidade política", argumentou, descartando a demissão.

O problema é que, nas ruas, Rajoy não tem mais legitimidade. "O PP não é um partido com corruptos, mas sim um partido corrupto. É uma organização mafiosa", afirma Javier Aguado, de 61 anos, desempregado há 10. "Se Rajoy pedir demissão sem convocar eleições, assumirá outro da mesma máfia."

Miguel Mingarro, de 52 anos, também participava na quinta-feira das manifestações diante da sede do PP onde linguiças foram assadas - "chorizo", linguiça em espanhol, é uma gíria para corrupto. "Temos a sensação de que a corrupção é generalizada", diz o técnico em informática. "É a democracia que está enfraquecida."

A visão de que a democracia espanhola está em crise em razão da corrupção endêmica nos partidos - em especial no PP - é outra certeza que também se generaliza. "Em países mais sérios, casos como o de Bárcenas derrubariam o governo inteiro, mas não na Espanha. Nós nos tornamos um país muito frágil, com instituições muito corruptas", diz Douglas Martín, comerciante de 43 anos.

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