Blogueira é presa por autoridades de Cuba

Yoani Sánchez foi detida em Bayamo, onde pretendia cobrir julgamento de espanhol

BAYAMO, CUBA, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2012 | 03h06

A blogueira cubana Yoani Sánchez, que assina uma coluna aos domingos no Estado, foi presa no fim da tarde da quinta-feira em Bayamo, no leste de Cuba, quando chegava à cidade para cobrir o julgamento do espanhol Ángel Carromero - que responde pelo homicídio culposo (sem intenção) dos dissidentes Oswaldo Payá e Harold Cepero, mortos em 22 de julho, quando o carro conduzido pelo estrangeiro bateu contra uma árvore.

O marido de Yoani, Reinaldo Escobar, e o jornalista independente Agustín Díaz também foram detidos. Segundo o dissidente Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CCDHRN), o trio chegava à cidade quando seu veículo foi abordado pelas autoridades.

"Eles devem ser soltos após o julgamento", afirmou ao Estado o ativista, contando que outros seis opositores foram presos em Bayamo nas 48 horas que antecederam a audiência do processo contra Carromero.

O jornal espanhol El País, veículo que tem Yoani como colaboradora, confirmou em seu site que a blogueira viajava a Bayamo com a intenção de cobrir o julgamento de Carromero.

Dois blogueiros governistas revelaram as prisões de Yoani e seu marido. Segundo Yoahandry Fontana, que costuma obter informações com o governo cubano, a jornalista independente viajou a Bayamo, a 750 quilômetros de Havana, onde vive, "para tentar (realizar) uma provocação e um show midiático que prejudicaria o bom desenvolvimento do julgamento do espanhol."

Yunior García Ginarte, jornalista de uma TV estatal com base na cidade, afirmou no microblog Twitter que Yoani "viajou a Bayamo para (dar) um show provocativo e prejudicar o julgamento de Carromero". "Ele está detida pelas autoridades locais."

Segundo os blogueiros governistas, Yoani e o marido foram transferidos durante a tarde para Havana.

O celular da opositora ficou completamente fora do ar ontem. Seu último tuíte, que incluiu uma foto da estrada a Bayamo, foi postado às 12h22 da quinta-feira. Segundo a CCDHRN, Yoani falou com um parente após ser detida, a quem confirmou estar em um centro policial de Cuba.

Autora do blog Generación Y e ganhadora de diversos prêmios internacionais de jornalismo e defesa dos direitos humanos, Yoani tem denunciado na internet detenções relâmpago de diversos dissidentes nos últimos tempos.

Repercussão. Entidades de defesa da liberdade de imprensa e a Anistia Internacional protestaram contra a prisão de Yoani (mais informações nesta página).

O governo dos Estados Unidos afirmou estar "profundamente preocupado" pelas "detenções arbitrárias".

"Estamos profundamente preocupados pelo uso repetido por parte do governo cubano de detenções arbitrárias para silenciar os críticos, interromper o direito a reunião e para impedir o jornalismo independente", afirmou o porta-voz do Departamento de Estado americano Mark Toner em uma entrevista coletiva.

"Está muito claro que a situação dos direitos humanos em Cuba continua má", disse o funcionário do governo americano, mencionando, além de Yoani e Escobar, a mais recente detenção do dissidente Guillermo Fariñas, que foi preso com outros 41 opositores que planejavam realizar uma reunião nesta semana - todos já tinham sido libertados ontem.

A Itália também manifestou preocupação com a prisão de Yoani. O ministro de Relações Exteriores, Giulio Terzi, afirmou ter pedido à embaixada italiana em Havana que "acompanhe a evolução do caso".

Detenções. O governo de Raúl Castro tem detido opositores às vésperas de manifestações e eventos públicos.

Em março, mês em que o papa Bento XVI visitou Cuba, a dissidência cubana registrou o ápice deste tipo de prisão desde 2010 - segundo a CCDHRN, 1.158 opositores foram detidos.

No mês anterior, 604 tinham sido detidos. Em janeiro, quando a presidente brasileira, Dilma Rousseff visitou a ilha, foram registradas 631 prisões relâmpago, ainda segundo os dados da entidade dissidente.

Julgamento. Na audiência judicial em Bayamo, Carromero reconheceu que perdeu o controle do carro que, além dele e os mortos no acidente, levara ainda o sueco Jens Aron Modig. O espanhol negou, porém, que estivesse dirigindo em excesso de velocidade - rechaçando a acusação do Ministério Público da ilha. / AP, AFP, COM GUILHERME RUSSO

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