Blogueiro português convoca homenagem a judeus e é criticado

Um massacre ocorrido há exatos 500 anos esquentou a blogosfera portuguesa nos últimos dias. Tudo porque o jornalista Nuno Guerreiro, dono do blog Rua da Judiaria propôs, há alguns dias, a realização de um ato em memória dos cerca de 4 mil judeus mortos durante os dias 19, 20 e 21 de abril de 1506, num evento que é considerado o primeiro pogrom judaico da era moderna. O termo pogrom é utilizado para descrever atos violentos contra minorias étnicas. Guerreiro lançou a idéia de que 4 mil velas fossem acessas no Rossio e na Baixa de Lisboa - locais em que os corpos das vítimas foram lançados em fogueiras - em memória aos mortos. O que ele não esperava, no entanto, era que sua proposta, que ficou conhecida pelo nome de "Uma vela no Rossio", repercutiria por quase toda a blogosfera portuguesa. Pelo menos é o que se pode concluir de uma dos últimos textos publicados pelo jornalista. "Quando pedi aos meus leitores que fossem ao Rossio para lembrar simbolicamente as quatro mil vítimas do massacre (...) - de forma absolutamente voluntária e desprovida de uma qualquer estrutura ou "organização" - nunca imaginei que poderia ser intimado a explicar-me e a expor as razões subjacentes a tal iniciativa", escreveu. Muitos blogueiros gostaram da idéia e apoiaram Guerreiro. Outros, no entanto, contestaram a iniciativa. É o caso, por exemplo, do blogueiro Miguel Silva, que em seu Tempo dos Assassinos dá quatro razões para que os lisboeses não atendam ao apelo de Guerreiro. Em um de seus posts, ele argumenta: "Em 1506 foram mortos milhares de judeus em Lisboa, o que é um fato iniludível. Mas esse fato deve ser enquadrado no contexto social da época. As mortes que se registraram em Lisboa há 500 anos não resultaram da pura maldade. Corresponderam a quadros mentais, sociais e culturais devidamente inscritos nessa época histórica." Massacre O fato a que Miguel Silva se refere, retratado com riquezas de detalhes por Richard Zimler no romance histórico O último cabalista de Lisboa, foi um dos primeiros episódios de ódio e violência contra o povo judeu na Europa. Segundo os principais relatos da época, registrados pelos cronistas Damião de Góis e Samuel Usque, os ataques foram iniciados depois que um cristão novo (judeu convertido) contestou uma visão que para muitos só poderia ser um milagre. No dia 19 de abril de 1506, um domingo, quando os fiéis rezavam pelo fim da seca e da peste que tomavam Portugal, alguém jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado - fenômeno que, para os católicos presentes, só poderia ser interpretado como uma mensagem de misericórdia do Messias. Não foi o que pensou um judeu convertido que também participava da missa. Ele tentou explicar que a luz era apenas o reflexo do sol, mas foi calado pela multidão, que o espancou até a morte. A partir daí, três dias de massacre se sucederam, incitados por frades dominicanos que prometiam absolvição dos pecados dos últimos 100 dias para quem matasse os "hereges". Resposta Em resposta às críticas que tem recebido, Guerreiro utiliza o trecho de um livro do prêmio Nobel da Paz, Elie Wiesel. "Se existe um único tema que domina todos os meus escritos, todas as minhas obsessões, é a memória - porque tenho tanto medo do esquecimento quando do ódio ou da morte." Guerreiro argumenta que o objetivo de seu chamado foi exatamente evocar a memória do acontecimento. Segundo ele, muitos fatos históricos são lembrados pelos portugueses, como o descobrimento do Brasil e o terremoto que assolou Lisboa em 1755, mas nenhum artigo de jornal ou programa televisivo dedicou-se ao massacre ocorrido em 1506. Por isso, usou a internet para divulgar sua iniciativa. E ele completa: "No judaísmo, o aniversário da morte de alguém é recordado anualmente acendendo uma vela em sua memória - em hebraico, a palavra ór significa simultaneamente luz e chama e, de forma metafórica, também conhecimento e memória."

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