Bloqueados em túnel, 600 palestinos tentam fugir de Gaza

Condições no cruzamento de Erez são precárias; carrinho de comida foi atacado "e apenas os mais fortes pegaram os alimentos", segundo relatos e chão virou banheiro

Agencia Estado

21 Junho 2007 | 13h06

Encurralados por tanques israelenses e militantes armados do grupo Hamas, centenas de palestinos aterrorizados estavam nesta terça-feira, 19, em um túnel de concreto, já com odor desagradável, no cruzamento da fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, tentando desesperadamente se esconder dos governantes islâmicos da Faixa de Gaza e fugir para a Cisjordânia. Testemunhas dizem que 600 pessoas estão dentro do túnel, fronteira entre o território da Faixa de Gaza e Israel. Temendo a morte ou perseguições, os palestinos de Gaza começaram a fugir para Erez quando o Hamas tomou o controle da Faixa de Gaza no final da semana passada. A multidão inclui dezenas de ex-combatentes do Fatah, cujas forças foram derrotadas pelo Hamas. Israel, temendo que a multidão inclua atiradores do Fatah que poderiam desestabilizar a relativamente calma Cisjordânia, recusou acesso ao seu território à maioria dos refugiados, ao afirmar que suas vidas não estavam em perigo. À medida que o impasse prossegue, a cena dentro do túnel fica cada vez mais desesperadora. Temores surgem sobre possíveis militantes do Hamas infiltrados, que teriam se misturado à multidão para espioná-la. Na noite da segunda-feira, militantes de um grupo aliado ao Hamas, que aparentavam ser civis, retiraram armas das suas bagagens e mataram a tiros o sobrinho de um ex-famoso líder do Fatah. O ex-líder já havia sido linchado por uma multidão em Gaza na semana passada, quando o Hamas tomou o poder. Quinze pessoas ficaram feridas, porque os militantes explodiram uma granada na boca do túnel. Cerca de 24 horas após o ataque, Israel permitiu que dois feridos fossem admitidos em seu território. Para manter a ordem, tanques israelenses se moveram para o lado palestino de Erez nesta terça-feira. Um tanque impede que mais pessoas entrem ou saiam do túnel. Cerca de 100 realmente devem ser pessoas do Fatah em fuga, enquanto os outros 500 podem ser pessoas em busca de uma vida melhor na Cisjordânia. A Faixa de Gaza e a Cisjordânia são separadas por cerca de 50 quilômetros de território israelense. Abu Mustafá, um combatente do Fatah que está no túnel e tenta deixar Gaza por Erez, teme ser um homem marcado para morrer. "Eles perdoaram antes a várias pessoas e depois mataram elas. Não existe caminho de volta," ele disse. Tráfego filtrado Israel permitiu apenas que dois palestinos, feridos a bala, pudessem atravessar a fronteira. Os dois haviam sido feridos 24 horas antes, durante um ataque do Hamas ao sobrinho de um ex-dirigente do Fatah, no túnel. Na quarta-feira, a Suprema Corte de Israel deverá analisar uma petição feita por grupos israelenses de direitos humanos e de médicos, que demandam às autoridades israelenses que ofereçam tratamento médico imediato a cada um dos habitantes de Gaza que estão em Erez, tentando cruzar a fronteira. Em outro episódio, Israel permitiu que um carregamento de comida entrasse em Gaza nesta terça-feira, pela primeira vez desde que o grupo Hamas conquistou a região, reduzindo os temores de uma crise humanitária na empobrecida área. Israel afirma que apenas os trabalhadores de organizações internacionais e pessoas com permissões especiais estão autorizadas a cruzar a fronteira. "Nós não acreditamos que todos eles estejam ameaçados," diz Nir Peres, oficial de comunicação militar de Israel. Israel permitiu que 50 oficiais graduados do Fatah e suas famílias cruzassem a fronteira em direção à Cisjordânia no final de semana passado, citando ameaças à segurança dessas pessoas. Outros 200 oficiais do Fatah fugiram para o Egito. O Hamas declarou uma anistia geral após a conquista, mas oficiais de segurança do Fatah e civis aterrorizados não confiam no gesto. Condições precárias Mulheres, crianças e homens jovens estavam sentados entre duas altas paredes de concreto nesta terça-feira, sujos e com olhares cansados. Malas e lixo se amontoavam sobre o chão. Algumas famílias se sentavam sobre esteiras, outras simplesmente no asfalto, incluídos vários homens com bandagens e curativos nas pernas. Um cheiro forte de urina e suor impregna o túnel, que não tem nenhum banheiro. "É degradante, nojento. As pessoas usam as paredes e o chão como banheiro. As mulheres estão sofrendo," disse um homem no túnel, que não quis se identificar, com medo de represálias. Ele disse que as pessoas já estão lutando por comida. Em um episódio, as pessoas atacaram um carrinho de comida, "e apenas os mais fortes pegaram os alimentos," ele disse. Mais trade, Israel permitiu que cinco carrinhos de comida atravessassem a fronteira, ele disse. "Houve um pouco de ordem porque eles (os israelenses) obrigaram todos a se sentar para receber os alimentos," ele disse.

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