Bloqueio de contas atingiria ditadores

Bancos na Suíça congelaram bens de Ben Ali e Mubarak após sua queda, algo que poderia ter sido feito antes

, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

GENEBRA

Quatro dias depois que o povo tunisiano derrubou Zine el-Abidine Ben Ali, o governo suíço ordenou a seus bancos o sequestro de todos os ativos do ditador adquiridos de maneira suspeita. Poucos dias mais tarde, a União Europeia congelou os bens de Ben Ali na Europa.

Este mês, no mesmo dia em que Hosni Mubarak foi deposto no Egito, a Suíça pediu a seus bancos que identificassem e bloqueassem todos os bens de Mubarak, que teria acumulado uma fortuna de vários bilhões de dólares ao longo dos 30 anos de poder, embora seu salário presidencial fosse de US$ 800 mensais.

Se Ben Ali e Mubarak acumularam de fato suas fortunas graças à corrupção e as ocultaram em bancos estrangeiros, por que a Suíça, a União Europeia, e também os EUA, esperaram até que fossem derrubados para fazer alguma coisa? Governos comprometidos com a promoção da democracia e da transparência não deveriam tentar identificar e congelar o dinheiro sujo de ditadores enquanto eles ainda estão no poder, quando isto poderia mudar o seu comportamento? Ou será que o sequestro de bens não passa de uma taxa de embarque que os autocratas caídos em desgraça pagam ao fugir?

Mubarak e Ben Ali não são casos isolados. Governantes de outros países do Oriente Médio onde eclodiram os protestos - Abdelaziz Bouteflika da Argélia e Ali Abdullah Saleh do Iêmen, por exemplo - foram acusados de usar o cargo para enriquecer a si e a suas famílias de maneira ilegal. Além do Oriente Médio há Ilham Aliyev, o presidente do Azerbaijão, que, conforme The Washington Post noticiou no ano passado, adquiriu propriedades em Dubai no valor de US$ 44 milhões em nome de seu filho de 11 anos. Há Than Shwe de Mianmar, que desviou bilhões de dólares da receita do gás natural para contas no exterior, manobra facilitada pelo fato de os EUA não aplicarem sanções aprovadas pelo Congresso contra os bancos que guardam recursos saqueados pelo governo birmanês.

Nos países onde há um governo autoritário, a corrupção não é apenas um subproduto ocasional da repressão política, mas um princípio de organização fundamental. A capacidade de líderes autoritários de transformar o poder político em riqueza lhes fornece um motivo para se agarrar ao poder. Além do luxo, suas fortunas podem adquirir segurança - a capacidade de comprar rivais e garantir a lealdade de suas tropas e das elite empresarial.

A corrupção em massa que ajudou a sustentar governos autoritários não seria possível sem a cooperação de bancos. O problema não está no fato de os governos ocidentais não terem suficiente influência; mas de relutarem a usá-la para não comprometer suas relações diplomáticas. / THE WASHINGTON POST

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