Finbarr O'Reilly/The New York Times
Finbarr O'Reilly/The New York Times

Bloqueio interrompe estrada vital para milhões de pessoas na Etiópia

ONU enfrenta dificuldades para levar ajuda humanitária ao Tigré, região afetada por conflito

Declan Walsh, The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2021 | 20h00

AFAR, ETIÓPIA -  A estrada de 480 quilômetros, uma tira de asfalto que atravessa alguns dos terrenos mais inóspitos da terra, é a única maneira de entrar numa região dilacerada por conflitos, onde milhões de etíopes enfrentam a ameaça da penúria. No Tigré, a guerra civil entre as forças armadas e a etnia local já dura nove meses - com relatos de massacres, extermínio e crimes sexuais - e dá sinais de recrudescimento.

A frágil linha vital é cheia de perigos, que tornaram a estrada quase intransitável para os comboios que tentam levar suprimentos humanitários para a região do Tigré. Trabalhadores de ajuda humanitária dizem que o principal obstáculo é um bloqueio não oficial do governo da Etiópia, aplicado por meio de táticas de obstrução e intimidação, que efetivamente cortou a estrada e exacerbou o que alguns chamam de a pior crise humanitária do mundo em dez anos.

Um comboio de ajuda que rumava para o Tigré foi alvo de tiros na estrada em 18 de julho, forçando-o a dar meia-volta. No último mês, só 1 de 50 caminhões de ajuda da ONU conseguiu percorrer a rota. A organização disse que precisa de duas vezes mais veículos, viajando todos os dias, para evitar a escassez catastrófica de alimentos e remédios na região. Mas nada está avançando.

Na terça-feira, 3, o Programa Mundial de Alimentos disse que 170 caminhões carregados de ajuda ficaram detidos em Semera, a capital da região vizinha de Afar, esperando por autorização da Etiópia para atravessar o deserto até Tigré. "Esses caminhões precisam de permissão para seguir AGORA", escreveu no Twitter o diretor da agência, David Beasley. "As pessoas estão morrendo de fome."

A crise ocorre contra o pano de fundo de uma guerra que se intensifica, transbordando para o Tigré e outras regiões, o que aprofunda as tensões étnicas e aguça os temores de que a Etiópia, o segundo país mais populoso da África, esteja se desfazendo.

No Tigré, as necessidades são duras e aumentam rapidamente. A ONU calcula que 400 mil pessoas na região estejam vivendo em condições de fome, e mais 4,8 milhões precisam de ajuda urgente. Soldados etíopes e aliados da Eritreia roubaram grãos, queimaram colheitas e destruíram ferramentas agrícolas, segundo grupos de ajuda e testemunhas locais entrevistadas pelo The New York Times. Isso fez com que muito agricultores perdessem a temporada de plantio, acionando uma crise alimentar que deverá atingir o pico quando as colheitas falharem em setembro.

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2019, disse na semana passada que seu governo está fornecendo "acesso humanitário irrestrito" e se comprometeu à "entrega segura de suprimentos críticos à sua população na região de Tigré".

Mas ministros de Abiy acusaram publicamente os profissionais de socorro humanitário de ajudar e até armar os combatentes do Tigré, afirmação negada firmemente por um órgão da ONU. E altas autoridades, falando sob a condição de anonimato para não prejudicar suas operações, disseram que o compromisso declarado do governo de permitir as entregas de ajuda foi desmentido por seus atos em campo. Profissionais de ajuda foram assediados em aeroportos ou, no caso de um membro do Programa Mundial de Alimentos na semana passada, morreram no Tigré por falta de assistência médica.

Billene Seyoum Woldeyes, porta-voz de Abiy, disse que forças federais deixaram para trás 44 mil toneladas de trigo e 2,5 milhões de litros de óleo comestível quando se retiraram do Tigré em junho. Os obstáculos ao acesso humanitário estão sendo "monitorados de perto" pelo governo, segundo ela. Mas, no terreno, os suprimentos vitais estão rapidamente acabando - não apenas de comida e remédios, mas também de combustível e dinheiro, necessário para distribuir a ajuda de emergência.

Muitas agências de ajuda começaram a reduzir suas operações no Tigré, citando as condições de trabalho impossíveis. Beasley disse que o Programa Mundial de Alimentos começará a ficar sem produtos na sexta. A luta se desenrola no que já foi a principal estrada de acesso ao Tigré, forçando os grupos de ajuda a recorrer à única alternativa: a estrada precária que liga Tigré a Afar, percorrendo uma paisagem árida em temperaturas elevadas.

Quando viajei por ela, em 4 de julho, a guerra tinha mudado de direção drasticamente.

Dias antes, combatentes do Tigré tinham marchado na capital regional, Mekelle, horas depois que soldados etíopes, assediados, deixaram a cidade. O aeroporto local foi fechado, de modo que a única saída era pelo comboio lento da ONU que tomou a mesma estrada desolada que os soldados etíopes em fuga. Passamos por 13 postos de controle, os primeiros em poder de milicianos e outros guardados por forças do governo etíope. Alcançamos Semera após 12 horas.

Dias depois, um segundo comboio da ONU que rumava para o Tigré não teve tanta sorte. Segundo um trabalhador de ajuda no comboio, a polícia federal da Etiópia submeteu os profissionais de ajuda ocidentais a extensas buscas no caminho e deteve sete motoristas do Tigré durante a noite depois de apreender seus veículos. Os veículos e os motoristas foram liberados dois dias depois.

Em 18 de julho, um comboio de dez veículos da ONU carregando alimentos para a região foi atacado a quase 100 quilômetros ao norte de Semera, quando atiradores não identificados dispararam e saquearam vários caminhões, segundo o programa da ONU. O comboio deu meia-volta e todas as entregas de ajuda nessa rota foram suspensas desde então.

Em um comunicado, o gabinete de Abiy atribuiu o ataque à Frente Popular de Libertação de Tigré, o antigo partido governante da região que as forças do governo nacional estão combatendo. Mas duas autoridades da ONU, falando sob a condição de anonimato para não piorar as relações com as autoridades etíopes, disseram acreditar que o ataque foi realizado por uma milícia pró-governo a pedido das forças de segurança etíopes.

Um raro voo humanitário para o Tigré quatro dias depois confirmou os temores entre trabalhadores da ajuda de que as autoridades etíopes estão seguindo uma estratégia de permitir oficialmente o acesso humanitário enquanto, na prática, trabalham para frustrá-lo.

No principal aeroporto da Etiópia, em Adis Abeba, 30 profissionais de ajuda que embarcavam no primeiro voo da ONU para Mekelle em mais de um mês foram submetidos a intensas buscas e assédio, segundo várias pessoas a bordo. Autoridades etíopes proibiram os trabalhadores de levar dinheiro além do equivalente a US$ 250, telefones via satélite e medicamentos pessoais; a última restrição fez com que uma autoridade da Médicos Sem Fronteiras desembarcasse do avião. Seis horas depois, o voo decolou.

O Programa Mundial de Alimentos divulgou o voo, mas não mencionou os atrasos ou o assédio - omissão que irritou particularmente várias autoridades da ONU e outros trabalhadores de ajuda, que disseram que esse é um padrão das agências da ONU de não divulgar críticas às autoridades etíopes.

Para complicar ainda mais o esforço de ajuda, a guerra agora está rumando para Afar. Na última semana, forças do Tigré entraram na região. Em resposta, Abiy mobilizou milícias étnicas de outras regiões para revidar a ofensiva.

Abiy também recorreu a uma linguagem cada vez mais inflamada, referindo-se aos líderes do Tigré como "câncer" e "ervas daninhas" que precisam ser removidas, o que autoridades estrangeiras veem como combustível para uma nova onda de violência étnica em todo o país.

Billene, a porta-voz, rejeitou esses temores como "alarmistas". O líder etíope estava "claramente se referindo a uma organização terrorista, e não à população do Tigré", disse ela.

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