Bloqueio paraguaio a Chávez

Logo mais, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve concluir a devolução ao Paraguai do canhão Cristão, capturado por tropas brasileiras ao tomar a Fortaleza de Humaitá em 1868, na Guerra da Tríplice Aliança. Bem que os vizinhos podem precisar dele. Há meses, o diminuto país é alvo da artilharia pesada de Hugo Chávez. Mesmo com sua economia em frangalhos e a oposição aos calcanhares, o líder venezuelano está empenhado como nunca em fortalecer a marca do seu Socialismo do Século 21.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

No mês passado visitou Irã, Síria, Líbano, Portugal e Ucrânia, e fechou o giro com um beija-mão dos irmãos Castro. Agora deve relançar a ofensiva para conquistar uma vaga plena no Mercosul. Já se renderam ao canto bolivariano três dos quatro integrantes titulares do mercado comum sul-americano, Brasil, Uruguai e Argentina. Só falta o Paraguai.

Ou, melhor, o Senado paraguaio. Dominado pelo Partido Colorado, que mandou a ferro e fogo no país durante seis décadas, o Senado trava oposição ácida ao presidente Fernando Lugo, este sempre simpático à causa de Chávez. Além do veto à Venezuela, a maioria dos 45 senadores também barrou a entrada do Paraguai na União das Nações Sul-Americanas, a Unasul, pacto de inspiração chavista criado para tocar assuntos das Américas longe da sombra dos EUA.

Quem diria que esse pequeno colegiado, um punhado de legisladores de um país espremido entre gigantes, conseguiria frustrar o avanço do espaçoso comandante Chávez e se tornar firewall da democracia continental? O mundo inteiro conheceu os heróis chilenos, os 33 mineiros resgatados das trevas. Apresentam-se agora "los 45", os legisladores paraguaios na última trincheira entre o continente e o abismo diplomático.

Atrás da resistência há uma desconfiança corrosiva. Mercosul com Venezuela, alega o Parlamento paraguaio, seria um cavalo de Troia para Chávez, que já atropelou a democracia venezuelana e ainda sonha com a evangelização do continente. Já a Unasul é vista como um projeto de interesse estratégico brasileiro, além de um palanque de conveniência para os libelos bolivarianos.

Há quem diga que a exclusão da Venezuela do Mercosul é um equívoco que acaba punindo a nação inteira pelos pecados do seu mandatário. Mais dia menos dia, argumenta-se, Chávez irá embora enquanto o povo e seu país ficarão. Soa bonito, mas o raciocínio está mais furado do que a Fortaleza de Humaitá. O Mercosul não é um mero Lego geográfico, senão um contrato entre povos, pousado sobre instituições e erguido com princípios, valores e práticas compartilhados. Entre eles: "a plena vigência das instituições democráticas", segundo o Protocolo de Ushuaia de 2005, "condição indispensável para a existência e o desenvolvimento do Mercosul". Venezuela até assinou o protocolo e desmoralizou a democracia.

Não que os legisladores paraguaios sejam paladinos de valores e convivência democráticos. O Senado é um balaio de gatos, que abraça de democratas a déspotas, de governistas a intriguistas, não poucos ligados ao golpista general Lino Oviedo. Sua obstinada oposição ao padre-presidente Lugo tem algo de revanche por ele ter interrompido o monopólio colorado, partido que fez o que quis e manteve o Paraguai empobrecido e sob a bota do generalíssimo Alfredo Stroessner por 61 anos. Mas nada como a alternância de poder para resgatar o instinto republicano.

Resistência. Desde que tomou posse, em agosto de 2008, à frente de uma coalizão briguenta, o presidente Lugo viu podados seus planos mais ousados, como expandir os gastos sociais e confiscar terras para reforma agrária. O Senado virou centro da resistência, com bênção do próprio vice-presidente Federico Franco. O atrito constante entre o Executivo e o Parlamento ameaçou paralisar seu governo, levando os governistas a denunciar uma tentativa velada de golpe.

Com o tempo, o presidente Lugo acabou ajustando sua agenda, abrindo mais espaço para a iniciativa livre e até mesmo para a privatização dos aeroportos. Apesar da estranha amálgama política, o Paraguai nunca esteve melhor. Cresce a taxas recordes (de quase 9% ao ano), atrai investimentos graúdos (uma usina de alumínio de $2,5 bilhões da Rio Tinto Alcan) e celebra recordes de exportação de soja e carne. Fraco e negligenciado, o Mercosul não ajuda como poderia. Politizá-lo com a entrada da Venezuela de Chávez seria muito pior.

O governo de Fernando Lugo não desistiu de acolher o pleito venezuelano, mas já não insiste em atropelar o Senado para arrombar a porteira do Mercosul. "Abram seu coração e entendimento e vejam a Venezuela de hoje, bolivariana, que ressuscitou do nada", o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, implorou ao povo "hermano" paraguaio na última cúpula do Mercosul, em agosto.

A resposta da trincheira paraguaia não demorou. "Eu imploraria ao senhor Maduro para convencer Chávez a abrir seu coração" à liberdade de imprensa e à democracia, ironizou o senador Silvio Olevar. O resgate do canhão cristão pode demorar, mas a pontaria de "Los 45" não falha.

É COLUNISTA DO "ESTADO" E CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK"

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