BNDES impulsiona maior presença brasileira na América Latina

Especialistas acreditam que papel do banco vai muito além do mero aspecto comercial ou econômico.

Gerardo Lissardy, BBC

09 de novembro de 2011 | 19h09

Há algo em comum em vários projetos de infraestrutura da América do Sul. Projetos que vão da ampliação do metrô de Caracas à construção da uma estrada na Bolívia, passando pela criação de uma hidroelétrica no Peru. Os três têm financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Ampliando o crédito a empresas brasileiras, o banco vem permitindo uma expansão nunca vista das multinacionais do Brasil na região.

Segundo cifras do BNDES, seus empréstimos para financiar obras de companhias brasileiras na América Latina e Caribe cresceram 1.082% entre 2001 e 2010.

A instituição prevê que este ano seus investimentos na região cheguem a cerca de US$ 860 milhões (um novo aumento em relação ao ano prévio), boa parte deles concentrados na América do Sul.

Além disso, o papel do banco estatal também parece despertar questionamentos. Para alguns, esse papel vai muito além do aspecto comercial ou econômico.

"O BNDES é claramente um instrumento brasileiros para ganhar poder e influência na região", afirmou o especialista em América Latina Thiago de Aragão, do centro de análises Arko Advide, com sede em Brasília.

Internacionalização

Uma pergunta essencial é sobre a exata estratégia internacional do BNDES.

A questão ganhou relevância diante de polêmicas recentes em torno de alguns projetos regionais de empresas brasileiras financiadas pelo banco.

Um deles foi a construção de uma estrada na Bolívia, executada pela empreiteira OAS. O projeto foi interrompido pelo governo de Evo Morales após uma onda de protestos de grupos indígenas, descontentes com o fato de a via passar por uma reserva ambiental.

"Não é um empréstimo direto para os países. Os empréstimos são oferecidos para as empresas brasileiras que se instalam ou têm projetos em outros países", explicou o embaixador Rubens Barbosa, que preside o conselho do comércio exterior da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo).

A superintendente de Comércio Exterior do BNDES, Luciane Machado, disse que o objetivo é "apoiar a estratégia de internacionalização das empresas brasileiras na região."

Em entrevista à BBC, ela afirmou que os negócios que sustentam o banco são feitos respeitando "as soberanias locais e os processos eleitorais dos respectivos governos".

Mas ela admitiu que a maior inserção das empresas brasileiras em outros países pode dar ao Brasil "mais visibilidade e uma interlocução melhor na região".

"Agora, não estou de acordo com a ideia de que façamos essas operações para conquistar esse tipo de resultado."

Chineses

O financiamento do BNDES para exportar bens e serviços brasileiros se realiza a taxas de interesse que muitos vêm como diferenciadas, para dar competitividade às empresas brasileiras.

No entanto, a superintendente da instituição também rechaça essa afirmação, argumentando que "os interesses que cobra o banco se baseiam na taxa Libor" e são ajustados de acordo com o risco da operação.

"Em alguns casos podem chegar a 7% e em outros podem ser mais, não é uma taxa fixa."

Um argumento do BNDES é que seu apoio permite às empresas brasileiras competir em licitações com outras multinacionais que também têm respaldo de seus respectivos países.

"Se o Brasil não for capaz de financiar por meio do BNDES as exportações de bens e serviços, os chineses certamente vão fazer isso. Os espanhóis fizeram isso por muito tempo" e "os americanos tradicionalmente com o banco Ex-im", disse Machado.

O apoio do banco brasileiro costuma significar uma vantagem comparativa para as companhias nacionais frente a outras de países latinoamericanos que precisam de instrumentos similares.

'Imagem expansionista'

"É lamentável que outros países não tenham um instituto como o BNDES, que é uma importante maneira de alavancar as empresas brasileiras", afirmou o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso em entrevista à BBC.

"Institucionalmente, o Brasil se programou melhor que os outros países para isso.'

Além disso, alguns questionam o fato de o Estado brasileiro promover empresas privadas do país no exterior.

O ex-presidente boliviano Carlos Mesa disse, em julho, que esse "casamento" privado-estatal brasileiro "é perigoso e cria uma imagem expansionista", de acordo com uma reportagem do jornal Valor Econômico.

O BNDES foi criado em 1952 para apoiar o desenvolvimento do Brasil, mas seus financiamentos a obras de infraestrutura da região são bastante recentes.

Trampolim

O aumento desses empréstimos ocorreu principalmente durante os governos do PT, primeiro com Lula e agora com Dilma Rousseff.

O BNDES possui hoje uma carteira de US$ 17,2 milhões para o financiamento de obras de infraestrutura na América Latina.

Essa capacidade financeira tem servido como trampolim para o crescimento no exterior de empresas nacionais como a Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e Odebrecht.

O banco financia projetos em toda a América Latina, desde gasodutos na Argentina até portos no Pacífico. Além de apoiar empresas brasileiras em Cuba e na República Dominicana e até no continente africano.

Aragão, da Arko Advice, afirma que um requisito básico do BNDES para apoiar projetos é a viabilidade financeira dos mesmos, mas a estratégia por trás é sobre tudo geopolítica.

"O interesse número um do Brasil é se colocar como o país mais influente da região e fazer com que os vizinhos reconheçam o Brasil com um instrumento de desenvolvimento regional. E o BNDES é o instrumento perfeito para isso." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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