Bo Xilai faz última tentativa para salvar sua reputação

O julgamento mais sensacional na China em décadas terminou nesta segunda-feira com o político desonrado Bo Xilai fazendo alusão ao triângulo amoroso envolvendo sua esposa e o homem considerado seu braço direito - duas testemunhas importantes contra ele. No último esforço de salvar sua reputação, Bo tentou se distanciar de sua esposa, Gu Kailai, admitindo que ela e Wang Lijun tiveram um relacionamento amoroso. "Ele e Gu Kailai eram como cola e tinta", disse Bo, usando uma expressão chinesa para um relacionamento romântico.

AE, Agência Estado

26 de agosto de 2013 | 16h40

O político chinês também optou por não entrar em conflito com o Partido Comunista, ao reconhecer a legitimidade da liderança enquanto se manteve firme em negar as acusações contra ele, um movimento visto como forma de manter sua honra e apelar para a lealdade ao Partido. "Sinto profundamente que falhei com o governo e minha família e isso teve um efeito negativo no Estado. Aceito sinceramente a investigação feita pelo Partido e pelo Departamento de Justiça, mas as acusações de corrupção são falsas."

Em seu depoimento final, Bo acrescentou um toque suave a seus argumentos ao citar temas como filiação piedosa, simplicidade e tradição em um apelo claro à sua base de apoio, composta principalmente de camponeses e trabalhadores mais pobres desiludidos com a percepção de imoralidade nas estruturas do Partido. O político afirmou que o casaco que estava usando tinha sido feito por uma empresa local e que as calças foram compradas por sua mãe nos anos 1960.

A promotoria afirmou que Bo deveria ser severamente punido porque não demonstrou remorso durante os cinco dias em que foi julgado por corrupção, suborno e desvio de dinheiro público que chegou a US$ 4,3 milhões, e por abuso de poder. Acusações que vieram à tona após Bo tentar conter o escândalo que envolveu sua mulher na morte de um empresário inglês e que resultou na sua saída de cargos importantes e do Partido Comunista. A data da sentença não foi marcada. O político chinês enfrenta a possibilidade de prisão perpétua.

Aguerrido, Bo, o ex-líder do Partido Comunista Chinês, atacou os promotores ao afirmar que as evidências não comprovam a sua culpa, ele critica o caso que explorou como testemunhas sua mulher, Gu Kallai, condenada à morte pelo assassinato do empresário britânico Neil Heywood em 2011, e Wang Lijun, chefe de polícia da cidade de Chongqing.

Em seu testemunho, Bo, classificou a esposa, Gu Kailai, como louca e seu ex-chefe de polícia, Wang Lijun, como desonesto, na tentativa de se mostrar como uma autoridade que trabalhou duro para manter limpos os negócios da família e que estava rodeado de pessoas coniventes e fingidas. "Ele (Wang) estava envolvido secretamente com Gu Kailai, suas emoções estavam confusas e ele não poderia separar a situação."

Após cinco dias de julgamento, Bo se defendeu dizendo que as "acusações do Ministério Público contra mim são extremamente unilaterais, arbitrárias e subjetivas".

Os promotores chineses disseram que Bo se recusou a assumir a culpa pelos delitos, mesmo tendo cometido crimes graves. Por isso, a promotoria apelou ao tribunal para impor sanções pesadas, argumentando que Bo havia desmentido as declarações anteriores feitas durante a investigação. "Os crimes cometidos pelo réu são extremamente graves e ele se recusou a admitir a culpa. Não há base legal para a clemência", afirmou a promotoria.

No último dia de julgamento, Bo voltou a criticar o depoimento de Gu e Wang.

Em seu testemunho, Wang afirmou que foi afastado do seu cargo após ter levantado suspeitas do envolvimento da mulher de Bo na morte de Heywood. A promotoria alegou que Bo demitiu Wang porque o chefe de polícia queria reabrir uma investigação sobre a morte de Heywood.

Bo, por sua vez, disse que Wang foi demitido porque era um chefe de polícia antiético. "Wang Lijun disse mentira sobre mentira. Usar o seu testemunho para provar que eu sou culpado não é credível", criticou Bo. "O real motivo de sua demissão foi que ele prejudicou a minha família", afirmou.

Em relação a alegações separadas de que aceitou subornos, Bo disse que "isso é inventado". Os promotores haviam alegado que Bo, "por conta própria ou com a ajuda de sua esposa e seu filho Bo Guagua" aceitaram dinheiro, viagens e outros presentes de empresários chineses. Bo afirmou que Gu Kailai não o incomodaria com tais detalhes sobre despesas pessoais. "O Estado não me promoveu porque eu era bom em contabilidade", acrescentou.

O acusado também desmentiu um testemunho que ele havia feito aos investigadores e que expressou arrependimento por seus atos. "Eu fiz isso contra a minha vontade", segundo consta a transcrição do julgamento e acrescentou que "naquele tempo eu ainda tinha a esperança de que iria manter a minha filiação partidária" e minha vida política.

A queda libre de Bo foi amplamente percebida como resultado de sua derrota nas lutas internas do Partido Comunista antes da primeira transição política em uma década. Por conta desta imagem, as autoridades chinesas adotaram tática incomum na tentativa de legitimar o julgamento e mostrar que Bo foi julgado pelos seus erros, incluindo a divulgação de detalhes do julgamento normalmente vetados, e transcrição dos procedimentos.

Bo avançou para os mais altos cargos na política chinesa, até ser retirado de suas posições no ano passado. A agência de notícias oficial Xinhua informou que o tribunal irá anunciar o veredicto em uma data posterior que ainda não foi divulgada.

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