Bode expiatório

Republicanos e CIA culpam Departamento de Estado por ataque na Líbia

É COLUNISTA, DAVID , BROOKS, THE NEW YORK TIMES , É COLUNISTA, DAVID , BROOKS, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h09

Há 20 anos, uma jovem funcionária do Departamento de Estado em Moscou, Victoria Nuland, me forneceu um relatório sensacional sobre as facções do Parlamento russo. Agora, ela é uma amiga em ascensão, trabalhando com todos, de Dick Cheney a Hillary Clinton.

Nas últimas semanas, os holofotes concentraram-se nela. Há acusação de que agentes da inteligência prepararam argumentos precisos após o ataque em Benghazi, em 2012, e Victoria os diluiu. As acusações partem de republicanos e de agentes da inteligência procurando desviar a culpa do atentado para o Departamento de Estado.

O embaixador Christopher Stevens foi morto no dia 11 de setembro de 2012. Por isso, há muita culpa a ser distribuída. Agora, sabemos que agentes da inteligência subestimaram o grau do perigo da situação. Eles erraram ao vetar a milícia líbia que devia fornecer segurança.

No dia seguinte, Victoria fez um relatório. Disse que o ataque foi feito por extremistas líbios. Não fez nenhuma afirmação de que foi provocado por um vídeo antimuçulmano ou surgiu espontaneamente das manifestações. No dia 14 de setembro, David Petraeus, então diretor da CIA, fez um relatório confidencial para congressistas, que lhe pediram argumentos para discutir o caso na mídia.

Analistas da CIA começaram a trabalhar nos argumentos. Os esboços iniciais, disponíveis no site da ABC News, refletem a situação confusa e fragmentada das informações. O primeiro esboço, assim como todos os subsequentes, dizia que os ataques foram inspirados espontaneamente por protestos no Cairo. Disse também que extremistas com laços com a Al-Qaeda haviam participado.

Investigadores do Congresso agora me dizem que os analistas da CIA retiraram as referências à Al-Qaeda da parte principal do esboço. Na noite do mesmo dia 14, os argumentos atualizados foram enviados a autoridades de vários departamentos, entre as quais, Victoria. Ela se questionou sobre as razões pelas quais a CIA havia fornecido para congressistas argumentos que davam a impressão de que a própria agência emitira inúmeras advertências antes do ataque.

Intencionalmente ou não, a CIA tentava jogar a culpa no Departamento de Estado. No dia seguinte, realizou-se na Casa Branca uma reunião na qual os tais argumentos mal foram mencionados. Em vez disso, o representante da CIA disse que tomaria medidas para melhorar a segurança.

Várias coisas estavam ocorrendo. Primeiro, cada um dos diferentes atores tinha em mãos uma parte distinta do caso. Se havia algum argumento que não contasse com a concordância de todos, era cortado. Segundo, o governo procedeu com cautela sobre tirar conclusões, possivelmente escaldado pelos anos de George W. Bush. Terceiro, à medida que os memorandos subiam pela hierarquia da CIA, os funcionários os tornavam mais mornos. Finalmente, na falta de uma narrativa clara, os argumentos gravitaram para a história menos problemática, culpando o vídeo antimuçulmano e os protestos no Cairo.

Será esse um caso de informações consistentes da inteligência sendo distorcidas por motivos políticos? Talvez. Victoria teria adulterado os argumentos para ajudar Hillary Clinton ou Obama? Essa acusação é negada pelas evidências. Ela foi apanhada numa guerra brutal entre agências e defendeu seu departamento. As acusações contra ela são falsas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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