Bôeres acreditam ter direito divino sobre os negros

O típico bôer fala africâner e diz que é descendente direto do holandês Jan van Riebeeck, que fundou a Colônia do Cabo, primeiro povoamento branco na região, em 1652.

, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

"Desde o início, a ocupação branca da África do Sul foi marcada pelo isolamento, muito parecido com as colônias britânicas nos Estados Unidos", diz a historiadora francesa Marianne Cornevin, autora de vários estudos sobre o apartheid. A diferença é que, em 1800, enquanto na Colônia do Cabo havia 20 mil colonos, os Estados Unidos já tinham mais de 3 milhões de habitantes.

Os africâneres eram protestantes, muito religiosos, e passaram a acreditar que Deus os havia colocado naquele lugar para espalhar a civilização cristã pela África. Mas a Grã-Bretanha tomou a região da Holanda, em 1814, e começou a impor ideias liberais aos colonos. A mais inaceitável delas foi a abolição da escravidão, em 1833.

Inconformados, os bôeres fizeram as malas e organizaram um gigantesco movimento migratório, conhecido como a Granda Caravana, em direção ao interior da África do Sul. A caminhada pelo Deserto do Karoo foi logo identificada com o Êxodo, da Bíblia.

Assim como os hebreus, os africâneres seguiam em direção à sua terra prometida. Logo que chegaram aos campos férteis da região central do país, os encontraram ocupados por pastores cossa. "Obviamente, como eles eram o povo escolhido, tinham todo o direito de escorraçar os negros da terra prometida", afirma Marianne. "Essa convicção foi essencial para a formação da doutrina do apartheid na África do Sul".

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