Mauricio Dueñas/Efe
Mauricio Dueñas/Efe

Bogotá e Farc trocam acusações no início do diálogo de paz na Noruega

Bate-boca sobre capital estrangeiro na Colômbia mostra diferenças que terão de ser superadas

O Estado de S. Paulo,

18 de outubro de 2012 | 20h52

HURDAL, NORUEGA - Representantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do governo de Bogotá, que se encontraram na Noruega quarta-feira para iniciar uma nova rodada de negociações de paz, deram nesta quinta-feira, 18, uma mostra das profundas diferenças que terão de superar. Os líderes de ambas as delegações trocaram farpas publicamente sobre a presença do capital estrangeiro em território colombiano.

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"A locomotiva mineiro-energética é como um demônio de destruição socioambiental que, se o povo não detiver, em menos de uma década converterá a Colômbia em um país inviável", declarou o guerrilheiro Iván Márquez, negociador-chefe das Farc, em sua primeira aparição desde 2007. "Na Colômbia não há economia nacional. Quem exporta o petróleo, o carvão, o ferro-níquel, o ouro, e se beneficia disso, são as multinacionais. A prosperidade, então, é delas e dos governantes vendidos - não do país."

O ex-vice-presidente colombiano e líder da equipe do governo de Bogotá, Humberto de la Calle, respondeu rispidamente. "Quero reiterar a propósito da questão mineiro-energética que não estamos discutindo o modelo de desenvolvimento econômico (da Colômbia) e não estamos discutindo o investimento estrangeiro. Para que isso seja discutido na agenda colombiana, as Farc têm de deixar as armas, fazer política e ganhar eleições. Mas, neste momento, isso não faz parte da mesa."

A exploração de petróleo e minérios é o principal motor da economia colombiana, que cresceu 5,9% em 2011 e, segundo previsões, terá uma expansão de ao menos 4,8% este ano.

Analistas políticos ouvidos pelo Estado afirmaram que a polarização expressada após o primeiro encontro público entre o governo do presidente Juan Manuel Santos e as Farc não deverá resultar em dificuldades além das já esperadas no processo de paz.

"Não temos de levar isso muito a sério. As Farc estão muito debilitadas militarmente e sem prestígio político - o que facilita que os diálogos com o governo ocorram. Por esse motivo, (os insurgentes) querem impor sua posição de guerrilha radical de esquerda. A questão é se esse tom (entre ambas as partes) vai prosseguir em Havana. Sabemos de antemão que essa negociação de paz será difícil e deverá durar muito tempo", disse o sociólogo Daniel Pécaut, autor do livro As Farc - uma guerrilha sem fins?.

O cientista político Carlos Medina Gallego afirmou que a discussão entre os negociadores "não deve provocar incertezas". "Pelo contrário, essa polaridade será favorável para ambas as partes na negociação. É importante que discutam a agenda (já estabelecida), não outros assuntos. Mas não deixa de ser infeliz que o chefe da delegação do governo tenha essa posição autoritária e pouco diplomática. As Farc não podem renunciar ao que lutaram por toda a sua existência."

Cuba

Os negociadores anunciaram que os diálogos de paz continuarão em Cuba no dia 15. A agenda de discussão incluirá políticas de reforma agrária - uma das reivindicações históricas das Farc - a transição dos guerrilheiros para a política colombiana, o fim do conflito, o combate à produção e ao tráfico de drogas e a reparação às vítimas da guerra civil.

"Viemos com um sonho coletivo de paz, um ramo de oliveira em nossas mãos", disse Iván Márquez. "Este é um momento de esperança. Acreditamos que existam oportunidades reais para a paz", declarou Humberto de la Calle.

Com Reuters e Guilherme Russo, O Estado de S. Paulo

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