Bogotá e Farc trocam acusações no início do diálogo de paz na Noruega

Representantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do governo de Bogotá, que se encontraram na Noruega quarta-feira para iniciar uma nova rodada de negociações de paz, deram ontem uma mostra das profundas diferenças que terão de superar. Os líderes de ambas as delegações trocaram farpas publicamente sobre a presença do capital estrangeiro em território colombiano.

HURDAL, NORUEGA, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2012 | 08h41

"A locomotiva mineiro-energética é como um demônio de destruição socioambiental que, se o povo não detiver, em menos de uma década converterá a Colômbia em um país inviável", declarou o guerrilheiro Iván Márquez, negociador-chefe das Farc, em sua primeira aparição desde 2007. "Na Colômbia não há economia nacional. Quem exporta o petróleo, o carvão, o ferro-níquel, o ouro, e se beneficia disso, são as multinacionais. A prosperidade, então, é delas e dos governantes vendidos - não do país."

O ex-vice-presidente colombiano e líder da equipe do governo de Bogotá, Humberto de la Calle, respondeu rispidamente. "Quero reiterar a propósito da questão mineiro-energética que não estamos discutindo o modelo de desenvolvimento econômico (da Colômbia) e não estamos discutindo o investimento estrangeiro. Para que isso seja discutido na agenda colombiana, as Farc têm de deixar as armas, fazer política e ganhar eleições. Mas, neste momento, isso não faz parte da mesa."

A exploração de petróleo e minérios é o principal motor da economia colombiana, que cresceu 5,9% em 2011 e, segundo previsões, terá uma expansão de ao menos 4,8% este ano.

Analistas políticos ouvidos pelo Estado afirmaram que a polarização expressada após o primeiro encontro público entre o governo do presidente Juan Manuel Santos e as Farc não deverá resultar em dificuldades além das já esperadas no processo de paz.

"Não temos de levar isso muito a sério. As Farc estão muito debilitadas militarmente e sem prestígio político - o que facilita que os diálogos com o governo ocorram. Por esse motivo, (os insurgentes) querem impor sua posição de guerrilha radical de esquerda. A questão é se esse tom (entre ambas as partes) vai prosseguir em Havana. Sabemos de antemão que essa negociação de paz será difícil e deverá durar muito tempo", disse o sociólogo Daniel Pécaut, autor do livro As Farc - uma guerrilha sem fins?.

O cientista político Carlos Medina Gallego afirmou que a discussão entre os negociadores "não deve provocar incertezas". "Pelo contrário, essa polaridade será favorável para ambas as partes na negociação. É importante que discutam a agenda (já estabelecida), não outros assuntos. Mas não deixa de ser infeliz que o chefe da delegação do governo tenha essa posição autoritária e pouco diplomática. As Farc não podem renunciar ao que lutaram por toda a sua existência."

Cuba. Os negociadores anunciaram que os diálogos de paz continuarão em Cuba no dia 15. A agenda de discussão incluirá políticas de reforma agrária - uma das reivindicações históricas das Farc - a transição dos guerrilheiros para a política colombiana, o fim do conflito, o combate à produção e ao tráfico de drogas e a reparação às vítimas da guerra civil.

"Viemos com um sonho coletivo de paz, um ramo de oliveira em nossas mãos", disse Iván Márquez. "Este é um momento de esperança. Acreditamos que existam oportunidades reais para a paz", declarou Humberto de la Calle. / REUTERS, COM GUILHERME RUSSO

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