Bogotá estimula deserção para derrotar as Farc

Com o cerco se fechando sobre a guerrilha, governo aposta nas delações e recompensas para pôr fim a quase 50 anos de guerra

Edward Jaramillo González, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Nas gigantescas passeatas realizadas em Bogotá em repúdio às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a população não pede o processo de paz. Nos milhares de cartazes e faixas exibidos, os pedidos mais frequente são de deserção e rendição dos guerrilheiros - as duas principais armas do governo colombiano para vencer essa guerra que já dura quase 50 anos.

A prova mais recente disso foi a Operação Sodoma do Exército colombiano que, na quinta-feira, provocou a morte do líder militar das Farc, Jorge Briceño, conhecido como "Mono Jojoy", e outros 20 guerrilheiros no Departamento (Estado) de Meta, no que foi considerado o mais duro golpe contra a guerrilha.

Apesar de contar com o apoio de 30 aviões de combate e 27 helicópteros, a ação não teria tido sucesso se não fosse o apoio de guerrilheiros decididos a delatar seus comandantes.

"A força do nosso serviço de informações são as pessoas. Aproveitamos os pontos fracos que hoje existem no interior das Farc. Há guerrilheiros cansados dos maus-tratos de seus superiores e de uma guerra que estão perdendo, conforme demonstra esta operação. Graças a eles, pudemos chegar muito perto de suas estruturas. Antes de realizar a Operação Sodoma, precisamos conhecer os horários das atividades diárias de "Mono Jojoy", a que horas ele se levantava e deitava, para saber como atacá-lo, e conseguimos isso", disse Álvaro Echandía, comandante da Marinha, considerado o cérebro da Operação Sodoma.

Um dia antes do ataque, o governo colombiano recebeu uma carta das Farc, na qual a organização dizia estar disposta a negociar, mas sem suspender nenhuma das suas ações, atentados ou sequestros. O presidente Juan Manuel Santos respondeu que, para sentar à mesa para dialogar não deveria impor nenhuma condição, abandonar toda ação armada e libertar todos os reféns que continuam em seu poder.

Para os analistas, a determinação de Santos vem da certeza de que as Farc não só têm uma capacidade limitada para provocar danos, como experimentam fortes divisões internas.

Por isso, na quinta-feira, durante a transmissão das últimas notícias pela televisão e pelo rádio, com os detalhes da operação, aumentaram os apelos do governo para a desmobilização da guerrilha. No mesmo dia, foi criada uma comissão extraordinária do Ministério da Defesa para chegar à zona de La Macarena e apresentar a proposta de reinserção aos guerrilheiros que quisessem desertar.

"Devemos nos preparar agora para ver quantos guerrilheiros começarão a depor as armas nos próximos dias", disse ao Estado o analista colombiano Pedro Medellín.

Santos já disse que se o líder máximo das Farc, conhecido como Alfonso Cano, ou outros membros da cúpula se renderem terão a garantia de que suas vidas serão poupadas, mas também ameaçou dizendo que a morte de "Jojoy" foi só o começo.

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