AP Photo/Fernando Vergara
AP Photo/Fernando Vergara

Bogotá tenta salvar negociações de paz com as Farc e convida oposição

Governo do presidente Juan Manuel Santos forma comissões e chama opositores do Centro Democrático, liderado por Álvaro Uribe, para mesa de diálogo após população rejeitar acordo com a guerrilha em plebiscito realizado no domingo

Fernanda Simas ENVIADA ESPECIAL / BOGOTÁ, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2016 | 05h00

Após o surpreendente resultado do plebiscito sobre o acordo de paz entre o governo do presidente Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o novo cenário político colombiano está marcado por incertezas e velhas disputas, mas situação e oposição decidiram formar comissões e iniciar diálogos que levem a uma renegociação do pacto.

“Recebo com entusiasmo a designação de três porta-vozes do Centro Democrático para sentarmos e dialogarmos e chegarmos a um final feliz do processo de paz”, anunciou o presidente ontem após o partido opositor formar uma comissão, com Óscar Iván Zuluaga, Iván Duque e Carlos Holmes Trujillo, para conversar com o governo.

Em resposta, Santos determinou que Humberto de la Calle, chefe negociador em Havana, a chanceler, María Ángela Holguín, e o ministro da Defesa, Luis Carlos Villegas, integrem a equipe do governo e “comecem os diálogos que permitam abordar todos os temas necessários para ter um acordo”. O presidente ressaltou a necessidade de agir rapidamente e estabelecer prazos em razão da incerteza vivida no país. 

A jornada de ontem começou sem uma definição política já que, um dia depois de convocar “todas as forças políticas” para uma reunião, Santos recebeu o apoio dos partidos favoráveis ao acordo, mas realizou o encontro sem a presença do Centro Democrático. Além disso, pela manhã, De la Calle assumiu a culpa por “qualquer erro político” do processo, que durou quatro anos, e colocou seu cargo à disposição do presidente, que não aceitou e o ratificou na função horas depois.

Enquanto o presidente realizava o encontro solicitado após a derrota na consulta de domingo, o senador e ex-presidente Álvaro Uribe, que liderou a campanha pelo “não”, participava de uma reunião interna do partido. 

Durante a tarde, no Senado, Uribe voltou a pedir que seu partido seja ouvido. “Fizemos um esforço de diálogo muito grande e ninguém nos escutou. Faremos uma comissão do ‘não’, mas pergunto: haverá disposição de nos escutar e realizar mudanças (no acordo)?”, disse Uribe dirigindo-se aos senadores.

Segundo o cientista político Frédéric Massé, professor da Universidade Externado na Colômbia, a situação de Santos é complicada, principalmente porque “ele não tinha obrigação jurídica de convocar o plebiscito”. “Quando ele anunciou que realizaria a consulta, em 2012 ainda, achava que o processo acabaria em um ano, mas levou quatro anos e o contexto mudou. No fim, o povo colombiano estava mais polarizado do que o governo esperava.”

Massé acredita que o presidente deve renegociar pontos do acordo de paz e o uribismo ganha força como isso. “Uribe terá mais poder, mas a pergunta é que tipo de poder. Não sei que tipo de papel o uribismo terá nessa negociação.”

Intenções. Enquanto a situação política interna caminha para o diálogo, do lado das Farc a posição é de manter o cessar-fogo e aguardar os movimentos de Uribe. “As partes do acordo seguem trabalhando, agora precisamos esperar que os porta-vozes do ‘não’ falem o que deve mudar nos acordos”, afirmou ao Estado o advogado espanhol das Farc, Enrique Santiago Romero, que atuou no diálogo de Havana.

Ontem, De la Calle e o alto comissário para a paz, Sergio Jaramillo, viajaram para Havana, Cuba, onde se encontrarão com negociadores das Farc para tratar dos passos necessários para que o acordo não morra. 

Para Massé, as Farc não têm alternativa no momento. “Uma possibilidade seria voltar à luta armada, mas, para os negociadores em Havana e a maioria (da guerrilha), essa não é a melhor saída. Então, terão de fazer algumas concessões.”

Santiago qualificou o resultado da votação de domingo de “triste e trágico”, mas afirmou que o compromisso com as vítimas deve ser mantido e o plebiscito, como determinado pela lei colombiana, não tem resultado vinculante. 

O mesmo tom foi adotado pelo negociador-chefe da guerrilha, Luciano Marín Arango, conhecido como Iván Márquez. “Em recente sentença, a Corte estabeleceu que o plebiscito não tem efeito jurídico. O efeito é político”, escreveu no Twitter. Sobre a questão das vítimas, Iván Márquez garantiu que as frentes guerrilheiras manterão o cessar-fogo “para a tranquilidade das vítimas e em respeito ao que foi pactuado”. 

Após a surpresa com o resultado do plebiscito, os colombianos, a favor ou contra o acordo, dizem ter esperança de que a paz será alcançada no país. “Ontem (domingo) isso aqui estava uma tristeza, eu não entendia, acho que faltou pedagogia e escutar os outros, saber o que as pessoas que estavam do lado do ‘não’ queriam”, afirmou o estudante de antropologia Julián Castillo. O estudante diz não concordar com as posições políticas de Santos, mas elogiou a maneira como ele negociou com a guerrilha e o discurso após o anúncio da vitória do ‘não’. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.