Boicotar a vodca não ajudará gays

Dependência que a Rússia tem da bebida já não é a mesma

Mark Lawrence Schrad *, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2013 | 02h01

O colunista favorito de sexo e relacionamentos dos EUA, Dan Savage, sugeriu um boicote à vodca russa para protestar contra os ataques violentos a gays por valentões nacionalistas e a legislação antigay apoiada pelo presidente Vladimir Putin. É uma resposta compreensível, mas as perspectivas de êxito do boicote são tênues, e o potencial de o tiro sair pela culatra prejudicando gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros russos é alto.

Sondagens de opinião estimam que dois terços dos russos consideram a homossexualidade inaceitável em quaisquer circunstâncias, algo parecido com o pensamento americano três décadas atrás. No contexto conservador russo, uma ameaça percebida, mesmo que simbólica, do Ocidente liberal seria uma bênção para Putin, que pode posar a um só tempo de defensor da família tradicional russa, dos valores cristãos ortodoxos e do orgulho nacional. E à medida que a Rússia se tornar mais xenofóbica e reacionária, sua comunidade gay será vista com ainda mais estranheza - um rumo oposto ao da tolerância e da integração.

Chego a essa conclusão com ambiguidade. A vodca e o Kremlin tiveram de fato uma longa história de mútua dependência. Durante séculos, o Estado russo usou a vodca para oprimir e explorar seu povo. Líderes - Ivan, o Terrível, Pedro, o Grande, e Joseph Stalin - obrigaram seus colegas mais próximos a beber até o estupor para mantê-los divididos e dependentes. E o Estado empurrou vodca para seu povo para mantê-lo cambaleante e subserviente - enquanto transformava num imenso sucesso de venda a bebida alcoólica que estava matando seu povo.

De 1763, durante o reinado de Catarina, a Grande, a 1914, quando Nicolau II instituiu a proibição para ajudar a mobilização para a 1.ª Guerra, as receitas com impostos sobre bebidas alcoólicas subiram cerca de 25% para 40% de toda a receita estatal, o suficiente para sustentar um dos maiores Exércitos do mundo e para manter os palácios opulentos dos Romanovs. Mesmo nos anos 70 e 80 do século passado, as receitas com a vodca constituíam um quarto da receita da URSS.

Os dissidentes de toda parte há muito reconhecem a capacidade opressora do álcool. Em 1845, o americano Frederick Douglass, que se notabilizou como um dos primeiros negros oradores em defesa da abolição, disse que embebedar escravos era "o meio mais eficaz que os proprietários tinham para aplacar o espírito insurrecional".

A um mundo de distância, em 1858-9, os servos do Báltico ao Volga boicotaram a vodca impingida pelo Estado. Enquanto tabernas se esvaziavam e destilarias fechavam, o governo respondia com brutalidade. "Os abstêmios eram chicoteados para beber. Alguns que teimosamente se recusavam tinham a bebida despejada em suas bocas por funis e depois eram atirados à prisão como rebeldes", escreveu um jornalista britânico horrorizado.

Escritores como Dostoievski e Turgueniev usavam a vodca para ressaltar o atraso e a bancarrota moral da ordem autocrática. Tolstoi criou uma sociedade de temperança para promover o progresso espiritual e material dos russos contra o poder do Estado e a Igreja (esse desafio lhe custou a excomunhão). Da mesma forma, dissidentes soviéticos, de Andrei Sakharov a Aleksander Soljenitsyn, eram abstêmios.

Por que, então, não devemos apoiar o apelo bem intencionado de Savage a um boicote? Primeiro, beber Absolut, Belveder ou Ketel One em vez de Stolichnaya é uma ação simbólica, como mudar a própria foto de perfil do Facebook ou compartilhar um vídeo no YouTube, o que muda pouco para os gays e lésbicas da Rússia.

Segundo, um boicote permite que Putin retrate o bicho-papão americano disposto a violar a soberania russa. Da Emenda Jackson-Vanik, em 1974, que impôs sanções à URSS por restringir a emigração de judeus, à lei do ano passado que pune autoridades russas alegadamente cúmplices na morte de um investigador de fraudes, os EUA têm uma longa história de ingerência ineficaz nos assuntos russos. A maioria dos cientistas políticos concorda que sanções raramente produzem os resultados desejados e podem minar a eficácia e credibilidade de grupos de oposição domésticos.

Terceiro e mais importante, a dependência histórica do Kremlin da receita da vodca em grande parte terminou - o que torna os esforços para aplicar o boicote ineficazes e até embaraçosos. Muitos bares deixaram de servir Smirnoff, que já era produzida nos EUA, e não na Rússia, nos anos 30, e hoje é produzida por um conglomerado britânico, Diageo.

A Stolichnaya tem sido o alvo principal - o Hotel Moskva em seu rótulo tem sido quase sinônimo da Rússia desde 1972, quando a marca passou a ser vendida nos EUA. Infelizmente, a Stoli que bebemos é destilada na Letônia e pertence ao SPI Group, com base em Luxemburgo, ao contrário da (mais barata e menos venerada) Stoli consumida na Rússia, produzida pela alquebrada estatal FKP Soyuzplodoimport.

O diretor presidente da SPI, Val Mendeleev, recuou da condenação da legislação antigay. Savage observa que a SPI pertence a Yuri Scheffler, um magnata. Mas ele e Mendeleev fugiram da Rússia anos atrás, assim como muitos oligarcas que se opunham a Putin, para evitar o exílio ou a prisão.

O Kremlin não é amigo de gays, mas um boicote simbólico e ineficaz não ajudará. Uma abordagem melhor para ativistas da causa gay na Rússia e seus aliados no exterior é associar a causa (não fosse isso impopular) da igualdade gay a problemas que têm uma ressonância mais ampla na Rússia, como a corrupção endêmica e o estado de direito capenga. Enquadrar a luta por igualdade nesses termos provavelmente ganhará mais simpatia do que injuriar a garrafa.

*Mark Lawrence Schrad é professor assistente de Ciências Políticas na Universidade de Villanova e autor do livro: 'Vodka politics: alcohol, autocracy, and the secret history of the russian state'.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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